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sexta-feira, 14 de março de 2025

Texto para resumo Lourenço 10A


 

Caravaggio, Os batoteiros (1594)

O subjetivismo moral é uma teoria filosófica muito comum, pois várias pessoas, mesmo sem saber, a adotam em determinadas situações. Quem já participou num debate envolvendo questões morais, com temas como a pena de morte ou aborto, já ouviu ou pensou, depois do debate, não haver um consenso, porque não existe certo e errado nessas questões como existe na ciência ou na matemática. Nesses casos, tudo é uma questão de opinião pessoal, cada um tem a sua e está correto no seu modo de pensar. Ao concluir isso, está a adotar uma teoria Metaética chamada de subjetivismo.

Imagine que uma pessoa qualquer afirma que “a Terra é plana”. Tal afirmação é um juízo de facto que procura descrever como é um determinado aspeto do mundo. Como ela não descreve adequadamente como o mundo é, acaba por ser uma afirmação falsa. Nas afirmações descritivas como essa existe, portanto, uma verdade e a pessoa que afirma algo diferente disso está a cometer um erro.

Compare esse primeiro exemplo com a afirmação “o roubo é imoral”. Nesse segundo caso, estou a atribuir um valor a um facto, o roubo, em vez de simplesmente descrever essa ação. A imoralidade é um valor e, de acordo com o subjetivismo, essa não é uma característica que existe de facto nas ações, mas é a manifestação dos nossos desejos. Quando digo que algo é imoral, quero dizer que isso me desagrada, contraria o meu desejo. Os juízos morais, portanto, são expressões de desejos pessoais.

 Outra pessoa poderia afirmar “o roubo é moral”, referindo-se apenas aos seus sentimentos em relação a essa prática.

A partir daqui podemos dizer que o subjetivismo pode ser definido a partir de duas teses relacionadas:

  1. Não existe certo e errado universal;
  2. Juízos morais apenas expressam sentimentos de aprovação ou desaprovação.

Uma consequência importante desta conceção é a de que as divergências morais são apenas diferenças de preferências. Dizer que “o roubo é errado” ou “o roubo é certo” equivale a dizer “gosto de pizza” ou “não gosto de pizza”. Nos dois casos há apenas uma divergência de gostos pessoais e não há qualquer possibilidade de dizer que um está certo e o outro errado.

Argumentos subjetivistas

O que leva alguém a pensar que não existe certo e errado e que os juízos morais não passam de manifestações de desejos pessoais?

Um dos filósofos subjetivas foi Jean Paul Sartre (1905 – 1980). Usando a frase de um grande escritor russo, afirmou que “se Deus não existe, tudo é permitido” e que isso criava a liberdade para o indivíduo definir o que é certo ou errado a partir de seu próprio pensamento e desejo. Nas suas palavras, cada um é livre, então pode escolher – ou seja, inventar. Nenhuma regra de moralidade geral pode mostrar o que se deve fazer.

A frase “se Deus não existe, tudo é permitido” pressupõe a ideia de que, se ele existisse, nem tudo seria permitido. Ou seja, se ele existisse, existiria um certo e um errado e a moralidade não seria dependente do desejo dos indivíduos. Mas como não existe, não há qualquer padrão independente que defina como os seres humanos deveriam agir. Sendo assim, cabe a cada um definir para si o que é certo e errado.

William Godoy

quinta-feira, 13 de março de 2025

Texto para resumo Laura10A e Margarida Brás 10E

 




Paulo Gonçalves, um dos portugueses que participou no rali Dakar 2016, esteve em grande destaque na sétima etapa, depois de ter parado mais de dez minutos para ajudar Matthias Walkner — um piloto rival — que sofrera um acidente e partiu o fémur. Esta ação poderia ter custado a Paulo Gonçalves a liderança da classificação geral, mas ele não hesitou em parar para ajudar. Mais tarde, escreveria no Facebook:

Fiz aquilo que me competia. […] Não sou um herói, sou um ser humano com respeito pelos outros. A nossa vida vale mais que qualquer vitória, sem ela não vencemos. (…)

 

 

Será que podemos dizer que é verdadeiro que Paulo Gonçalves fez uma boa ação?

Um subjetivista diria que isso depende de cada sujeito, pois os juízos de valor são meras expressões das preferências das pessoas. Se uma pessoa aprovar a ação de Paulo Gonçalves, então, para esta pessoa, o juízo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” é verdadeiro. Se outra pessoa desaprovar a ação de Paulo Gonçalves, então, para esta outra pessoa, o juízo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” é falso. E nenhuma tem mais razão do que a outra, pois cada uma delas está apenas a manifestar a sua preferência. Protágoras (490–420 a.C.), que defendeu que o homem é a medida de todas as coisas, Sartre, ao afirmar que “[s]e admito que tal ato é bom, a mim compete a escolha de dizer que tal ato é bom e não mau” (Sartre, 1978, p. 223) e J. L. Mackie (1917–1981), que argumentou que os juízos de valor não podem ser objetivamente verdadeiros, porque não há factos que os tornem verdadeiros, podem ser considerados defensores do subjetivismo dos valores.

Um relativista diria que isso depende de cada sociedade, pois os juízos de valor são meras expressões das preferências sociais. Se uma sociedade aprovar a ação de Paulo Gonçalves, então, para esta sociedade, o juízo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” é verdadeiro. Se outra sociedade reprovar a ação de Paulo Gonçalves, então, para esta outra sociedade, o juízo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” é falso. E nenhuma sociedade tem mais razão do que a outra, pois cada uma delas está apenas a manifestar a sua preferência. Heródoto (cerca de 490–424 a.C.), que declarou que o “costume é o rei de todos nós” (citado por Rachels, 2009, p. 237), Benedict (1887–1948), que afirmou que a “moralidade varia em todas as sociedades, e é apenas um termo cómodo para os hábitos que uma sociedade aprova” (citada por Rachels, 2004, p. 33), e a Associação Antropológica Americana (citada por Almeida & Murcho, 2014, p. 40), que defendeu que os “padrões de valor são relativos à cultura de que derivam”, são alguns representantes do relativismo. O filósofo Gilbert Harman (n. 1938) é, atualmente, o principal defensor do relativismo ético.

Um objetivista diria que a verdade do juízo “Paulo Gonçalves fez uma boa ação” não depende das pessoas nem das sociedades, pois há maneiras objetivas de determinar se o juízo é verdadeiro, tal como acontece com os juízos de facto. O objetivista não defende que todos os juízos de valor são objetivos, defende que alguns o são. A Declaração Universal dos Direitos Humanos, proclamada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, em 1948, corresponde a uma perspetiva objetivista sobre os valores. Os filósofos James Rachels (1941–2003) e Thomas Nagel (n. 1937) são dois dos defensores do objetivismo.

 

António Padrão, Valores, juízos de valor e teorias in Crítica na Rede

 

quinta-feira, 6 de março de 2025

TEXTO PARA RESUMO Inês Nascimento 10A e Joana Antunes 10E


TEXTOS FUNDAMENTAIS 2 - Os valores são subjetivos ou objetivos?


" As questões sobre os valores - isto é, sobre o que é bom ou mau em si, independentemente dos seus efeitos estão fora do domínio da ciência, como os defensores da religião afirmam veementemente. Eu penso que nisto têm razão, mas retiro outra conclusão que eles não retiram - a de que as questões sobre "valores" estão completamente fora do domínio do conhecimento. Por outras palavras, quando afirmamos que isto ou aquilo tem "valor", estamos a exprimir as nossas emoções, e não a indicar algo que seria verdadeiro mesmo que os nossos sentimentos pessoais fossem diferentes. (...)


Qualquer tentativa de persuadir as pessoas de que algo é bom (ou mau) em si, e não apenas por causa dos seus efeitos, depende não de qualquer recurso a provas, mas da arte de suscitar sentimentos. O talento do pregador consiste em criar nos outros emoções semelhantes às suas - ou diferentes, se ele for hipócrita. Ao dizer isto não estou a criticar o pregador, mas a analisar o carácter essencial da sua atividade.


Quando um homem diz "Isto é bom em si" parece estar a exprimir uma proposição como se tivesse dito "Isto é um quadrado" ou "Isto é doce". Julgo que isto é um erro. Penso que aquilo que o homem quer realmente dizer é "Quero que toda a gente deseje isto", ou melhor, "Quem me dera que toda a gente desejasse isto". Se aquilo que ele diz for interpretado como uma proposição, esta é apenas sobre o seu desejo pessoal. Se for antes interpretado num sentido geral, nada afirma, exprimindo apenas um desejo. O desejo, enquanto acontecimento, é pessoal, mas o que se deseja é universal. Penso que foi este curioso entrelaçamento entre o particular e o universal que provocou tanta confusão na Ética. (...)


Se esta análise está correta, a ética não contém quaisquer proposições, sejam elas verdadeiras ou falsas, consistindo em desejos gerais de uma certa espécie, nomeadamente naqueles que dizem respeito aos desejos da humanidade em geral - e dos deuses, dos anjos e dos demónios, se eles existirem. A ciência pode discutir as causas dos desejos e os meios para os realizar, mas não contém quaisquer frases genuinamente éticas, pois esta diz respeito ao que é verdadeiro ou falso.


A teoria que estou a defender é uma forma daquela que é conhecida por doutrina da "subjetividade" dos valores. Esta doutrina consiste em sustentar que, se dois homens discordam quanto a valores, há uma diferença de gosto, mas não um desacordo quanto a qualquer género de verdade. Quando um homem diz "As ostras são boas" e outro diz "Eu acho que são más" , reconhecemos que nada há para discutir. A teoria em questão sustenta que todas as divergências de valores são deste género, embora pensemos naturalmente que não o são quando estamos a lidar com questões que nos parecem mais importantes que as das ostras. A razão principal para adotar esta perspetiva é a completa impossibilidade de encontrar quaisquer argumentos que provem que isto ou aquilo tem valor intrínseco. Se estivéssemos de acordo a este respeito, poderíamos defender que conhecemos os valores por intuição. Não podemos provar a um daltónico que a relva é verde e não vermelha, mas há várias maneiras de lhe provar que ele não tem um poder de discriminação que a maior parte dos homens tem. No entanto, no caso dos valores não há qualquer maneira de fazer isso, e aí os desacordos são muito mais frequentes que no caso das cores. Como não se pode sequer imaginar uma maneira de resolver uma divergência a respeito de valores, temos de chegar à conclusão de que a divergência é apenas de gostos e não se dá ao nível de qualquer verdade objetiva.

Bertrand Russell, Ciência e Ética, 1935. Tradução de Paula Mateus