Mostrando postagens com marcador relativismo cultural. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador relativismo cultural. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

Texto para resumo Gui 10A



Quando o exército nazi invadiu a Polónia em Setembro de 1939, iniciando, com isso, a Segunda Guerra Mundial, foi uma ação intolerante de primeira ordem. Mase se ela se conformasse aos ideais nazis? Um relativista cultural, parece, não poderia criticar os nazis por serem intolerantes, se tudo o que eles estão a fazer é seguir o seu próprio código moral. Entendido com propriedade, o relativismo cultural sustenta que as normas de uma cultura reinam supremas dentro dos limites da cultura. Assim, uma vez que os soldados alemães entraram na sociedade polaca, eles tornaram-se sujeitos às normas da sociedade polaca – normas que, obviamente, excluíam a carnificina de polacos inocentes. Como afirma o velho ditado, “em Roma, como os romanos”. Relativistas culturais concordariam com esta posição.
O ARGUMENTO DA DIFERENÇA CULTURAL
Os relativistas culturais frequentemente empregam uma certa forma de argumento. Eles começam com fatos sobre as culturas e terminam extraindo uma conclusão sobre a moralidade. Assim,  convidam-nos a aceitar este raciocínio:
1. Os gregos acreditavam que era errado comer os mortos, ao passo que os galatianos acreditavam que era correto comer os mortos.
2. Portanto, comer os mortos não é nem objetivamente certo nem objetivamente errado. É meramente uma questão de opinião que varia de uma cultura para outra.
Ou:1. Os esquimós não viam nada de errado com o infanticídio, ao passo que os americanos acreditam que ele é imoral.2. Portanto, o infanticídio não é nem objetivamente certo nem objetivamente errado. É meramente uma questão de opinião que varia de uma cultura para outra. Claramente, esses argumentos são variações de uma ideia fundamental. Eles são exemplos de um argumento mais geral que diz:1. Culturas diferentes têm códigos morais diferentes.2. Portanto, não há verdade objetiva na moralidade. Certo e errado são somente questões de opinião, e opiniões variam de uma cultura para outra. Podemos chamar isso de argumento da diferença cultural. Para muitas pessoas ele é persuasivo. Mas é ele um bom argumento – é sólido? Não,  não é. Para um argumento ser sólido, as suas premissas têm de ser verdadeiras e a conclusão tem que se seguir logicamente delas. Aqui, o problema é que a conclusão não se segue das premissas – isto é, mesmo que a premissa seja verdadeira, a conclusão ainda assim pode ser falsa. A premissa concerne àquilo em que as pessoas acreditam – em algumas sociedades as pessoas acreditam numa coisa; em outras sociedades as pessoas acreditam noutra outra coisa. A conclusão, portanto, concerne ao que é realmente o caso. Esse tipo de conclusão não se segue logicamente daquele tipo de premissa. Na terminologia filosófica, isso significa que o argumento é inválido. Considere novamente o exemplo dos gregos e dos galatianos.  Os gregos acreditavam que era errado comer os mortos; os galatianos acreditavam que era certo. Do mero fato de que eles discordavam, segue-se que não há verdade objetiva em relação àquela matéria? Não, não se segue; poderia ser que a prática fosse objetivamente certa (ou errada) e que um deles estivesse simplesmente enganado. Para tornar o ponto claro, considere uma questão diferente. Em algumas sociedades, as pessoas acreditam que a terra é plana. Em outras sociedades, como na nossa, as pessoas acreditam que a terra é esférica. Do mero fato de as pessoas discordarem, segue-se que não há “verdade objetiva” na geografia? Claro que não; nós nunca tiraríamos tal conclusão, isso porque entendemos que os membros de uma sociedade podem simplesmente estar errados. Não há razão para pensar que, se o mundo é redondo, todo mundo tenha que conhecer isso. Similarmente, não há razão para pensar que, se há verdade moral, todo mundo tenha que conhecê-la. O argumento da diferença cultural tenta derivar uma conclusão substantiva sobre um assunto a partir do mero fato de que as pessoas discordam. Mas isso é impossível.

James Rachels, Elementos de filosofia moral

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Texto para resumo Giovanna ou Inês 10E

 


Diferença entre relativismo cultural e relativismo moral

Nas discussões calorosas sobre a universalidade de valores morais tornou-se comum apelar para a cultura. Nesses argumentos, a cultura seria responsável para justificar as atitudes. Porém, o conceito de cultura empregue nessas discussões, é muito vago e é  importante diferenciar o relativismo moral do relativismo cultural.

Relativismo cultural é uma atitude e pressuposto de método de pesquisa que serve para descrever, analisar e avaliar a cultura de um grupo humano baseado em termos e valores daquele grupo. Quando se refere aos aspetos morais, trata-se de um relativismo moral descritivo.

Por outro lado, relativismo moral é acreditar que não há valores absolutos ou universais, mas que a moral é determinada pelas circunstâncias.

O relativismo cultural opõe-se ao etnocentrismo enquanto relativismo moral opõe-se ao universalismo moral.

O problema de como julgar os “outros”  ou o “estranho” é universal e antigo. Os gregos chamavam de barbaroi a todos os que eles não entendiam. Os primeiros portugueses a encarar a diversidade cultural dos nativos brasileiros submeteram línguas como o tupi antigo à gramática latina e reclamavam que para os tupi não havia “fé, nem lei, nem rei” – tanto pela ausência dos fonemas /f/, /l/ e /r/  quanto pela falta de religião, normas legais e organização social nos moldes europeus. Assim, a língua indígena por não ser nada similar aos que os europeus conheciam, era tida como defeituosa como os próprios indígenas. Essa atitude de julgar a cultura alheia, frequentemente julgando-a inferior, exemplifica o etnocentrismo.

Baseando-se nesse etnocentrismo, autoridades coloniais e antropólogos do século XIX categorizavam o mundo num esquema evolutivo em civilizados (eles mesmos),  bárbaros (outras nações) e selvagens (gente que supostamente viviam como animais). Tais diferenças de escala teriam razões deterministas: ou era a raça ou o clima que afetavam o grau de civilidade.

O relativismo cultural defende que não é possível julgar culturas diferentes e opõe-se ao etnocentrismo.

Uma maneira de diferenciar os conceitos de relativismo moral e relativismo cultural é aplicá-los num caso. Tomamos, por exemplo, a linguagem. Sob a perspetiva do relativismo cultural, todas as línguas são válidas — não há línguas melhores que outras, pois todas são completas para expressar pensamentos e emoções. Também cada registro linguístico é válido no seu contexto. (…) Agora, aplicando o conceito de relativismo moral: seria certo um ministro chamar os seus pares com um palavrão? Ou ofender verbalmente um membro de outro partido? Ambas as ofensas são moralmente inaceitáveis, embora possíveis com os recursos linguísticos daquelas comunidades. O fato de esses termos existirem nessas comunidades culturais não tornaria seus usos indiscriminados moralmente legítimos.

ALVES, Leonardo Marcondes. Diferença entre relativismo cultural e relativismo moral. Ensaios e Notas,

sexta-feira, 19 de março de 2021

Texto para resumo Viviana 10B



Dario, o rei da Pérsia antiga, ficou intrigado com a variedade de culturas que encontrou nas suas viagens. Ele descobriu, por exemplo, que os galatianos, que viviam na Índia, comiam os corpos de seus pais mortos. Os gregos, naturalmente, não faziam isso – eles praticavam a cremação e viam o funeral da pira como amaneira natural e adequada de dispor dos mortos. Dario pensava que uma visão sofisticada poderia prezar as diferenças entre as culturas. Um dia, para ensinar a sua lição, ele convocou alguns gregos que estavam na sua corte e perguntou-lhes o que seria necessário para eles comerem os corpos de seus pais mortos. Eles ficaram chocados, como Dario sabia que eles ficariam, e responderam que nenhuma quantidade de dinheiro poderia persuadi-los a fazer tal coisa. Então, Dario chamou alguns galatianos e, enquanto os gregos ouviam, perguntou-lhes oque seria necessário para eles queimarem os corpos de seus pais mortos. Os galatianos ficaram horrorizados e disseram a Dario para não falar de tais coisas. Essa estória, recontada por Heródoto na sua História, ilustra um tema recorrente na literatura das ciências sociais: culturas diferentes têm códigos morais diferentes. O que é pensado como correto por um grupo pode horrorizar os membros de um outro grupo e vice-versa. Devemos nós comer os corpos dos mortos ou queimá-los? Se  fosse grego, uma resposta poderia ser obviamente correta, mas, se  fosse galatiano, a outra resposta poderia ser igualmente certa.

O RELATIVISMO CULTURAL Para muitas pessoas esta observação – “culturas diferentes têm códigos morais diferentes” – parece ser a chave para entender a moralidade. Não há verdades morais universais, dizem eles. Os costumes de sociedades diferentes são tudo oque existe. Chamar um costume de “correto” ou “incorreto” implicaria podermos julgar tal costume por algum padrão independente do que é certo e errado. Mas não existe tal padrão. Todo padrão é limitado culturalmente. O sociólogo William Graham Summer (1840-1910) apresentou o assunto nos seguintes termos: O modo “correto” é o modo que os ancestrais utilizavam e que foi transmitido.
 
[...] A noção de correto está nos modos de pensar de um povo. Não é exterior a eles, de uma origem independente, trazido para testá-los. Nos modos de pensar de um povo, qualquer que seja esse pensar, ele é correto. Isso ocorre porque eles são tradicionais e, portanto, contêm em si mesmos a autoridade dos espíritos ancestrais. Essa linha de pensamento, mais do que qualquer outra, tem persuadido as pessoas a serem céticas a respeito da ética. Com efeito, o relativismo cultural afirma que não há tal coisa como verdade universal na ética. Há somente os vários códigos culturais e nada mais. O relativismo cultural desafia a nossa crença na objetividade e na universalidade da verdade moral. Todas as pretensões seguintes foram feitas pelos relativistas culturais:
1. Sociedades diferentes têm códigos morais diferentes.2. O código moral de uma sociedade determina o que é certo dentro daquela sociedade, isto é, se o código moral de uma sociedade diz que uma certa ação é correta, então aquela ação é correta, ao menos dentro daquela sociedade.3. Não há padrão objetivo que pode ser usado para julgar o código de uma sociedade como melhor do que o de outra sociedade. Não há verdades morais que valham para todas as pessoas em todos os tempos. 4. O código moral de nossa própria sociedade não tem um status especial. Ele é somente mais um código entre muitos.5. É arrogante de nossa parte julgar outras culturas. Devemos sempre ser tolerantes em relação a elas.
Estas cinco proposições parecem caminhar em conjunto, mas elas são independentes umas das outras, o que pode significar que algumas delas podem ser verdadeiras mesmo que outras sejam falsas. Realmente, duas das proposições parecem ser inconsistentes entre si. A segunda diz que o certo e o errado são determinados pelas normas de cada sociedade. A quinta diz que se deve sempre ser tolerante em relação a outras culturas. Mas e se as normas de uma sociedade favorecem a intolerância? 

James Rachels, Elementos da filosofia moral

segunda-feira, 15 de março de 2021

Três ideias sobre os valores morais. Correção do exercício.





Pedro: Pela minha parte, acho que ao dizer que o João é honesto estou a transmitir um sentimento de agrado mas também estou a dizer uma verdade. Estou a descrever o tipo de sentimento que tenho pelo João. Não é um sentimento qualquer. É um sentimento favorável ao João. Julgo que sim. Ao dizer que o João é honesto é como se estivesse a falar também de mim próprio, da minha experiência interior (dos meus sentimentos). Estou a descrever o que sinto. Uma pessoa que diga “A eutanásia é injusta” está apenas a dizer algo como “Não gosto que a eutanásia seja aplicada”, ou seja, está apenas a descrever o que sente, que tem sentimentos negativos acerca da eutanásia. E se estiver a ser sincera, isso é verdade. Mas uma pessoa que diga “Permitir a eutanásia é uma questão de justiça” também estaria a falar apenas dos seus sentimentos. Neste caso, estaria a dizer que tem um sentimento positivo em relação à eutanásia. Como a primeira, se estiver a ser sincera, é verdade o que diz.
Qual é a posição do Pedro acerca dos valores? Justifique

A posição do Pedro é subjetivista acerca dos valores porque defende que os nossos juízos morais como “O João é honesto” traduzem o sentimento de agrado ou desagrado em relação às ações realizadas pelo João, é verdadeiro em relação ao sentimento do sujeito que julga, mas ele está a descrever um estado de espírito seu e não uma verdade universal acerca do João, outros sujeitos podem ter um outro sentimento, logo, outro juízo moral acerca das ações do João.



Joana: Não. Acredito na existência de verdades morais como acredito que a Terra é redonda. Os valores morais não podem depender, em caso algum, apenas do ponto de vista de cada pessoa ou cultura. As pessoas, como eu, que acreditam em verdades morais objetivas acham que certas práticas são tão odiosas e repugnantes que apenas os preconceitos de certas sociedades permitem que as pessoas não reparem nisso. Mas, se formos além do que a maioria das pessoas pensa, se usarmos a nossa própria razão e sentido crítico, poderemos ver que essas práticas estão erradas. Não estão erradas apenas para mim. Estão mesmo erradas. 
A Joana concorda com o Pedro? Justifique
 Não, a Joana não concorda com o Pedro, ela considera que os nossos juízos morais não dependem do que o sujeito sente, ela considera que há ações moralmente corretas ou incorretas, se há divergência acerca do valor moral das ações é porque alguns sujeitos não querem ver, estão inseridos numa certa cultura que não os deixa julgar bem, têm preconceitos e por isso julgam mal.  As ações são boas ou más por si e não dependem do que os sujeitos julga. Para a Joana um juízo moral é como um juízo de facto, tem valor de verdade, como por exemplo “A terra é redonda”. Os juízos morais dependem do conhecimento e não da opinião.



Fernando: Dá exemplos.
Joana: A excisão, por exemplo. A mutilação do clítoris que certos povos africanos têm o hábito de fazer às raparigas. Eu penso que é profundamente errado fazer isso, pensem essas pessoas o que pensarem.
Fernando: Pelos nossos padrões culturais, sem dúvida. Esse ato repugna profundamente a minha sensibilidade. Mas não acho que apenas o preconceito impeça esses povos de verem o que a mim parece razoável. A minha ideia do que é racional ou razoável nesta situação depende da forma como a minha sensibilidade foi educada, depende dos costumes a que fui assistindo e daquilo que a sociedade me diz que é correto ou incorreto. A razão reflete o modo como os nossos valores e práticas culturais moldaram a nossa forma de sentir.
Joana: Eu gostaria que a excisão deixasse se existir. Todas essas práticas só criam sofrimento inútil.

Que opinião tem o Fernando sobre os valores?  
O Fernando defende que não há um padrão que permita julgar de forma imparcial as acções morais, pois cada um está dentro de uma cultura e julga segundo os valores da sua cultura. Os valores morais são, para o Fernando, relativos à cultura de cada um e só são verdadeiros para essa cultura, para outra podem ser falsos. Os juízos morais dependem da nossa educação e esta é moldada pela cultura onde nos inserimos.



Como se chama a essa perspectiva? Chama-se relativista cultural e moral.



Qual a objeção que a Joana coloca?

 A Joana coloca a objeção de não termos que concordar com todas as práticas de outras culturas, porque há certas práticas como a excisão que são moralmente condenáveis, seja qual for a cultura, a razão que ela dá é o sofrimento inútil que certas práticas culturalmente aceites provocam sobre certas pessoas.