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terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Texto para resumo Miriam Rodrigues 10I

Vou provar aos meus leitores, apelando ao seu senso comum e ao seu conhecimento comum, que a vontade não é livre; e que é governada pela hereditariedade e pelo meio. Para começar, o homem comum estará contra mim. Ele sabe que escolhe entre dois percursos a toda a hora, e frequentemente a todo o minuto, e pensa que a sua escolha é livre. Mas isso é uma ilusão; a sua escolha não é livre. Ele pode escolher e, de facto, escolhe. Mas pode apenas escolher como a sua hereditariedade e o seu meio o fazem escolher. Nunca escolhe e nunca escolherá a não ser como a sua hereditariedade e o seu meio ― o seu temperamento e a sua formação ― o fazem escolher. E a sua hereditariedade e o seu meio fixaram a sua escolha antes de ele a fazer. O homem comum diz "Sei que posso agir como desejo agir." Mas o que o faz desejar? O partido do livre-arbítrio diz "Nós sabemos que um homem pode e efetivamente escolhe entre dois atos". Mas o que decide a escolha? Há uma causa para todo o desejo, uma causa para toda a escolha; e toda a causa de todo o desejo e escolha tem origem na hereditariedade ou no meio. Pois um homem age sempre devido ao temperamento, que é hereditariedade, ou devido à formação, que é meio. E nos casos em que um homem hesita ao escolher entre dois atos, a hesitação é devida a um conflito entre o seu temperamento e a sua formação ou, como alguns o exprimem, "entre o seu desejo e a sua consciência." Um homem está a praticar tiro ao alvo com uma arma quando um coelho se atravessa na sua linha de fogo. O homem tem os olhos postos no coelho e o dedo no gatilho. A vontade humana é livre. Se carregar no gatilho, o coelho é morto. Ora, como é que o homem decide se dispara ou não? Decide por intermédio do sentimento e da razão. Gostaria de disparar apenas para ter a certeza de que é capaz de acertar. Gostaria de disparar porque gostaria de ter coelho para o jantar. Gostaria de disparar porque existe nele o antiquíssimo instinto caçador de matar. Mas o coelho não lhe pertence. Ele não tem a certeza de que não se mete em sarilhos se o matar. Talvez ― se for um tipo de homem fora do comum ― sinta que seria cruel e covarde matar um coelho indefeso. Bem, a vontade do homem é livre. Se quiser, pode disparar; se quiser, pode deixar ir o coelho. Como decidirá? De que depende a sua decisão? A sua decisão depende da força relativa do seu desejo de matar o coelho, dos seus escrúpulos acerca da crueldade e da lei. Além disso, se conhecêssemos o homem muito bem, poderíamos adivinhar como o seu livre-arbítrio agiria antes que tivesse agido. O desportista britânico comum mataria o coelho. Mas sabemos que há homens que nunca matariam uma criatura indefesa. De um modo geral, podemos dizer que o desportista desejaria disparar e que o humanitarista não desejaria disparar. Ora, como as vontades de ambos são livres, deve ser alguma coisa fora das vontades que faz a diferença. Bem, o desportista matará porque é um desportista; o humanitarista não matará porque é um humanitarista. E o que faz de um homem um desportista e de outro um humanitarista? Hereditariedade e meio: temperamento e formação. Um homem é, por natureza, misericordioso e outro cruel; ou um é, por natureza, sensível e outro insensível. Esta é uma diferença de hereditariedade. A um pode ter sido ensinado durante toda a vida que matar animais selvagens é "desporto"; a outro pode ter sido ensinado que é inumano e errado; esta à uma diferença de meio. Ora, o homem por natureza cruel ou insensível, que foi treinado para pensar que matar animais é um desporto, torna-se aquilo a que chamamos um desportista, porque a hereditariedade e o meio fizeram dele um desportista. A hereditariedade e o meio do outro homem fizeram dele um humanitarista. O desportista mata o coelho porque é um desportista e é um desportista porque a hereditariedade e o meio fizeram dele um desportista. Isso é dizer que o "livre-arbítrio" é realmente controlado pela hereditariedade e pelo meio.

Robert Blatchford, Not Guilty, Albert and Charles Boni, Inc., 1913. (Tradução de Álvaro Nunes, adaptada).


TEXTO PARA RESUMO Ana Carolina 10I

O problema do livre-arbítrio versus determinismo surge devido a uma aparente contradição entre duas ideias plausíveis. A primeira é a ideia de que os seres humanos têm liberdade para fazer ou não fazer o que queiram (obviamente, dentro de certos limites — ninguém acredita que possamos voar apenas por querermos fazê-lo). Esta é a ideia de que os seres humanos têm vontade livre — ou livre-arbítrio. A segunda é a ideia (...) de que tudo o que acontece neste universo é causado, ou determinado, por acontecimentos ou circunstâncias anteriores. Diz-se daqueles que aceitam esta ideia que acreditam no princípio do determinismo e chama-se-lhes deterministas. (Daqueles que negam esta segunda ideia diz-se que são indeterministas.)
Pensa-se frequentemente que estas duas ideias entram em conflito porque parece que não podemos ter livre-arbítrio — as nossas escolhas não podem ser livres — se são determinadas por acontecimentos ou circunstâncias anteriores.

2. Os deterministas radicais resolvem o problema negando que tenhamos livre-arbítrio, concluindo que, de facto, não somos moralmente responsáveis pelas nossas acções ou escolhas. Eles tendem a defender o seu ponto de vista a partir da teoria determinista segundo a qual tudo é causado. Assim, chamam a atenção para experiências e crenças comuns que parecem implicar que as coisas se comportam de uma forma regular (o açúcar não faz as coisas saberem doces num dia e amargas no dia seguinte), para o comportamento humano diário (nem mesmo pilotos de carros de corrida podem escolher conduzir bem estando bêbados), e também para o enorme sucesso da ciência moderna na descoberta de relações causais (não podemos escolher bater os braços e voar para a Lua).
Embora muitas pessoas argumentem contra o determinismo radical defendendo que o determinismo em geral está errado, as provas a favor do determinismo são muito fortes, razão pela qual se quisermos rejeitar o determinismo radical teremos de o fazer com base na ideia de que a liberdade de acção e de escolha não contradiz o determinismo, pelo que temos efectivamente justificação para considerar as pessoas moralmente responsáveis mesmo que as suas acções e escolhas sejam causadas ou determinadas.
3. Os libertários ou libertaristas defendem que o livre-arbítrio é possível apenas se o determinismo for falso e que, pelo menos nas situações morais típicas, temos de facto livre-arbítrio. Por este motivo, temos justificação para considerar as pessoas moralmente responsáveis pelo que escolhem e fazem.
Os libertários defendem o seu ponto de vista com base em que, primeiro, apenas o seu ponto de vista permite considerar as pessoas moralmente responsáveis pelas suas acções (eles não têm nenhuma vontade em acreditar que não tem sentido fazê-lo), e, em segundo lugar, sentimo-nos livres quando fazemos escolhas morais.
Os adversários tendem a opor-se ao libertarismo por três razões. Primeiro, acreditam que o determinismo é verdadeiro e não temos vontades sem causas ou auto-causadas. Em segundo lugar, eles defendem que não nos sentimos livres de forças causais (porque as causas não são o tipo de coisas que possamos sentir), mas antes de compulsão ou coerção. E, em terceiro lugar, defendem que se tivéssemos efectivamente vontades não causadas, não faria qualquer sentido considerarmo-nos responsáveis pelas nossas acções, porque não resultariam do nosso carácter e, assim, não seriam uma indicação de quem realmente somos.
4. Os deterministas moderados defendem que os deterministas radicais e os libertaristas estão errados, em parte porque usam uma concepção errada de liberdade da vontade. A concepção pertinente é que somos livres quando escolhemos e fazemos o que queremos fazer e não somos forçados ou compelidos contra a nossa vontade. Eles distinguem frequentemente entre dois tipos de compulsão ― interna e externa ― consoante a força compulsória é interior ou exterior aos nossos corpos.
Os deterministas moderados defendem a sua posição apelando a todas as provas que favorecem o determinismo em geral e salientando que o seu ponto de vista se conforma com a prática diária. Quando temos de decidir na vida diária se as pessoas devem ser consideradas responsáveis pelo que fazem, não perguntamos se as nossas acções são causadas mas antes se são ou não compelidas ou forçadas. Quando as pessoas fazem o que querem fazer, sentimos (com algumas excepções devido a razões precisas) que são moralmente responsáveis pelo que fazem.
Algumas pessoas rejeitam o determinismo moderado porque rejeitam o determinismo em geral. Outras rejeitam-no devido a acreditarem que até agora os deterministas moderados não foram capazes de lidar com certos tipos de casos e porque não explicaram adequadamente o seu critério de compulsão. Além disso, após terem ouvido a teoria dos deterministas moderados, especialmente os libertarianos ainda consideram totalmente implausível considerar as pessoas responsáveis pelas suas acções se essas acções são determinadas por acontecimentos ou circunstâncias passados. Se o determinismo é verdadeiro, afirmam eles, então os seres humanos são exactamente como robots ou computadores complexos e ninguém se sente justificado em repreender ou punir um computador quando ele avaria.
Finalmente, foi sugerido que talvez seja este o ponto principal. Tratamos os seres humanos, de forma diferente dos robots ou computadores porque nós de alguma forma sentimos de forma diferente a seu respeito.Howard Kahane, Thinking About Basic Beliefs, Wadsworth, Belmont, 1983, pp. 43-64.
Tradução de Álvaro Nunes

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

Texto para resumo Santiago Dantas 10I


Consideremos dois tipos de comportamento que ninguém pensa que sejam livres. O primeiro é o comportamento resultante de uma lavagem ao cérebro. Vejamos o caso de Patty Hearst. Herdeira de uma fortuna conseguida com jornais, Hearst foi raptada e violentada mental e fisicamente pelos seus raptores durante vários meses em 1974. Em seguida, participou com eles no assalto a um banco. Foi apanhada e levada a julgamento.

Nunca houve qualquer dúvida quanto a Hearst ter ajudado a assaltar o banco. A questão era saber se o tinha feito de livre vontade. Os advogados de defesa tentaram estabelecer que Hearst não tinha livre-arbítrio quando o fez. Argumentaram que os seus raptores tinham de tal modo distorcido as suas faculdades mentais que ela se tornara um simples joguete nas suas mãos. As suas ações eram a expressão dos desejos deles, não dos seus, segundo defenderam. A acusação tentou mostrar que Hearst era um agente livre, argumentado que embora tenha sido violentada, participara de livre vontade no assalto ao banco. A acusação ganhou o caso, e Patty Hearst foi presa. Independentemente de saber se esta foi a conclusão correta, gostaria de chamar a atenção para uma ideia com a qual a acusação e a defesa estavam de acordo. As pessoas que agem em consequência de uma lavagem ao cérebro não agem de livre vontade. Eis, pois, um comportamento que penso podermos considerar não livre.

A segunda categoria de comportamento não livre foi descrita por Freud. Freud descreve um homem que obsessivamente lavava as mãos. Tinha sido apanhado nas malhas de uma compulsão. Mesmo depois de qualquer pessoa normal reconhecer ter as mãos limpas, o lavador de mãos compulsivo continua a esfregar. Por vezes, a compulsão é de tal modo extrema que a carne é consumida e o osso fica exposto. “Não conseguem evitá-lo”, poder-se-á dizer. Outro exemplo deste género é a cleptomania. Um cleptomaníaco é alguém dominado pela compulsão de roubar. Mesmo quando reconhecem que roubar está a arruinar as suas vidas, os cleptomaníacos vêem-se impotentes para alterar o seu comportamento. Talvez algumas pessoas roubem por sua livre vontade; não parece ser este o caso dos cleptomaníacos. Até os filósofos que pensam que por vezes agimos livremente, em geral concedem que a lavagem ao cérebro e a compulsão nos privam de livre-arbítrio. A questão é saber se há outras categorias de comportamento genuinamente livres. Já descrevi dois argumentos — o Argumento da Causalidade à Distância e o Argumento da Inevitabilidade — que respondem a esta questão negativamente.

Elliott Sober, Core Questions in Philosophy (Prentice Hall, 2008)

https://criticanarede.com/eti_livrearbitrio.html

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

Texto para resumo Ricardo 10I

 Textos complementares 

TEXTO QUATRO 


Imagem do filme " Matrix"

Livre-arbítrio e responsabilidade 

Daniel C. Dennett 

«A ciência mostrou que todas as ações humanas, por mais deliberadas que sejam, são o resultado de cadeias causais que remontam, em última análise, ao nosso nascimento. Alguns pensadores negam essa afirmação empírica bem atestada, mas com mais esperança do que evidência. A esperança é motivada pela crença de que, se nossas escolhas são causadas dessa forma, elas não podem ser "livres" - e isso seria uma calamidade. Parece óbvio para muitos que devemos ser capazes desse tipo de escolha para sermos agentes moralmente competentes, mas isso nunca foi demonstrado, e foi tenazmente negado pelos compatibilistas, que argumentam que tal indeterminismo não é um pré-requisito para a responsabilidade moral. O ponto de discórdia centra-se na afirmação de que quando uma pessoa faz uma escolha moralmente responsável, deve ter a real "possibilidade de agir de outra forma" - e isso nunca acontece num mundo determinista. Mas isso ignora uma interpretação alternativa, e muito mais plausível, desta afirmação. [...

Quando um cartão vermelho é emitido, muitas vezes há uma discussão acalorada sobre se essa punição foi merecida. [...] E uma das principais questões levantadas [...] é: o jogador poderia ter agido de outra forma? Os jogadores são responsáveis por antecipar as suas trajetórias e as dos seus oponentes. Eles não podem alegar "Eu não poderia ter agido de outra forma porque eu já estava no ar em rota de colisão" se eles deveriam ter previsto isso como o resultado mais provável de um movimento. Este é o sentido de "poderia ter feito de outra forma" que importa para regras justas e punição justa, e não tem nada a ver com se o determinismo reina ou não no mundo físico, ou nos cérebros das pessoas individualmente. [...] Este é o sentido de "poderia ter feito de outra forma" que impõe uma obrigação a todos os participantes (jogadores do jogo ou cidadãos do estado) de pensar no futuro e dar a devida consideração aos resultados prováveis. Nada na neurociência mostrou que essa capacidade de autocontrolo responsável não existe em pessoas normais.>> 

Daniel C. Dennett, What Neuroscience will tell us about Moral Responsibility, https://ase.tufts.edu/cogstud/dennett/papers/RomeParliament.pdf, consultado em 02/12/2020

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terça-feira, 3 de janeiro de 2023


 Quando examinado, vê-se que o determinismo radical se baseia em três princípios:

  1. O princípio do determinismo — que tudo o que acontece tem uma causa;
  2. O princípio de que se uma ação é determinada, então não é livre (a pessoa não poderia realmente ter escolhido não a fazer); 
  3. O princípio de que a pessoa é moralmente responsável apenas por ações livres.

Argumentos a favor do determinismo radical:

Os deterministas radicais tendem a acreditar que as afirmações necessárias para apoiar a sua posição são óbvias. Parece-lhes óbvio que as ações determinadas, digamos, pela hereditariedade e pelo ambiente não podem ser ações livremente escolhidas; e igualmente óbvio que as pessoas são apenas responsáveis pelas ações que escolheram livremente. Por isso, os deterministas radicais concentraram o seu fogo no primeiro princípio — que o determinismo é verdadeiro. Os seus argumentos são muito fortes. Em primeiro lugar, as provas a favor do determinismo em geral baseadas na vida diária parecem extraordinariamente fortes. Quando pomos açúcar no café, esperamos que o café fique doce e ficaríamos muito surpreendidos se não o ficasse. Quando passeamos, o solo suporta-nos sempre — não nos enterramos lentamente na terra. Do mesmo modo, a gravidade nunca falha — nunca flutuamos suavemente até às estrelas. Quando os astronautas vão para o espaço, milhares de peças de equipamento têm de trabalhar de forma exatamente correta milhões de vezes — “exatamente correta” significa exatamente como foi previsto pelas teorias científicas acerca das leis da natureza que explicam como as coisas estão determinadas para acontecer. A verdade é que não podemos fazer um movimento sem confiar em pelo menos algo que funcione como funcionou no passado. Assim, cada experiência que temos parece apoiar a tese geral de que tudo o que acontece neste universo é causado ou determinado pelo que aconteceu no passado. Mas a questão principal entre os deterministas radicais e os seus opositores não é a propósito do determinismo ou da causalidade em geral. A questão diz respeito apenas a um conjunto limitado de acontecimentos ou circunstâncias no universo, a saber, a escolhas e ações humanas, em particular, a escolhas e ações morais. São as nossas ações livres (não-determinadas)? São as nossas escolhas livres? Há “espaço” suficiente nas leis que governam o universo para que estas coisas possam acontecer? Os deterministas dizem que não, e as provas parecem estar fortemente a seu favor. Em primeiro lugar, na vida diária fazemos constantemente previsões acerca do que as pessoas irão fazer. Como é óbvio, não podemos fazer previsões com 100 % de precisão, mas as pessoas perspicazes, de algum modo, fazem-nas razoavelmente bem. Classificam as pessoas em pessoas em quem se pode confiaregoístassem escrúpulossociáveisagressivashostis, e tudo o mais, com um sucesso moderado que é difícil explicar se as nossas ações e as nossas escolhas não forem determinadas. Além do mais, sabemos pela vida diária quão facilmente podemos alterar os nossos estados e capacidades mentais tomando drogas. É essa a razão do amplo uso do álcool, da marijuana, da cafeína, da nicotina, da aspirina, do Valium, e de outros modificadores da mente — alteramos as nossas perceções, libertamos as nossas inibições ou livramo-nos da dor. No caso do álcool, com frequência enfraquecemos a vontade moral ou abalamos, por exemplo, a resolução de nos abstermos de relações sexuais imorais. Tudo isto apoia o ponto de vista dos deterministas e opõe-se à ideia de vontades livres (não-causadas). Além disso, há as provas decisivas da ciência. Os cientistas pressupõem que as leis da natureza que descobriram se aplicam a tudo no universo, incluindo as minúsculas partículas que constituem o cérebro e o sistema nervoso humanos. Quando escolhemos fazer algo — digamos, apertar um dedo indicador contra o gatilho de uma arma carregada apontada a um inimigo —, impulsos elétricos viajam do cérebro para os músculos apropriados do corpo. Há uma grande quantidade de provas científicas (e nenhumas contraprovas convincentes) de que estes impulsos elétricos são causados por outros impulsos no cérebro, que em última instância são causados por interações químicas algures no corpo (por exemplo, em várias glândulas que segregam hormonas e na retina do olho). A noção de uma vontade livre (não-causada) parece assim contraditar alguns princípios científicos muito bem estabelecidos. Por último, deve-se fazer notar que, na vida diária, os indeterministas, tal como todas as outras pessoas, agem como se acreditassem realmente que o determinismo é verdadeiro. Em particular, antecipam as escolhas morais das outras pessoas exatamente como toda a gente. E pressupõem que a exortação moral, o treino moral e a educação moral serão eficazes, embora o objetivo do treino moral seja influenciar as decisões morais dos estudantes. Se as pessoas tomam efetivamente as suas decisões morais independentemente das forças causais, como tem o treino moral efeito?

Howard Kahane, Thinking About Basic Beliefs (Wadsworth, Belmont, 1983), pp. 44-48.

terça-feira, 20 de dezembro de 2022

Resumo Maria Simões 10I




Pintura Gerhard Richter

Existe outra perspetiva possível, completamente oposta a quase tudo o que temos vindo a dizer. Algumas pessoas pensam que a responsabilidade pelas nossas ações requer que elas sejam determinadas, em vez de requerer que não o sejam. O que se afirma é que para que uma ação seja algo que tenhas feito tem de ser produzida por certos tipos de causas em ti. Por exemplo, quando escolheste o bolo de chocolate, isso foi algo que fizeste, e não algo que se limitou a acontecer, porque preferiste comer um bolo de chocolate a comer um pêssego. Porque o teu apetite por bolo de chocolate nessa altura era mais forte do que o teu desejo de evitares ganhar peso, o resultado foi teres escolhido o bolo. No caso de outras ações, a explicação psicológica será mais complexa, mas haverá sempre uma - caso contrário, a ação não seria tua. Esta explicação parece querer dizer que aquilo que fizeste estava, afinal, determinado à partida. Se não tivesse determinado por nada, seria apenas um acontecimento por explicar, algo que teria acontecido a partir do nada, em vez de algo que tivesses feito.

De acordo com esta posição, a determinação causal, por si só, não ameaça a liberdade – só um certo tipo de causa o faz. Se pegasses no bolo porque alguém te tinha obrigado, então a escolha não teria sido livre. Mas a ação livre não requer de modo algum que não haja uma causa determinante: quer antes dizer que a causa tem de ser de um certo tipo psicológico que nos é familiar.

Por mim, não posso aceitar esta solução. Se pensasse que tudo o que faço é determinado pelas circunstâncias em que me encontro e pelas minhas condições psicológicas, sentir-me-ia encurralado. E, se pensasse o mesmo de todas as outras pessoas, pensaria que elas eram marionetas. Não faria sentido considerá-las responsáveis pelas suas ações, tal como não consideras responsável um cão, um gato ou mesmo um elevador.

Por outro lado, não tenho a certeza se compreendo como é que a responsabilidade pelas nossas escolhas faz sentido se elas não são determinadas. Não é claro o que quer dizer que eu determino a escolha se nada em mim a determina. Portanto, talvez o sentimento de que podias ter escolhido um pêssego em vez de uma fatia de bolo seja uma ilusão filosófica, que não podia ser correta, fosse qual fosse o caso.

Para evitar esta conclusão, terias de explicar (a) o que quer dizer a afirmação de que podias ter feito outra coisa diferente daquilo que fizeste e (b) como é que tu e o mundo teriam de ser para que isso fosse verdade.>>

Thomas Nagel, O Que Quer Dizer tudo Isto?, Gradiva,

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Texto para resumo Luís 10I


 “Sempre que possível, Maria irá fazer qualquer coisa diferente daquela que se espera. Se está a decidir se vai de férias na próxima semana e lhe apontarmos todas as razões para o que o faça, incluindo que irá de férias, bem, Maria vai perversamente ficar em casa. ‘Maria, com certeza deves querer tomar uma bebida fresca, está um dia tão quente!’. Qual quê, é bem capaz que vá para um chá a ferver. (...) Maria gosta de ser do contra, para lhe mostrar a si, e a nós, que é livre. Ela é livre de fazer o que quer, por mais irracional que seja. Acha que agir irracionalmente mostra que, ao contrário dos temporizadores, termóstatos e máquinas de fazer chá, possui livre-arbítrio.
Para que possa fazer o contrário propositadamente, Maria precisa que lhe diga o que prevê. Se previr que vai agir de uma forma, e lho disser, ela vai fazer o oposto. (...)
Muitos filósofos (...) acreditam que os nossos atos acabam por ser causados e determinados por fatores externos. (...) Estes fatores incluem as nossas características genéticas, o condicionamento próprio do nosso crescimento, a cultura na qual vivemos – e impactes diretos do ambiente sobre os nossos sentidos. De uma forma ou de outra, suscitam os nossos desejos, o que dizemos, os nossos movimentos e muito mais; por isso, é extremamente difícil encontrar algum espaço para aquilo que é costume pensar-se como livre-arbítrio ou liberdade de escolha. Em resumo, o que fazemos é determinado pela nossa natureza e criação, nenhuma das qual sendo escolhida por nós.
Um pouco mais detalhadamente, as ações de Maria – os movimentos que ela faz, as palavras que profere – são causadas por alterações eletromecânicas no seu cérebro, que por sua vez são causadas por outras alterações eletromecânicas e impactes através dos sentidos e por aí fora. Se os cientistas soubessem tudo sobre os genes, a maneira como os cérebros funcionam e como são afetados pelo ambiente e sobre as circunstâncias específicas de Maria, eles prediriam tudo o que Maria, mesmo Maria no modo contrário, faria. (...) Isto poderia parecer demonstrar que Maria não é livre e, de facto, não o é, quer alguém se dê ou não ao trabalho de fazer previsões.
Mas.. mas.. mas.. Será que não se mantém a seguinte possibilidade? Se os cientistas fizessem as suas previsões e se Maria soubesse o que eles previam, não era livre para decidir não o fazer? Se eles previam que ia escolher o vestido vermelho, ela podia optar por tornar a previsão deles falsa. Escolhia o azul.”

Peter Cave (2008). Duas vidas valem mais que uma? Academia do Livro, pp. 73-75.


sábado, 16 de janeiro de 2021

Texto para resumo Muni 10ºB (Indeterminismo)

 


Pretendo ver considerada uma certa ideia: Se toda a matéria for determinista, e se a mente das pessoas for algo de material, então o comportamento humano é fisicamente determinado. Um dos “ses” no que acabo de descrever — a ideia de que a matéria é determinista — não foi posta em questão até ao século XX. Foi então que Niels Bohr, Werner Heisenberg e Erwin Schödinger desenvolveram a Teoria Quântica. Esta teoria é interpretada de modos diferentes pelos físicos, mas segundo a interpretação canónica (chamada “a interpretação de Copenhaga”, em homenagem à terra natal de Bhor), de acordo com a Teoria Quântica, o comportamento das partículas elementares é indeterminista. Para esta interpretação da teoria, até uma descrição completa de um sistema físico deixa em aberto o que virá a ser o seu futuro. Alguns futuros serão mais prováveis que outros, mas o número de possibilidades é sempre maior que um. Em resumo, o presente não determina o futuro — o acaso faz parte do mundo. Não está estabelecido que a interpretação de Copenhaga é a melhor interpretação da Teoria Quântica. Nem sequer é inconcebível que esta bem confirmada teoria venha um dia a ser substituída por outra, que assegure que o universo é determinista. O que parece agora claro é que não podemos simplesmente pressupor que o determinismo tem de ser verdadeiro. Talvez o universo seja determinista, talvez não. Esta é uma questão científica a ser resolvida pela investigação científica. Não podemos decidir a priori se o determinismo é ou não verdadeiro. Suponhamos que somos feitos de matéria e que as nossas características psicológicas não se devem à presença de uma substância imaterial (um ego cartesiano), mas à maneira como a matéria de que somos feitos está estruturada. Se isto estiver certo, sugiro que o nosso comportamento deve ser como o comportamento das partículas elementares. Se o acaso influencia o comportamento das partículas, também influencia o das pessoas. Ou seja, estou a propor que o indeterminismo se propaga para os níveis superiores. Se os objetos físicos não obedecem a leis deterministas, os nossos desejos e crenças não determinam o que serão as nossas ações. Esses desejos e crenças tornarão algumas ações mais prováveis que outras. Do mesmo modo, os nossos genes mais o meio em que vivemos não determinam o que serão os nossos pensamentos e ações. A relação é uma vez mais probabilística, não determinista. A maioria dos filósofos que escreveram sobre o problema da liberdade humana não se mostraram preocupados com as implicações da Teoria Quântica. Pressupõem, em geral, que a matéria é determinista e, depois, tentam considerar o que isso implica para a questão de saber se somos ou não livres. Isto é inteiramente compreensível para pessoas como David Hume, que escreveram sobre a questão do livre-arbítrio muito antes de a Teoria Quântica entrar em cena; afinal, Hume escrevia no apogeu da conceção newtoniana do mundo.

Elliott Sober, Core Questions in Philosophy (Prentice Hall, 2008) 

https://criticanarede.com/eti_livrearbitrio.html


sábado, 12 de dezembro de 2020

O problema do livre-arbítrio

 Selecione a ligação abaixo para aceder ao diapositivo

Determinismo e liberdade na ação humana.


sábado, 2 de março de 2019

O Problema do Livre-arbítrio.

Argumentos contra o livre-arbítrio:(a favor do determinismo na acção humana)

1. Argumento da causalidade à distância:As nossas acções são o efeito de causas como acontecimentos passados e factores físicos que não controlamos.

2. Argumento da inevitabilidade:Assim como um computador está programado de um determinado modo e só pode responder de acordo com a programação prévia, assim também temos crenças e desejos e não podemos agir de outro modo senão segundo o que queremos e acreditamos.

( a acrasia contraria de forma imediata estes argumentos porque agimos contra o que cremos e desejamos, todavia pode sempre dizer-se que a acrasia tem uma causa que a determina)

Contraponto a estes dois argumentos:

Há diferença entre comportamento voluntário e intencional e comportamento determinado por forças físicas e psicológicas fortes.

Exemplo :
Freud, O caso do lavador de mãos – comportamento compulsivo
Caso de Patty Hearst em 1974 – lavagem ao cérebro

Estes casos contrariam a tese determinista porque demonstram que há uma diferença entre comportamento voluntário e intencional e comportamento determinado

A CAUSALIDADE EM QUESTÃO:
O Determinismo defende que, se todos os factores causais relevantes forem conhecidos então podemos prever o que irá acontecer a seguir.

Mas recentemente com a Teoria Quântica, o comportamento das partículas elementares é indeterminista. Para uma interpretação da teoria: uma descrição completa de um sistema físico deixa em aberto o que virá a ser o seu futuro. Alguns futuros serão mais prováveis que outros mas o número de possibilidades é sempre maior que um.

Se os objectos físicos não obedecem a leis deterministas, os nossos desejos e crenças não determinam o que serão as nossas acções. A relação é uma vez mais probabilística, o presente não determina o futuro — o acaso faz parte do mundo.

Argumentos a favor do Livre-arbítrio: (tradicional)1. Admite uma Posição dualista de que há uma mente distinta do corpo, que as crenças e desejos do sujeito representam escolhas deliberadas e reflectidas e que são essas escolhas que nos fazem agir de determinado modo. A mente ou alma obedece a crenças e valores que dependem do nosso estado de conhecimento e não de causas físicas. A mente é livre.

2. Posição de Searle.
 Não é dualista mas monista (a mente é uma função do cérebro) corpo e mente têm a mesma substância mas obedecem a leis diferentes e apresentam características diferentes.
Características da mente diferentes do corpo:
Consciência, parece uma característica única da mente que não pertence ao corpo.

Intencionalidade .capacidade de um estado mental se dirigir ao mundo e ao mesmo tempo a si próprio.

Subjectividade dos estados mentais. Ver o mundo a partir de um certo ponto de vista, ter dores que só são experimentadas pelo sujeito por mais ninguém.

A concepção de que somos livres é uma convicção da nossa consciência que é inseparável do estado mental que nos diz que temos sempre alternativas e que podemos fazer outra coisa diferente do que fazemos.
Também temos a experiência de que somos livres porque podemos agir contrariando as expectativas e ordens.

 Os factores psicológicos que nos impelem a agir podem influenciar mas não determinam o comportamento ( não há determinismo psicológico)

Logo, a possibilidade de alternativas (escolhas) faz parte , é intrínseca do comportamento humano voluntário e intencional.
Fica por explicar de que modo as acções (mentais) interferem no mundo (físico).

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Ficha 5. Liberdade ou necessidade?


Leia este texto acerca da forma como este personagem parece não tomar qualquer decisão, a sua ação é apenas uma reação,sem alternativa. O seu comportamento parece ser totalmente causado e pode ser explicado por acontecimentos anteriores.

“Tomei um banho e vesti-me. Encontrei umas garrafas vazias e arranjei umas moedas por elas no armazém. Encontrei um bar na Avenida, entrei e pedi um copo. Havia um grande número de bêbados por ali, brincando com a jukebox, falando aos gritos e rindo. De quando em quando, um copo novo aparecia na minha frente. Alguém estava a pagar. Eu bebia. Comecei a falar com as pessoas. [...] Acordei muito mais tarde num reservado ao fundo do bar. Levantei-me e olhei em redor. Todos se tinham ido embora. O relógio marcava 3h15. Tentei a porta, estava trancada. Cruzei o balcão do bar e peguei numa garrafa de cerveja, abri-a, voltei a sentar-me. Depois voltei lá e tirei.. umas batatas [...] Bebi até às cinco da manhã. Depois arrumei o bar, lancei o lixo fora, fui até a porta, tentei sair. Ao chegar à rua, vi que uma viatura da polícia se aproximava. Guiavam devagar na cola dos meus passos. Depois de um quarteirão, estacionaram um pouco mais à frente de onde eu estava. Um dos policias pôs a cabeça para fora da janela. – Ei, parceiro! O foco das suas lanternas estava apontado ao meu rosto. – O que estás a fazer? – A ir pra casa. – Moras aqui perto? – Sim. – Onde? – Avenida Longwood, 2122. [...] – Entra. Obedeci. – Diz-nos onde. Levaram-me a casa. – Agora, toca à campainha. [...] – Estás completamente bêbado! – gritou meu pai. – Sim. [...] – Bêbado! O meu filho é um bêbado. O meu filho é um bêbado maldito, um desgraçado! Os cabelos na cabeça do meu pai erguiam-se em tufos desordenados. As suas sobrancelhas estavam eriçadas, a sua cara inchada e turva pelo sono. – Você age como se eu tivesse matado alguém. – É praticamente a mesma coisa! – Oooh, ... Subitamente vomitei no tapete persa que representava a Árvore da Vida. A minha mãe gritou. O meu pai avançou na minha direção.– Sabes o que fazemos com um cão que suja tapete? – Agarrou-me pela nuca. Empurrou-me para baixo, forçando-me a dobrar a coluna. Queria pôr-me de joelhos. – Vou-te ensinar. – Não... O meu rosto estava quase a roçar aquilo. – Vou-te mostrar como fazemos com os cães! Ergui-me do chão com o soco pronto. Um golpe perfeito. Ele retrocedeu a toda a distância da porta até ao sofá, onde caiu sentado. [...] [...] Fui para o meu quarto pensando que o melhor era arranjar um emprego.”

( Factótun, Charles Bukowski, L&PM Pocket, p. 21-24).
Exercício:
Grupo I
1.     O que fez com que Henry Chinaski (nome do personagem) tomasse a decisão de arranjar um emprego?
2.     Poderíamos dizer que foi definitivo para que Henry tomasse a decisão?
3.      De acordo com o seguinte argumento abaixo, responda se acha possível que toda ação humana seja causada e, ainda assim, que sejamos livres. Justifique sua resposta.
a. Todo o acontecimento tem uma causa.
b. As ações humanas são acontecimentos.
c. Portanto, todas as ações humanas são causadas.
d. As ações humanas só são livres quando não são causadas.
e. Portanto, as ações humanas não são livres.

Grupo II

Liberdade e Necessidade A. J. Ayer “[…] Do fato de o meu comportamento poder ser explicado, no sentido em que pode ser subsumido sob uma lei da natureza, não se segue que estou a agir sob coação. Se isto for correto, dizer que eu poderia ter agido de outra maneira é dizer, primeiro, que eu teria agido de outra maneira se assim o tivesse escolhido; segundo, que a minha ação foi voluntária no sentido em que as ações, digamos, de um cleptomaníaco não o são; e, em terceiro lugar, que ninguém me obrigou a escolher o que escolhi. E estas três condições podem muito bem ser respeitadas. E quando o são pode-se dizer que agi livremente. Mas isto não significa que agir como agi foi uma questão de acaso ou, por outras palavras, que a minha ação não poderia ser explicada. E que as minhas ações possam ser explicadas é tudo o que é exigido pelo postulado do determinismo.”
(Liberdade e Necessidade, A. J. Ayer, 
Exercício:
1.     A decisão de Henry de arranjar um emprego pode ser explicada?
2.     Se sim, você acha que isso é suficiente para dizer que sua escolha foi determinada? Justifique.
3.     Levando em consideração as condições explicitadas por Ayer, poderíamos dizer que a escolha de Henry é livre? Por quê?


Compatibilismo

segunda-feira, 21 de novembro de 2016