quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Texto para resumo dos alunos Madalena Silva (10ºA) e Manuel Casimiro (10ºB)



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VI.Argumentos dedutivos

Todos os argumentos que até agora apreciamos têm um certo grau de incerteza, de uma maneira ou de outra. Exemplos novos podem sempre refutar um argumento com base em exemplos, e até uma fonte informada e imparcial pode estar errada. No entanto, os argumentos dedutivos bem construídos são argumentos em que a verdade das premissas garante a verdade das conclusões.

Se não há fatores de sorte no xadrez, então o xadrez depende unicamente do talento dos jogadores.
Não há fatores de sorte no xadrez.
Logo, o xadrez depende unicamente do talento dos jogadores.

Se estas duas premissas são verdadeiras, então tem também de ser verdade que o xadrez depende unicamente do talento dos jogadores. Para discordar da conclusão, o leitor teria de discordar também de pelo menos uma das premissas.
Os argumentos dedutivos oferecem, pois, certezas —mas apenas se as respectivas premissas forem também certas. Uma vez que as premissas dos nossos argumentos. Raramente são de fato assim, as conclusões dos argumentos dedutivos da vida real têm ainda assim de ser apreciadas com algumas (por vezes muitas!) reticências. No entanto, quando conseguimos encontrar premissas fidedignas, as formas dedutivas são muito úteis. Lembre-se da regra 3: tente começar com premissas fidedignas.
Mesmo quando as premissas são incertas, as formas dedutivas oferecem uma maneira efetiva de organizar um argumento, especialmente num ensaio argumentativo. Este capítulo apresenta seis formas dedutivas comuns com exemplos simples, cada uma com uma regra própria. Os capítulos VII-IX voltarão a tratar do seu uso nos ensaios argumentativos.

MODUS PONENS
Os argumentos dedutivos bem formados chamam-se argumentos válidos. Usando as letras p e q em representação de duas frases, a forma dedutiva mais simples é:
Se [frase p], então [frase q].
[Frase p].
Logo, [frase q].

Ou, mais sucintamente:
Se p, então q.
p.
Logo, q.

Esta forma chama-se modus ponens («o modo de pôr»: ponha p, fique com q). Se p representar «não há fatores de sorte no xadrez» e q «o xadrez depende unicamente do talento dos jogadores», o nosso exemplo introdutório é um caso de modus ponens. Verifique-o.
Muitas vezes um argumento destes é tão óbvio que não precisa de ser formulado como um modus ponens.

Uma vez que os otimistas têm mais hipóteses de terem sucesso do que os pessimistas, devias ser otimista.
Este argumento pode escrever-se assim:
Se os otimistas têm mais hipóteses de terem sucesso do que os pessimistas, devias
ser otimista.
Os otimistas têm mais hipóteses de terem sucesso do que os pessimistas.
Logo, devias ser otimista.

No entanto, o argumento é perfeitamente claro sem o pormos nesta forma. Outras vezes, no entanto; é útil escrevermos o modus ponens:

Se existem milhões de planetas habitáveis na nossa galáxia, então parece provável que a vida se tenha desenvolvido em mais do que um planeta.
Existem milhões de planetas habitáveis na nossa galáxia.
Logo, parece provável que a vida tenha evoluído em mais do que um planeta.

Para desenvolvermos este argumento temos de defender e explicar ambas as premissas e elas requerem argumentos bastante diferentes (porquê?). E útil formulá-los clara e separadamente desde o início.

WESTON, Anthony. Arte de Argumentar, Gradiva, Lisboa. Pp. 28, 29 e 30

Colocado por Professor David e Professor Rafael

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

TEXTO PARA RESUMO - João Parreira -10A



COMENTE A BANDA DESENHADA

Todos nós raciocinamos. Tentamos descobrir como as coisas são raciocinando com base naquilo que já sabemos. Tentamos persuadir os outros de que algo é de determinada maneira dando-lhes razões. A lógica é o estudo do que conta como uma boa razão para o quê, e porquê. Temos no entanto de compreender esta afirmação de um certo modo. Aqui estão dois trechos de raciocínio — os lógicos chamam-lhes inferências:


1.       Roma é a capital da Itália, e este avião aterra em Roma; logo, o avião aterra na Itália.

2.       Moscovo é a capital dos EUA; logo, não podemos ir a Moscovo sem ir aos EUA.


            Em ambos os casos as afirmações antes do «logo» — os lógicos chamam-lhes premissas — são as razões dadas; as afirmações depois do «logo» — os lógicos chamam-lhes conclusões — são aquilo que as razões devem sustentar. O primeiro trecho de raciocínio está correcto, mas o segundo é completamente descabido, e não iria persuadir ninguém com um conhecimento elementar de geografia: a premissa de que Moscovo é a capital dos EUA é, simplesmente, falsa. Note-se que, contudo, se a premissa fosse verdadeira — por exemplo, se os EUA tivessem comprado a Rússia toda (e não apenas o Alasca) e tivessem mudado a Casa Branca para Moscovo para estarem perto dos centros do poder Europeus — a conclusão seria de facto verdadeira. A conclusão ter-se-ia seguido da premissa; e essa é a preocupação da lógica. A lógica não se preocupa em saber se as premissas de uma inferência são verdadeiras ou falsas. Isso é o trabalho de outras pessoas (neste caso, do geógrafo). A lógica apenas está preocupada em saber se a conclusão se segue das premissas. Os lógicos chamam válidas a todas as inferências em que de facto a conclusão se segue das premissas. Assim, o objectivo principal da lógica é compreender a validade.
Graham Priest, Lógica, Temas e Debates, 2002 (Trad. Célia Teixeira), p.15-16

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

A. Ponto teórico prévio:



Compreender os instrumentos do pensamento e do discurso permite-nos compreender a sua estrutura.


São esses instrumentos que permitem o conhecimento.


É a análise desses instrumentos, isto é, da estrutura do pensamento, na validade dos argumentos que utiliza que é o trabalho da Lógica. A verdade não é objecto de estudo da Lógica mas sim das outras ciências.


Esse trabalho pretende determinar e explicar a validade dos nossos raciocínios, que se traduzem em argumentos quando são expressos numa linguagem.


A lógica estuda, portanto, a estrutura do pensamento, a forma e as condições da validade dos raciocínios ou argumentos.


B. Os instrumentos que estruturam o pensamento:



1. Os Conceitos ou Termos


O primeiro elemento que compõe a estrutura do pensamento é o conceito.


O conceito é uma abstracção, ou ideia. É produto do pensamento e pretende pensar e referir classes de objectos com as mesmas características.


Cada conceito tem assim, uma compreensão e uma extensão.


A compreensão do conceito implica o seu significado, a ideia que lhe subjaz.


Por exemplo “estrela”: “astro com luz própria” esta é a ideia ou significado do conceito.


A sua extensão corresponde a todos os elementos que têm estas características.


A extensão de um conceito é inversamente proporcional à sua compreensão.


Porque para compreender estrela tenho de compreender o que é um astro e tenho de compreender o que significa ter luz própria, mas para compreender astro eu não preciso de compreender estrela, logo o conceito de astro tem mais extensão mas menos compreensão.


Aos conceitos, quando expressos numa linguagem , chamamos Termos Gerais. Distinguem-se dos termos singulares que expressam nomes, classes com apenas um elemento.Na lógica formal ou dedutiva podemos formalizar os conceitos substituindo-os por letras porque o seu conteúdo é irrelevante.(chamam-se variáveis).
TERMOS DIFERENTES - O MESMO CONCEITO
Dog, Perro, Cão


2. Os Juízos ou Proposições


A relação entre conceitos/termos permite manifestar  o  nosso conhecimento do mundo. Exemplo:


“O Sol é uma estrela. “ ou “ O Sol não é um planeta” Ao relacionar conceitos fazemos juízos, isto é declarações sobre os conceitos. Nestas declarações pode-se afirmar ou negar um conceito de outro.


Os juízos, quando são traduzidos numa qualquer linguagem, chamam-se proposições.
AS PROPOSIÇÕES SÂO FRASES DECLARATIVAS COM VALOR DE VERDADE, isto é, podem ser verdadeiras ou falsas. Serão verdadeiras quando o conteúdo do que é pensado e dito corresponde à realidade e falsas se isso não ocorrer.


Há frases que não são juízos/proposições porque não são verdadeiras nem falsas. Por exemplo:


“Aconselho-te a pagar impostos” ou “ Importas-te de fechar a porta!”
A proposição é o conteudo da frase (O juízo que a frase enuncia)
FRASES DIFERENTES PODEM CORRESPONDER À MESMA PROPOSIÇÂO.
Exemplo: Le garçon est simpatique
O rapaz é simpático


Na linguagem da lógica formal porque podemos substituir a linguagem natural por uma linguagem simbólica, uma vez que em lógica formal o conteúdo do que se diz é irrelevante e apenas interessa a forma lógica ou estrutura do raciocínio.


São muitos os juízos/proposições que fazemos sobre a realidade. Vamos estudar apenas três tipos de proposições, as mais elementares:


Categóricas: Forma lógica: A é B Exemplo: “Estrela é um astro com luz própria.” Estudadas por Aristóteles.


Condicionais ou hipotéticas: Forma lógica: Se A então B Exemplo: “Se as estrelas são astros então são corpos do universo”


Disjuntivas: Ou A ou B “ Ou as estrelas são acessíveis ao homem ou só podemos fazer conjecturas sobre elas.”

Conjuntivas " O autor da Metafísica é grego e é filósofo"


3. Os Raciocínios ou Argumentos.


Com os juízos/proposições podemos construir raciocínios. Os raciocínios quando expressos numa linguagem chamam-se argumentos. Os raciocínios/argumentos são inferências em que de uma ou mais proposições retiramos uma outra que é a conclusão. Os elementos que constituem o argumento são as premissas (as proposições que sustentam racionalmente a conclusão) e a conclusão ( proposição sustentada e justificada pelas premissas). Os argumentos são o objecto de estudo da lógica. A propriedade de um argumento é a validade. Serão válidos os argumentos em que as premissas sustentam a conclusão e inválidos se isso não acontecer, isto é, se as premissas não sustentarem a conclusão. Sendo essa definição apropriada para a lógica formal e informal, isto é para todo o tipo de argumentos. Quando inválidos cometem falácias, erros de raciocínio.


4. Argumentos dedutivos e indutivos


A. Os argumentos dedutivos são estudados na lógica formal porque podem ser reduzidos a uma forma lógica.


Os argumentos dedutivos utilizam nas premissas e conclusão proposições do tipo que vimos acima. Sendo chamados de Silogismos (se utilizam proposições categóricas) Hipotéticos (se utilizam proposições hipotéticas) e Disjuntivos (Se utilizam proposições disjuntivas).


A validade na lógica formal é independente do conteúdo daquilo que se diz e depende apenas da forma lógica. Há formas lógicas válidas e formas inválidas ou falaciosas. Como este tipo de argumentos preserva na conclusão a verdade das premissas, podemos enunciar a validade dedutiva do seguinte modo: se admitirmos a verdade das premissas a conclusão tem de ser verdadeira (não pode ser falsa). Pois num argumento dedutivo a verdade das premissas sustenta a verdade da conclusão. Mas se as premissas forem falsas o argumento pode ser válido (porque tem uma forma válida) mas aí já não está assegurada a verdade da conclusão, que tanto pode ser verdadeira como falsa. Estes argumentos embora válidos não são sólidos. Um argumento dedutivo válido não pode, portanto, ter premissas verdadeiras e conclusão falsa.


B. Para além dos raciocínios/argumentos dedutivos há outros tipos de raciocínios/argumentos não dedutivos ou indutivos que são estudados pela lógica informal. Estes não podem ser reduzidos a uma forma lógica, a sua validade depende do conteúdo das premissas e da conclusão. Nos argumentos não dedutivos válidos se as premissas forem verdadeiras a conclusão é provavelmente verdadeira mas pode ser falsa. Ao contrário dos argumentos dedutivos, a conclusão não é necessariamente verdadeira se as premissas forem verdadeiras, mas apenas, provavelmente verdadeira.


Nestes argumentos a conclusão acrescenta conhecimento às premissas, enquanto na dedução isso não acontece. Por outro lado estes argumentos são menos rigorosos uma vez que a conclusão pode não manter a verdade das premissas.


Serão válidos se as premissas sustentarem racionalmente a conclusão, se isso não acontecer, é porque o argumento comete uma falácia, assim sendo as premissas não sustentam a conclusão e o argumento não é válido.

Responda, numa folha, às seguintes questões:


1. O que estuda a Lógica?


2. Quais os instrumentos da lógica?


3. O que é um Conceito/Termo?


4. Qual o conceito com maior extensão “Frase” ou “Juízo”?


5. O que é um juízo/proposição?


6. O que é um argumento?


7. Distinga verdade e validade lógicas.


8. O que determina a validade de um argumento dedutivo?


9. Distinga argumentos dedutivos de argumentos indutivos (não dedutivos).

terça-feira, 1 de outubro de 2019

O discurso filosófico versus o discurso poético


FICHA 1 - O Discurso poético e o discurso filosófico.

Novembro. Só! Meu Deus, que insuportável mundo!
         Ninguém, viv'alma... O que farão os mais?
Senhor! a Vida não é um rápido segundo:
Que longas horas estas horas! Que profundo
         Spleen o d’estas noites imortais!

Faz tanto frio. (Só de a ver me gela, a cama...)
Que frio! Olá, Joseph! bota mais carvão!
E quando todo se extinguir na áurea chama,
Eu botarei (para que serve? já não ama...)
Às cinzas brancas, meu vermelho coração!

Lá fora o vento como um gato bufa e mia...
         Ó pescadores, vai tão bravo o mar!
Cautela... Orçai! Largai a escota! Ave Maria!
Cheia de Graça... Horror! Mortos! E a água tão fria!...
         Que triste ver defuntos a boiar!

Spleen! Que hei-de eu fazer? Dormir, não tenho sono,
Leva-me a carne a Dor, desgasta-me o perfil.
Nada há pior que este sonâmbulo abandono!
Ó meus Castelos-em-Espanha! Ó meu outono
D’alma! Ó meu cair-das-folhas, em abril!

A Vida! Horror! Ó vós que estais no último alento!
         Que felizes, sois prestes a partir!
Ó Morte, quero entrar no teu Recolhimento!...
Oiço bater. Quem é? Ninguém: um rato... o vento...
         Coitado! é o Georges, tísico, a tossir...

Mês de novembro! Mês dos tísicos! Suando
Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer!
Vê-se os padres as mãos, contentes, esfregando...
Mês em que a cera dá mais e a botica, e quando
Os carpinteiros têm mais obra p’ra fazer...

Oiço um apito. O trem que se vai... Engatar-te
         Quem me dera o wagon dos sonhos meus!
Lá passa, ao longe. Adeus! Quisera acompanhar-te...
– Boa viagem! Feliz de quem vai, de quem parte!
         Coitado de quem fica... Adeus! adeus!

Viajar? Ilusão. Todo o planeta é zero.
Por toda a parte é vil o homem e bom o céu.
– Américas! Japão! Índias! Calvário!... Quero
Mas é ir, à Ilha, orar sobre a cova do Antero
E a Águeda beber água do Botaréu...

Vi a Ilha loira, o Mar! Pisei terras de Espanha,
         Países raros, Neves, Areais;
Cantando, ao luar, errei nas ruas da Alemanha,
Armei na França minha tenda de campanha...
         E tédio, tédio, tédio e nada mais!

Que hei-de eu fazer? Calai essas canções imundas,
Cervejarias do Quartier! Rezai, rezai!
Paisagem, onde estás? Ó luar, águas profundas!
Ó choupos, à tardinha, altivos, mas corcundas,
Tal como aspirações irrealizáveis, ai!

Não me tortura mais a Dor. Sou feliz. Creio
         Em Deus, n’uma outra vida, além do Ar.
Meus livros dei-os, meu Filósofo queimei-o:
Agora, trago uma medalha sobre o seio
         Com a qual falo, às noites, ao deitar.

Espiritos! em vão, debalde por vós clamo:
Por que me abandonais? Ó almas, vinde a mim!
Às vezes, vindes consolar-me e não vos chamo,
E, hoje, não… Por quê? Traço o paralelogramo,
Extingo o lume, apago a luz: nem mesmo assim!

Ó almas do Outro-mundo! a minha alma anseia
         Pelo luar da lua de Canaã:
Quero passar o além que para além se alteia,
A nação de que a Terra é uma pequena aldeia
         E um lugarejo a Estrela da Manhã!

(E a chuva cai...) Meu Deus! Que insuportável mundo!
Viv’alma! (O vento geme...) O que farão os mais?
Senhor! A Vida não é um rápido segundo:
Que longas horas estas horas! Que profundo
Spleen mortal o d’estas noites imortais!

António Nobre, Ao canto do lume.1892

O discurso filosófico:
 
“Os males do mundo devem-se tanto a defeitos morais quanto à falta de inteligência. Mas a humanidade não descobriu até agora qualquer método para erradicar defeitos morais [...] A inteligência, pelo contrário, aperfeiçoa-se facilmente por meio de métodos que todos os educadores competentes conhecem. Logo, até se descobrir um método para ensinar a virtude, o progresso terá de ser alcançado por meio do aperfeiçoamento da inteligência e não da moral.”
Bertrand Russell

ANÁLISE LÓGICA - TEMA:__________________________________________________________________________________
PROBLEMA:____________________________________________________________________________________________
TESE:___________________________________________________________________________________________________
ARGUMENTO (RAZÕES):____________________________________________________________________________________
_________________________________________________________________________________________________________
CONCEITOS: ____________________; _________________;__________________________;____________


O problema é a questão que está presente no texto e que este visa responder ou reflectir sobre.

A Tese é a resposta encontrada pelo autor ao problema, é a ideia que o autor defende. Podem ser apresentadas várias teses. Também se podem apresentar contra-teses ou objecções como se esta reflexão fosse um diálogo do autor consigo próprio. A tese é uma frase declarativa ou proposição. Pode também ser entendida como a conclusão do argumento que se expõe.

A argumentação é o conjunto de razões que servem para justificar a tese proposta, explica o porquê da tese que se defende.

Os conceitos são as palavras que referem  classes de objetos, o conceito é aquilo que distingue essa classe de todas as outras.

ESTRUTURA O DISCURSO:

PROPOSIÇÕES: Frases declarativas com valor de verdade.

ARGUMENTOS: Conjunto de proposições que justificam uma determinada conclusão ou tese.

CONCEITOS: Palavra ou palavras que referem uma classe de objectos. Expressam uma Ideia isolada.
















O que é a Filosofia?


A CARTOLA

GAARDER, Jostein – in O Mundo de Sofia, pp. 16-20

…para nos tornarmos bons filósofos precisamos unicamente da capacidade de nos surpreendermos...

Sofia calculou que o autor das cartas anónimas daria de novo notícias. Decidiu não contar nada a ninguém acerca das cartas.
                Na escola, tornava-se-lhe difícil concentrar-se no que o professor dizia. Achou que ele falava apenas de coisas sem importância. Porque é que ele não falava antes acerca do que é um ser humano — ou do que é o mundo, e qual fora a sua origem?
                Experimentava uma sensação que nunca experimentara antes: na escola e por toda a parte as pessoas ocupavam-se apenas com coisas fúteis. Mas havia questões importantes e difíceis, cuja resposta era mais importante do que as disciplinas normais da escola.
                Teria alguém respostas para estes problemas? De qualquer modo, Sofia achava mais importante reflectir sobre eles do que aprender de cor os verbos irregulares.
                Quando, após a última aula, a campainha tocou, ela saiu tão depressa do pátio da escola que Jorunn teve de correr para a alcançar.
                Passado um pouco, Jorunn perguntou:
                — Que tal se jogássemos às cartas hoje tarde? Sofia encolheu os ombros.
                Acho que já não estou muito interessada em jogos de cartas. Jorunn pareceu cair das nuvens.
                Não? Jogamos então badmington?
                Sofia olhou fixamente para o asfalto e depois para a amiga.
                — Acho que já nem o badmington me interessa. Está bem!
                Sofia sentiu na voz de Jorunn em tom de azedume. Podes então dizer-me o que é que passou a ser mais importante?
                Sofia abanou a cabeça.
                — Isso... é um segredo.
                — Já percebi. Estás apaixonada.
                Caminharam juntas algum tempo em silêncio. Quando chegaram ao campo desportivo, Jorunn disse:
                — Eu vou pelo campo.
                «Pelo campo». Esse era o caminho mais curto para Jorunn, mas ela só o fazia quando tinha que chegar cedo a casa, porque esperava visitas, ou porque tinha consulta no dentista.
Sofia teve pena de ter magoado Jorunn. Mas o que deveria ter respondido? Que estava subitamente muito ocupada em saber quem era e de onde vinha o mundo e que já não tinha tempo para jogar badmington? Será que a sua amiga teria entendido?
                Por que motivo era tão difícil tratar das questões mais importantes e simultaneamente mais naturais?
                Sentiu o coração bater mais depressa à medida que abria a caixa do correio. Primeiro viu apenas uma carta do banco e alguns envelopes amarelos e grandes, para a sua mãe. Que aborrecimento. Sofia tinha esperado tanto receber Uma nova carta do remetente desconhecido!
                Quando estava a fechar o portão, encontrou escrito num dos envelopes grandes o seu nome. No verso, lia-se: Curso de Filosofia. Não dobrar.
                Sofia percorreu o caminho de saibro e deixou a mala da escola na escada. Empurrou as restantes cartas para debaixo do capacho, correu para o jardim atrás da casa e refugiou-se na toca. A carta grande tinha de ser aberta ali.
                Sherekan correra atrás dela, mas contra isso nada podia fazer. Sofia tinha a certeza de que o gato não daria à língua.
                O envelope continha três grandes folhas escritas à máquina, unidas com um clipe. Sofia começou a ler.

O que é a filosofia?

                Cara Sofia! Há muitas pessoas que têm diversos hobbys. Algumas coleccionam moedas antigas ou selos, outras fazem trabalhos manuais, outras ainda dedicam quase todo o tempo livre a uma modalidade desportiva.
                Muitos gostam de ler. Mas aquilo que lemos pode variar muito. Há quem leia apenas jornais ou banda desenhada, outros gostam de romances, outros ainda preferem livros sobre os mais variados temas como a astronomia, a vida selvagem ou as descobertas técnicas.
                Se estou interessado em cavalos ou pedras preciosas, não posso exigir que todos os outros partilhem deste interesse. Se me sento em frente à televisão encantado com todos os programas desportivos, tenho de aceitar que outros possam achar o desporto aborrecido.
                Haverá alguma coisa que interesse a toda a gente? Haverá alguma coisa que diga respeito a todas as pessoas, independentemente do que são e do sítio do mundo onde vivem? Sim, cara Sofia, há questões que dizem respeito a todos os homens. E neste curso trata-se precisamente dessas questões.
                Qual a coisa mais importante na vida? Se o perguntarmos a alguém num país com o problema da fome, a resposta é: a comida. Se pusermos esta questão a alguém que esteja com frio, nesse caso a resposta é: o calor. E se perguntarmos a uma pessoa que se sinta muito sozinha a resposta será certamente: a companhia de outras pessoas.
                Mas admitindo que todas estas necessidades estão satisfeitas será que resta alguma coisa de que todos os homens precisam? Os filósofos acham que sim. Segundo eles, o homem não vive apenas do pão. E evidente que todos os homens precisam de comer. Todos precisam de amor e de atenção, mas há algo mais de que todos os homens precisam. Precisamos de descobrir quem somos e porque é que vi vemos.
                lnteressarmo-nos pela razão da nossa existência não é um interesse ocasional, como o interesse em coleccionar selos. Quem se interessa por tais problemas, preocupa-se com tudo aquilo que os homens discutem desde que apareceram neste planeta. A questão acerca da origem do universo, do globo terrestre e da vida é mais vasta e mais importante do que saber quem ganhou mais medalhas de ouro nos últimos Jogos Olímpicos.
                A melhor maneira de nos iniciarmos na filosofia é colocar perguntas filosóficas:
                Como se formou o mundo? Haverá uma vontade ou um sentido por detrás daquilo que acontece? Haverá vida depois da morte? Como podemos encontrar resposta para estas perguntas? E, acima de tudo, como deveríamos viver?
                Estas perguntas foram colocadas desde sempre pelos homens. Não conhecemos nenhuma cultura que não tenha perguntado quem são os homens e de onde vem o mundo.
                As perguntas filosóficas que podemos colocar não são muitas mais. Já colocámos algumas das mais importantes. A história oferece-nos muitas respostas diferentes para cada uma destas perguntas.
                Por isso, é mais fácil formular perguntas filosóficas do que encontrar a sua resposta.
                Mesmo hoje, cada um deve encontrar as suas respostas para estas perguntas. Não podemos saber se Deus existe ou se há vida depois da morte, consultando a enciclopédia. A enciclopédia não nos diz como devemos viver. Mas ler o que outros homens pensaram pode no entanto ser uma ajuda, se quisermos formar a nossa própria concepção da vida e do mundo.
                A busca da verdade pelos filósofos pode ser talvez comparada a um romance policial. Alguns pensam que Andersen é o assassino, outros pensam que é Nielsen ou Jepsen. Talvez o verdadeiro mistério deste crime possa ser um dia esclarecido subitamente pela polícia. Podemos também pensar que a polícia nunca conseguirá resolver o enigma. Mas este tem, no entanto, uma solução.
                Mesmo quando é difícil responder a uma pergunta, é possível imaginar que a pergunta possa ter uma — e apenas uma — resposta correcta. Ou há uma forma de vida após a morte ou não.
                Muitos enigmas antigos foram entretanto resolvidos pela ciência. Outrora, o aspecto da face oculta da Lua era um grande mistério. Não se podia descobrir a resposta através da discussão, e assim era deixada à imaginação de cada um. Mas hoje em dia sabemos exactamente qual é o aspecto da face oculta da Lua. Já não podemos acreditar que haja um homem a viver na lua, ou que ela seja um queijo.
               
                Segundo um filósofo grego que viveu há mais de dois mil anos, a filosofia surgiu da capacidade que os homens têm de se surpreender. O homem acha tão estranho viver, que as perguntas filosóficas surgem por si mesmas.
                Pensa no que sucede quando observamos um truque de magia: não conseguimos perceber como é possível aquilo que estamos a ver. E perguntamo-nos: como é que o ilusionista conseguiu transformar dois lenços brancos de seda num coelho vivo?
                Para muitos homens, o mundo parece tão inexplicável como o coelho que um ilusionista retira subitamente de uma cartola até então vazia.
                No que diz respeito ao coelho, percebemos claramente que o ilusionista nos enganou. O que pretendemos descobrir é como nos enganou. Quando falamos sobre o mundo, a situação é diferente. Sabemos que o mundo não é pura mentira, uma vez que nós estamos na Terra e somos uma parte do universo. Na verdade, somos o coelho branco que é retirado da cartola. A diferença entre nós e o coelho branco é apenas o facto de o coelho não saber que participa num truque de magia. Connosco passa-se de modo diferente. Sentimos que tomamos parte em algo misterioso, e gostaríamos de esclarecer de que modo tudo está relacionado.

                P.S. No que diz respeito ao coelho branco, o melhor é talvez compará-lo com o conjunto do universo. Nós, que vivemos aqui, somos parasitas minúsculos que vivem na pele do coelho. Mas os filósofos procuram trepar pelos pêlos finos, de modo a poderem fixar nos olhos o grande ilusionista.
                Estás a seguir-me, Sofia? Receberás a continuação.

                Sofia estava exausta. Se estava a seguir? Já nem sabia se tinha respirado durante a leitura.
                Quem tinha trazido a carta? Quem? Quem?
                Era impossível que fosse a mesma pessoa que enviara o postal de aniversário a Hilde Møller Knag, visto que o postal tinha selo e carimbo, e o envelope amarelo fora colocado directamente na caixa do correio exactamente como os envelopes brancos.
Sofia olhou para o relógio. Eram apenas três menos um quarto. Só daí a duas horas é que a sua mãe chegaria do trabalho.
                Sofia foi de novo para o jardim, e correu para a caixa do correio. Haveria mais alguma coisa?
                Encontrou um outro envelope amarelo, no qual estava escrito o seu nome. Olhou à sua volta, mas não conseguiu descobrir ninguém. C2orreU para a orla do bosque e olhou em redor, mas não encontrou ali vivalma. De repente, pareceu-lhe ouvir ramos a estalar mais à frente no bosque. Mas não tinha a certeza absoluta, e não faria sentido ir no encalço de alguém que tentava fugir-lhe.
                Sofia abriu a porta de casa com a chave e co1ocou a mala da escola e correspondência para a mãe no chão. Foi para o quarto, pegou na grande caixa de biscoitos onde guardava a sua colecção de pedras, pôs as pedras no chão e colocou os dois envelopes grandes na caixa. Foi de novo para o jardim com a caixa nas mãos, depois de ter dado de comer a Sherekan.
                — Bichano, bichano, bichano!
                Sentada de novo dentro da toca, abriu o envelope e retirou várias folhas escritas à máquina. Começou a ler.

Um ser estranho

                Cá estamos de novo. Com certeza já percebeste que este pequeno curso de filosofia vem em doses pequenas. Eis mais algumas observações introdutórias.
                Eu já disse que a capacidade de nos surpreendermos é a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos? Se não o disse, digo-o agora: A CAPACIDADE DE NOS SURPREENDERMOS E A ÚNICA COISA DE QUE PRECISAMOS PARA NOS TORNARMOS BONS FILÓSOFOS.
                Todas as crianças pequenas possuem essa capacidade, isso é óbvio. Com poucos meses de vida, começam a aperceber-se de uma realidade completamente nova. Mas quando crescem, esta capacidade parece diminuir. Qual será o motivo? Poderá Sofia Amundsen responder a esta pergunta?
                Se um recém-nascido pudesse falar, diria certamente muitas coisas sobre o estranho mundo a que chegou. Porque ainda que a criança não possa falar, vemos como aponta à sua volta e agarra com curiosidade os objectos no quarto.
                Quando começa a falar, a criança fica parada cada vez que vê um cão e chama: — Ao, ão! Começa a agitar-se no carrinho, e move freneticamente os braços: — Ao, ão! Nós, que temos mais idade, sentimo-nos talvez pouco à vontade com o entusiasmo da criança. — Sim, sim, isso é um ãoão! — dizemos muito sabedores. — Mas agora senta-te. Não estamos assim tão entusiasmados. Já tínhamos visto cães antes.
                Provavelmente, esta cena repete-se algumas cem vezes até que a criança possa passar por um cão sem ficar fora de si. Ou por um elefante, ou por um hipopótamo. Mas muito antes que a criança aprenda a falar correctamente — ou antes que aprenda a pensar filosoficamente — o mundo tornou-se para ela algo habitual.
                É pena.
                Será a minha tarefa impedir que tu, cara Sofia, te tornes uma daquelas pessoas para quem o mundo é evidente. Para termos a certeza, vamos fazer duas experiências mentais, antes de começarmos com o curso de filosofia propriamente dito.
Imagina que dás um passeio pelo bosque. De repente, descobres à tua frente uma pequena nave espacial. Da nave espacial, um marciano desce e olha fixamente para ti...
                O que pensarias numa situação dessas? Bom, isso, no fundo, é indiferente. Mas já pensaste que tu mesma és também um marciano?
                Obviamente, não é particularmente provável que alguma vez dês com uma criatura de outro planeta. Nem sequer sabemos se h6 vida nos outros planetas. Mas é possível que tu dês contigo mesma. Pode acontecer que um belo dia fiques surpreendida e te vejas de um modo completamente diferente. Talvez isso se passe precisamente num passeio pelo bosque.
                Eu sou um ser estranho, pensas tu. Sou um animal misterioso...
                Pareces acordar de um sono de muitos anos como a Bela Adormecida. Quem sou eu? perguntas. Sabes que estás num planeta do universo. Mas o que é o universo?
                Se te descobrires desta maneira, descobriste algo tão misterioso como o marciano que mencionámos anteriormente. Não só descobriste um extraterrestre mas sentes interiormente que tu próprio és um ser desses.
                Ainda me estás a seguir, Sofia? Vamos fazer mais uma experiência:
                Certa manhã, o pai, a mãe e o pequeno Tomás, que tem dois ou três anos, estão sentados na cozinha durante o pequeno-almoço. De repente, a mãe levanta-se e vira-se para o Lava-louça: nesse preciso momento, o pai começa a voar em direcção ao tecto, enquanto Tomás observa.
                O que te parece que Tomás diz? Provavelmente, aponta para o pai e diz: — O pai voa!
                Certamente que Tomás ficaria admirado. Mas o pai faz coisas tão estranhas que um pequeno voo acima da mesa já não tem importância aos seus olhos. Todos os dias faz a barba com uma máquina engraçada, por vezes trepa ao telhado para orientar a antena da televisão — ou enfia a cabeça junto ao motor do carro e aparece depois todo negro.
                Depois, é a vez da mãe. Ela ouviu o que Tomás disse e volta-se rapidamente. Como achas que reagirá vendo o marido a esvoaçar sobre a mesa da cozinha?
                O frasco da marmelada cai-lhe imediatamente da mão, começará a gritar de medo. Talvez tenha de ir ao médico, mesmo depois de o pai se ter sentado de novo na cadeira. (Ele já devia ter aprendido há muito tempo como se comportar à mesa!).
                Porque é que Tomás e a mãe reagem de forma tão diferente?
                E uma questão de hábito. (Toma nota disto!). A mãe aprendeu que os homens não podem voar. Tomás não. Ainda não distingue o que é possível do que não é.
                Mas o que dizer do mundo, Sofia? Achas que o mundo é possível? Também está suspenso no espaço.
                O mais triste é que ao crescermos não nos habituamos apenas à lei da gravidade, habituamo-nos, simultaneamente, ao mundo.
                Aparentemente, perdemos durante a nossa infância a capacidade de nos surpreendermos com o mundo. Mas com isso, perdemos algo essencial — algo que os filósofos querem reavivar. Porque em nós algo nos diz que a vida é um grande mistério. Já tivemos essa sensação muito antes de termos aprendido a pensar nisso.
                Vou ser mais preciso: apesar de todas as questões filosóficas dizerem respeito a todos os homens, nem todos os homens se tornam filósofos. Por diversos motivos, a maior parte está presa de tal forma ao quotidiano que o espanto perante a vida é muito escasso. (Descem para a pele do coelho, acomodam-se e permanecem lá em baixo para o resto da vida).
Para as crianças, o mundo — e tudo o que existe nele — é uma coisa nova, uma coisa que provoca estupefacção. Os adultos não o vêem assim. A maior parte dos adultos vê o mundo como qualquer coisa completamente normal.
                Os filósofos constituem uma excepção notável. Um filósofo nunca se conseguiu habituar completamente ao mundo. Para um filósofo ou para uma filósofa o mundo é ainda incompreensível, inclusivamente enigmático e misterioso. Os filósofos e as crianças pequenas possuem uma importante qualidade em comum. Podes dizer que um filósofo permanece durante toda a sua vida tão capaz de se surpreender como uma criança pequena.
                E agora tens que te decidir, cara Sofia: és uma criança que ainda não se habituou ao mundo? Ou és uma filósofa que pode jurar que isso nunca lhe acontecerá?
                Se simplesmente abanas a cabeça e não te sentes nem como criança nem como filósofa, é porque te acostumaste tão bem ao mundo que este já não te surpreende. Nesse caso, o perigo está eminente. E por isso te ofereço este curso de filosofia, para prevenir. Não quero que tu pertenças à categoria dos apáticos e dos indiferentes. Quero que vivas a tua vida de modo consciente.
                Este curso é completamente grátis. Por isso, também não te será restituído dinheiro se não o fizeres. Se a determinada altura quiseres interromper o curso, não há problema. Basta deixares-me uma mensagem na caixa do correio, por exemplo, uma rã viva. De qualquer modo, tem de ser algo verde, pois não queremos assustar o carteiro.

                Breve sumário: um coelho branco é retirado de uma cartola vazia. Dado que é um coelho muito grande, este truque leva muitos biliões de anos. Na extremidade dos pêlos finos nascem todas as crianças humanas. Por isso, podem surpreender-se com a inacreditável arte da magia. Mas à medida que envelhecem, desusam cada vez mais para o fundo da pelagem do coelho. E permanecem aí. Lá em baixo estão tão confortáveis que nunca mais ousam trepar novamente pelos pêlos finos. Só os filósofos se atrevem a fazer a perigosa viagem à procura das fronteiras extremas da linguagem e da existência. Alguns deles perdem-se pelo caminho, mas outros agarram-se bem ao pêlo do coelho chamam os homens que, bem acomodados em baixo, na pele do coelho, comem e bebem tranquilamente.
                — Senhoras e senhores — gritam — estamos suspensos no espaço.
                Mas nenhum dos homens em baixo, na pele, se interessa pelo ruído que os filósofos fazem.
                — Meu Deus, que barulhentos — dizem.
                E continuam a falar como até então: — Podes passar-me a manteiga? Como estão as acções hoje? Qual é o preço do tomate? Já sabes que Lady Di deve estar de novo grávida?
                Quando, nessa tarde, a mãe chegou a casa, Sofia estava quase em estado de choque. A caixa com as cartas do filósofo misterioso estava bem escondida na toca. Depois de ter tentado estudar um pouco, Sofia ficara a pensar no que tinha lido.
                Tantas coisas sobre as quais nunca tinha reflectido antes! Já não era nenhuma criança mas também não era ainda verdadeiramente adulta. Sofia reconheceu que já tinha começado a penetrar profundamente na pelagem do coelho retirado da cartola negra do universo. Mas o filósofo impedira-a. Ele — ou ela? agarrara-a firmemente pela nuca e trouxera-a de novo para o pêlo, no qual brincara quando era criança. Ali fora, na extremidade do pêlo fino, tinha visto de novo o mundo corno se fosse pela primeira vez. O filósofo salvara-a da indiferença quotidiana.
                Ouvindo a mãe entrar, Sofia puxou-a para o quarto, e fê-la sentar numa cadeira.
Mãe, não achas que é estranho viver? — começou.
                A mãe ficou de tal modo perplexa que não lhe ocorreu nenhuma resposta. Normalmente, Sofia estava sempre sentada a fazer os trabalhos da escola quando ela chegava a casa.
                — Bom, por vezes é - disse.
                Por vezes? Quero dizer não achas estranho que haja um mundo?
                Mas Sofia, de que é que estás a falar?
                — Estou a fazer-te uma pergunta. Mas provavelmente achas o mundo completamente normal?
                — Sim. Mas o mundo é normal. A maior parte das vezes.
                Sofia compreendeu que o filósofo tinha razão. Para os adultos, o mundo era evidente. Tinham adormecido no sono eterno da vida quotidiana.
                — Tu apenas te habituaste tanto ao mundo, que já não te surpreendes — disse ela.
                — Desculpa, mas eu não estou a perceber nada.
                — Estou a dizer que te habituaste demasiado ao mundo. Por outras palavras: estás completamente embrutecida.
                — Não podes falar comigo desse modo, Sofia.
                — Então, vou dizê-lo doutra maneira. Já te acomodaste na pele do coelho que neste momento é tirado da cartola negra do universo. E agora, vais pôr as batatas a cozer. Depois, lês o jornal, e depois de uma soneca de meia hora vais ver o noticiário na televisão.
                No rosto da mãe, esboçou-se uma expressão preocupada. De facto, foi à cozinha e pôs as batatas a cozer. Em seguida, voltou à sala de estar, e aí fez Sofia sentar-se.
                — Tenho que falar contigo começou. Sofia apercebeu-se pelo tom de que se tratava de algo sério.
                Não tomaste nenhuma droga, pois não, miúda?
                Sofia não pôde deixar de se rir, mas compreendeu o motivo dessa pergunta.
                — Estás a brincar? perguntou. Com isso ainda se fica mais apático.

                Nessa tarde não se falou mais em droga nem em coelhos brancos.