quinta-feira, 23 de maio de 2019

Kant: a moral como disposição individual.




"De facto, estas leis ordenam absolutamente, seja qual for o seu resultado, mais ainda, obrigam até a dele abstrair totalmente, quando se trata de uma acção particular; e, por isso, fazem do dever o objecto do maior respeito, sem nos apresentar e propor um fim (e fim último), que teria porventura de constituir a recomendação delas e o móbil para cumprir o nosso dever. Todos os homens poderiam com isto ter bastante, se (como deviam) se ativessem unicamente à prescrição da razão pura na lei. Que necessidade têm de saber o resultado do seu fazer e deixar moral, que o curso do mundo suscitará? Basta-lhes que façam o seu dever; mesmo que com a vida terrena tudo acabasse e nesta, porventura, jamais coincidissem felicidade e dignidade."

Kant, A religião nos limites da simples Razão

Assim está justificada a independência entre a ação moral e os seus resultados. Pois a ação moral não é moral por causa do seu resultado, nem boa nem má, mas tem carácter moral unicamente por resultar de uma disposição da vontade do agente de se submeter a uma lei  que prescreve um dever absoluto, sem outro incentivo ou estímulo que não a dignidade de ser o criador da lei a que se submete. 

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Relatório Raquel Frutuoso

1. Resumo do texto
2. Notas sobre a biografia dos autores
3. Definição dos conceitos mais importantes
4. Comentário crítico

SOBRE A MORAL DEONTOLÓGICA DE KANT


“- Kant tinha desde o princípio a forte impressão de que a diferença entre o justo e o injusto tinha de ser mais do que uma questão de sentimentos. Nesse aspecto ele estava de acordo com os racionalistas, que tinham explicado que era inerente à razão humana distinguir o justo do injusto. Todos os homens sabem o que é justo e o que não é, e nós sabemo-lo não apenas porque o aprendemos, mas também porque é inerente à nossa razão. Kant achava que todos os homens tinham uma “razão prática” que nos diz sempre o que é justo e o que é injusto no domínio da moral.
- Então é inata?
 - A capacidade de distinguir o justo do injusto é tão inata como todos os outros atributos da razão. Todos os homens vêem os fenómenos como determinados causalmente – e também têm acesso à mesma lei moral universal. Esta lei moral tem a mesma validade absoluta que as leis físicas da natureza. Isso é tão fundamental para a nossa vida moral como é fundamental para a nossa vida racional que tudo tenha uma causa, ou que sete mais cinco sejam doze.
- E o que é que diz essa lei moral?
- Uma vez que precede qualquer experiência, é "formal". Significa que não está relacionada com possibilidades morais de escolha determinadas. É válida para todos os homens em todas as sociedades e em todos os tempos. Logo, não diz que tens de fazer isto ou aquilo nesta ou naquela situação. Diz como te deves comportar em todas as situações.
- Mas que sentido tem uma lei moral, se não nos diz como nos devemos comportar numa situação determinada?
-Kant formula a lei moral como imperativo categórico. Por isto, ele entende que a lei moral é "categórica", quer dizer, é válida em todas as situações. Além disso, é um "imperativo" e consequentemente uma "ordem" e absolutamente inevitável.
- Hm...
- Aliás, Kant formula o seu imperativo categórico de diversas formas. Primeiro, diz: “devíamos agir sempre de tal forma que pudéssemos desejar simultaneamente que a regra segundo a qual agimos fosse uma lei universal”.
- Quando faço alguma coisa, tenho de ter a certeza de que desejo que todos façam o mesmo na mesma situação.
- Exato. Só nessa altura ages de acordo com a tua lei moral interior. Kant também formulou o imperativo categórico da seguinte forma: devemos tratar os outros homens sempre como um fim em si e não como um meio para alguma outra coisa.
-Não podemos, portanto, "explorar" os outros para obtermos benefícios.
 -Não, porque todos os homens são um fim em si. Mas isso não é válido apenas para os outros, mas também para nós mesmos. Também não nos devemos explorar como meio para alcançar algo.
- Isso faz-me lembrar a "regra dourada": não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. -Sim, e isso é uma norma formal que abrange basicamente todas as possibilidades éticas de escolha. (…)
- Para Kant, a lei moral era tão absoluta e universalmente válida como, por exemplo, a lei da causalidade. Também não pode ser provada pela razão, mas é incontornável. Nenhum homem a contestaria.
 - Começo a ter a sensação de que estamos realmente a falar da consciência, porque todos os homens têm uma consciência.
-Sim, quando Kant descreve a lei moral, descreve a consciência humana. Não podemos provar o que a consciência diz, mas sabemo-lo. - Por vezes, sou muito simpático para com os outros simplesmente porque é vantajoso para mim. Desse modo, posso ser popular. - Mas quando és simpática para com os outros apenas para seres popular, não estás a agir de acordo com a lei moral. Talvez não estejas a observar a lei moral. Talvez estejas a agir numa espécie de acordo superficial com a lei moral - e isso já é alguma coisa -, mas uma ação moral tem de ser o resultado de uma superação de ti mesma. Só quando fazes algo porque achas ser teu “dever” seguir a lei moral é que podes falar de uma ação moral. Por isso, a ética de Kant é frequentemente chamada “ética do dever”.
- Eu posso achar ser meu dever juntar dinheiro para a Cruz Vermelha ou a Caritas. - Sim, e o importante é tu fazeres uma coisa porque a achas correta. Mesmo quando o dinheiro que tu juntaste se extravia ou nunca alimente as pessoas que devia alimentar, tu cumpriste a lei moral. Agiste com a atitude correta e, segundo Kant, a atitude é decisiva para podermos dizer que uma coisa é moralmente correta. Não são as consequências de uma ação que são decisivas. Por isso, também dizemos que a “ética de Kant é uma ética da boa vontade”.
 - Porque é que era tão importante para ele saber quando é que agimos por respeito à lei moral? Não é mais importante que aquilo que fazemos ajude os outros? - Sim, Kant concordaria, mas só quando sabemos que agimos por respeito à lei moral é que agimos em “liberdade”.
- Só obedecendo a uma lei é que agimos em liberdade? Isso não é estranho?
- Segundo Kant, não. Talvez ainda te lembres que ele "postulou" o livre arbítrio do homem. Esse é um ponto importante, porque Kant achava que todas as coisas seguem a lei da causalidade. Como é que podemos ter livre arbítrio assim?
-Não me perguntes.

Jostein Gaarder, O mundo de Sofia

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Texto para relatório

A boa vontade
A primeira sentença do Fundamento de Kant afirma: “a única coisa que é incondicionalmente boa é uma boa vontade”. O argumento de Kant para isso é bastante plausível. Considere tudo o que você considera bom: saúde, riqueza, beleza, inteligência etc. Em todos os casos, você pode imaginar uma situação em que essa coisa boa não é boa, afinal de contas. Uma pessoa pode ser corrompida por sua riqueza. A saúde robusta de um valentão torna mais fácil para ele abusar de suas vítimas. A beleza de uma pessoa pode levá-la a se tornar vaidosa e falhar em desenvolver seus talentos. Até a felicidade não é boa se for a felicidade de um sádico torturar suas vítimas.
Uma boa vontade, ao contrário, diz Kant, é sempre boa em todas as circunstâncias.
Mas o que, exatamente, ele quer dizer com boa vontade? A resposta é bastante simples. Uma pessoa age de boa vontade quando faz o que faz porque acha que é seu dever: quando age a partir de um senso de obrigação moral.
Direito vs. Inclinação
Obviamente, não realizamos todos os pequenos atos que fazemos por um sentimento de obrigação. Na maior parte do tempo, estamos simplesmente seguindo nossas inclinações, agindo por interesse próprio. Não há nada de errado com isso. Mas ninguém merece crédito por perseguir seus próprios interesses. Isso vem naturalmente para nós, assim como acontece naturalmente com todos os animais. O que é notável sobre os seres humanos, porém, é que podemos, e às vezes, realizar uma ação a partir de motivos puramente morais. Por exemplo, um soldado atira-se em uma granada, sacrificando sua vida para salvar a vida dos outros. Ou menos dramaticamente, eu pago uma dívida como prometi, mesmo que isso me deixe sem dinheiro.
Aos olhos de Kant, quando uma pessoa escolhe livremente fazer a coisa certa só porque é a coisa certa a fazer, sua ação agrega valor ao mundo; acende-se, por assim dizer, com um breve brilho de bondade moral.
Saber qual é o seu dever
Dizer que as pessoas devem cumprir seu dever com um senso de dever é fácil. Mas como podemos saber qual é o nosso dever? Às vezes, podemos nos ver diante de dilemas morais nos quais não é óbvio qual ação está correta.
De acordo com Kant, no entanto, na maioria das situações, o dever é óbvio. E se formos incertos, podemos resolver isso refletindo sobre um princípio geral que ele chama de “Imperativo Categórico”. Esse, ele afirma, é o princípio fundamental da moralidade.
Todas as outras regras e preceitos podem ser deduzidas a partir desse. Ele oferece várias versões diferentes desse imperativo categórico. Um corre da seguinte forma:
“Aja apenas com base na máxima que você pode usar como lei universal”.
O que isso significa, basicamente, é que devemos nos perguntar: como seria se todos agissem da maneira que estou agindo? Eu poderia sinceramente e consistentemente desejar um mundo em que todos se comportassem dessa maneira? De acordo com Kant, se nossa ação é moralmente errada, não poderíamos fazer isso. Por exemplo, suponha que estou pensando em quebrar uma promessa. Eu poderia desejar um mundo em que todos quebrassem suas promessas quando mantê-las fosse inconveniente? Kant argumenta que eu não poderia querer isso, até porque em tal mundo ninguém faria promessas, pois todos saberiam que uma promessa não significava nada.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

Texto para relatório

“O que significa emitir um juízo moral, discutir uma questão ética ou viver de acordo com padrões éticos? Como diferem os juízos morais de outros juízos práticos? Por que razão achamos que a decisão de uma mulher de fazer um aborto levanta uma questão ética, o mesmo não acontecendo com a sua decisão de mudar de emprego? Qual é a diferença entre uma pessoa que vive de acordo com padrões éticos e outra que não procede assim?

(…) quem segue convicções éticas não convencionais vive, mesmo assim, de acordo com padrões éticos, *se pensar, por qualquer motivo, que o que faz é um bem*. A condição em itálico dá-nos uma pista para a resposta que procuramos. A noção de viver de acordo com padrões éticos está ligada à noção da defesa da forma como se vive, de dar uma razão para tal, de a justificar. Assim, uma pessoa pode fazer todo o tipo de coisas que consideramos um mal e, mesmo assim, continuar a viver de acordo com padrões éticos, se for capaz de defender e justificar o que faz. Podemos achar a justificação pouco adequada e continuar a pensar que as ações são um mal, mas a tentativa de justificação, bem sucedida ou não, é suficiente para trazer o comportamento dessa pessoa para o domínio do ético, em oposição ao não ético. Quando, por outro lado, uma pessoa não consegue encontrar uma justificação para aquilo que faz, podemos rejeitar a sua pretensão de que vive de acordo com padrões éticos, mesmo que aquilo que faz respeite princípios morais convencionais. Podemos ir mais longe. Se aceitarmos que uma determinada pessoa vive de acordo com padrões éticos, a justificação deve ser de determinado tipo. Uma justificação exclusivamente em termos de interesse pessoal, por exemplo, não serve. Quando Macbeth, contemplando o assassínio de Duncan, admite que apenas a "ambição desmedida" o leva a cometê-lo, está a admitir que a ação não pode justificar-se eticamente. "Para eu poder ser rei em seu lugar" não é uma tentativa frágil de justificação ética para o assassínio; não é o tipo de razão que conta como justificação ética. É necessário mostrar que as ações motivadas pelo interesse pessoal são compatíveis com princípios éticos de base mais ampla para serem defensáveis, porque a noção de ética traz consigo a ideia de algo mais vasto do que o individual. Se eu quiser defender o meu comportamento com fundamentos éticos, não posso assinalar apenas os benefícios que tal comportamento me traz a mim. Tenho de me preocupar com um grupo mais vasto. Desde a antiguidade que os filósofos e os moralistas têm expressado a ideia de que o comportamento ético é aceitável de um ponto de vista que é, de alguma forma, universal. A "regra de ouro" atribuída a Moisés, que se encontra no livro do Levítico e foi subsequentemente repetida por Jesus, diz que devemos ir para além do nosso interesse pessoal e "amar o nosso semelhante como a nós mesmos" ou, por outras palavras, atribuir aos interesses alheios a mesma importância que damos aos nossos. A ideia de nos pormos no lugar dos outros está associada à outra formulação cristã do mandamento, segundo a qual devemos fazer aos outros aquilo que gostaríamos que eles nos fizessem. Os Estóicos defendiam que a ética decorre de uma lei natural universal. Kant desenvolveu esta ideia na sua famosa fórmula: "Age apenas segundo as máximas que possas ao mesmo tempo querer que se tornem leis universais." A teoria de Kant, por sua vez, foi modificada e desenvolvida por R. M. Hare, que vê a universalizabilidade como uma característica lógica dos juízos morais. Hutcheson, Hume e Adam Smith, filósofos ingleses do século __XVIII, apelaram para um "espectador imparcial" imaginário como pedra-de-toque do juízo moral; a sua versão moderna é a teoria do observador ideal. Os utilitaristas, de Jeremy Bentham a J. J. Smart, consideram axiomático que, ao decidir sobre questões morais, "cada qual vale por um e ninguém por mais de um", enquanto John Rawls, um importante crítico contemporâneo do utilitarismo, incorpora essencialmente o mesmo axioma na sua própria teoria, deduzindo princípios éticos fundamentais de uma escolha imaginária, na qual aqueles que escolhem não sabem se serão beneficiados ou prejudicados pelos princípios que escolhem. Até mesmo filósofos do continente europeu, como o existencialista Jean-Paul Sartre e o especialista em teoria critica Jürgen Habermas, que diferem em muitos aspetos dos seus colegas de expressão inglesa - e também entre si -, concordam que, em certo sentido, a ética é universal.”
Peter Singer, Ética Prática, Prefácio, Gradiva, 1993

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Correção do teste de Março de 2019


Grupo I
Análise lógica do texto de Espinosa.
1. Tema: liberdade humana.
Problema 1 : O que é ser livre?
Problema 2: Será que o homem é livre?
Tese 1: Uma coisa livre é aquela que age apenas pela necessidade da sua natureza.
Argumento: Deus é livre  porque age segundo a necessidade da sua natureza sem ser constrangido e determinado por outro a existir de um certo modo preciso alheio à sua natureza.
Tese 2: O homem pensa ou tem a ilusão que é livre mas não é.
Argumento: Como qualquer objeto singular e criatura, não age pela sua natureza mas determinado por uma certa causa exterior. A pedra ao mover-se tem uma causa (algo exterior)que a faz mover, ela pode ter a ilusão de que se move por si mas é apenas uma ilusão pois todos os objetos são determinados a agir segundo determinadas causas que lhes são exteriores. O homem é consciente do que o faz mover, os seus desejos e crenças, mas ignora porque tem estes desejos e crenças que são consequência de uma qualquer lei que os faz existir desse modo.
Conceitos:  Liberdade e Necessidade, Lei determinada.

2. O autor defende a tese dos deterministas radicais, isto é, que qualquer coisa que se mova e aja, a sua ação é causada por outros acontecimentos. O homem não sendo causa de si também não pode ter em si, nem sequer dominar, as causas que o fazem ser e agir de um modo determinado.
Argumentos dos deterministas. Argumento da causalidade à distância: As nossas ações são o efeito de causas como acontecimentos passados e fatores físicos, leis naturais, que não controlamos. Argumento da inevitabilidade: Assim como um computador está programado de um determinado modo e só pode responder de acordo com a programação prévia, assim também temos crenças e desejos e não podemos agir de outro modo senão segundo o que queremos e acreditamos. Exemplo do texto: “todo o objeto singular é necessariamente determinado por qualquer causa exterior a existir e a agir segundo uma forma precisa e determinada.”
Principal argumento determinista. A nossa ação intervém no mundo físico. Tudo no mundo físico tem uma causa, logo a nossa ação é como qualquer acontecimento, também tem uma causa que o faz ocorrer. O princípio do determinismo — que tudo o que acontece tem uma causa; O princípio de que se uma ação é determinada a ser de um certo modo de acordo com acontecimentos passados, então não é livre (a pessoa não poderia realmente ter escolhido não a fazer).Portanto, Espinosa considera que as nossas ações são necessariamente de um certo modo de acordo com as causas que as precederam e, sendo assim, não poderiam ser de outro modo, logo, não há verdadeiramente uma escolha, apesar de pensarmos que sim.

3.Argumentos a favor do Livre-arbítrio: (tradicional)
1. Admite uma Posição dualista de que há uma mente distinta do corpo, que as crenças e desejos do sujeito representam escolhas deliberadas e refletidas e que são essas escolhas que nos fazem agir de determinado modo. A mente ou alma obedece a crenças e valores que dependem do nosso estado de conhecimento e não de causas físicas. A mente é livre.

2. Posição de Searle.
Não é dualista mas monista (a mente é uma função do cérebro) corpo e mente têm a mesma substância mas obedecem a leis diferentes e apresentam características diferentes.
Características da mente diferentes do corpo: Consciência, parece uma característica única da mente que não pertence ao corpo. Intencionalidade .capacidade de um estado mental se dirigir ao mundo e ao mesmo tempo a si próprio.Subjetividade dos estados mentais. Ver o mundo a partir de um certo ponto de vista, ter dores que só são experimentadas pelo sujeito por mais ninguém.

A conceção de que somos livres é uma convicção da nossa consciência que é inseparável do estado mental que nos diz que temos sempre alternativas e que podemos fazer outra coisa diferente do que fazemos.
Também temos a experiência de que somos livres porque podemos agir contrariando as expectativas e ordens.
A conclusão a retirar destes argumentos é a de que os fatores psicológicos que nos impelem a agir podem influenciar mas não determinam o comportamento ( não há determinismo psicológico),logo, a possibilidade de alternativas (escolhas) faz parte , é intrínseca do comportamento humano voluntário e intencional.
Fica por explicar de que modo as ações (mentais) interferem no mundo (físico).


Grupo III
1. Ações voluntárias são aquelas cujo motivo é intrínseco ao agente, isto é, faz parte do agente e depende das suas intenções (exemplo: jogar futebol) enquanto ações involuntárias são aquelas cujo motivo é extrínseco ao agente e não depende dele, quando suamos  ou espirramos e alguém passa e leva com o nosso espirro, ou por coação externa ou interna, fechar e abrir as pálpebras . Ações mistas são aquelas que em parte são voluntárias e em parte involuntárias, ações por negligência, por ignorância, forçadas ou coagidas (exemplo: dar um pontapé numa bola, ignorar os vidros das salas e a bola partir o vidro).


2. Será a ideia geral de que tudo é determinado por causas, compatível com a crença no livre-arbítrio? Será que o Homem é como todo o elemento natural e como tal está determinado? Ou sendo natural, não é do mesmo modo que outros seres?

domingo, 10 de março de 2019

INVESTIGAÇÃO SOBRE CIDADANIA, ÉTICA E POLÍTICA





PARA APRESENTAR EM DIAPOSITIVO NA TERÇA - DIA 19 - ÀS 11.45h- Tema 1,2 e 3
DIA 20 -Quarta às 14h - Tema 4,5 e 6)
Leitura dos textos obrigatória. Os alunos podem e devem realizar uma investigação no tema.

TEMA 1 -DIREITOS HUMANOS - políticos, sociais e vitais - Manual novos contextos. 10º. p.263-275 na reprografia
Grupo: Rodrigo, Miguel, Afonso e Duarte

TEMA 2 - Ética e Política. Será que a política deve estar subordinada à Ética ou o contrário.  Terá o aprtheid uma justificação ética? Texto aqui Texto aqui Texto aqui
Grupo: Luisa, Raquel, Inês e katheryna

TEMA 3.O que é um governo justo? Será que temos direito à revolta e à desobediência se o estado for injusto?    leitura das páginas 146 à 166 do Manual do 10ºAno"Pensar" 
Grupo: Camila, Catarina, Beatriz S e Beatriz C.                                                                                                                          
TEMA 4- A figura de nelson mandela. O seu perfil ético e político. Como deverá ser um dirigente político? TEXTO AQUI
 Grupo: Diogo R, Diogo P, Tomás P e Felipe E.

TEMA 5 - O juízo moral Será que podemos dizer que os juízos morais são universais ou coletivos? Qual a importância da cultura para a moral? TEXTO AQUI 
Grupo: Gabriel, Frederico, Kelly, António e Soraia

TEMA 6 -Guerra e paz. Poderá justificar-se a guerra?  Texto colocado na Reprografia "A Guerra e as suas várias faces" 
Grupo: Ana P, Gonçalo, Joana e Juelson 

Objetivos:
1. Reflectir sobre a Éica na Política.
2. Compreender o multiculturalismo e as suas consequências éticas, políticas e socias.
3. Avaliar as políticas e os dirigentes políticos.
4. Conhecer o conteúdo das leis éticas universais como a carta dos Direitos Humanos.
5. Discutir as legitimidade das formas de revolta: a desobediência civil e a guerra.

Avaliação:

DIAPOSITIVO: Compreensão do texto
Investigação
Problematização
Correção da apresentação
Originalidade e qualidade da informação
ORAL:Interesse filosófico
Dinâmica de grupo
Domínio dos conteúdos
Originalidade da apresentação

Texto para resumo. Filipe - 10B

 Vivienne Westwood



" As questões sobre os valores - isto é, sobre o que é bom ou mau em si, independentemente dos seus efeitos estão fora do domínio da ciência, como os defensores da religião afirmam veementemente. Eu penso que nisto têm razão, mas retiro outra conclusão que eles não retiram - a de que as questões sobre "valores" estão completamente fora do domínio do conhecimento. Por outras palavras, quando afirmamos que isto ou aquilo tem "valor", estamos a exprimir as nossas emoções, e não a indicar algo que seria verdadeiro mesmo que os nossos sentimentos pessoais fossem diferentes. (...)



Qualquer tentativa de persuadir as pessoas de que algo é bom (ou mau) em si, e não apenas por causa dos seus efeitos, depende não de qualquer recurso a provas, mas da arte de suscitar sentimentos. O talento do pregador consiste em criar nos outros emoções semelhantes às suas - ou diferentes, se ele for hipócrita. Ao dizer isto não estou a criticar o pregador, mas a analisar o carácter essencial da sua actividade.


Quando um homem diz "Isto é bom em si" parece estar a exprimir uma proposição como se tivesse dito "Isto é um quadrado" ou "Isto é doce". Julgo que isto é um erro. Penso que aquilo que o homem quer realmente dizer é "Quero que toda a gente deseje isto", ou melhor, "Quem me dera que toda a gente desejasse isto". Se aquilo que ele diz for interpretado como uma proposição, esta é apenas sobre o seu desejo pessoal. Se for antes interpretado num sentido geral, nada afirma, exprimindo apenas um desejo. O desejo, enquanto acontecimento, é pessoal, mas o que se deseja é universal. Penso que foi este curioso entrelaçamento entre o particular e o universal que provocou tanta confusão na Ética. (...)


Se esta análise está correcta, a ética não contém quaisquer proposições, sejam elas verdadeiras ou falsas, consistindo em desejos gerais de uma certa espécie, nomeadamente naqueles que dizem respeito aos desejos da humanidade em geral - e dos deuses, dos anjos e dos demónios, se eles existirem. A ciência pode discutir as causas dos desejos e os meios para os realizar, mas não contém quaisquer frases genuinamente éticas, pois esta diz respeito ao que é verdadeiro ou falso.


A teoria que estou a defender é uma forma daquela que é conhecida por doutrina da "subjectividade" dos valores. Esta doutrina consiste em sustentar que, se dois homens discordam quanto a valores, há uma diferença de gosto, mas não um desacordo quanto a qualquer género de verdade. Quando um homem diz "As ostras são boas" e outro diz "Eu acho que são más" , reconhecemos que nada há para discutir. A teoria em questão sustenta que todas as divergências de valores são deste género, embora pensemos naturalmente que não o são quando estamos a lidar com questões que nos parecem mais importantes que as das ostras. A razão principal para adoptar esta perspectiva é a completa impossibilidade de encontrar quaisquer argumentos que provem que isto ou aquilo tem valor intrínseco. Se estivéssemos de acordo a este respeito, poderíamos defender que conhecemos os valores por intuição. Não podemos provar a um daltónico que a relva é verde e não vermelha, mas há várias maneiras de lhe provar que ele não tem um poder de discriminação que a maior parte dos homens tem. No entanto, no caso dos valores não há qualquer maneira de fazer isso, e aí os desacordos são muito mais frequentes que no caso das cores. Como não se pode sequer imaginar uma maneira de resolver uma divergência a respeito de valores, temos de chegar à conclusão de que a divergência é apenas de gostos e não se dá ao nível de qualquer verdade objectiva.

Bertrand Russell, Ciência e Ética, 1935. Tradução de Paula Mateus

quarta-feira, 6 de março de 2019

domingo, 3 de março de 2019

Textos para resumo: Katherine e Juelson -10B


Resumo Katherine


"Achamos fácil abandonar a convicção de que a Terra é chata, logo que compreendemos a prova para a teoria heliocêntrica do sistema solar. De modo semelhante, quando olhamos para o pôr do Sol, apesar das aparências, não nos sentimos compelidos a crer que o Sol está a pôr-se por detrás da Terra. Cremos que a aparência do pôr do Sol é simplesmente uma ilusão criada pela rotação da Terra. Em cada caso, é possível abandonar uma convicção de sentido comum, porque a hipótese que a substitui explica as experiências que levaram a essa convicção em primeiro lugar e explica igualmente um vasto conjunto de outros factos que a conceção de senso comum é incapaz de explanar. Eis porque deixámos de lado a crença numa terra chata e o «pôr do Sol» literal em favor da conceção copernicana do sistema solar. Mas não podemos de modo semelhante abandonar a convicção de liberdade, porque esta convicção está inserida em toda a ação intencional normal e consciente. E usamos esta convicção para identificarmos e explicarmos as ações. Esse sentido de liberdade não é apenas uma característica de deliberação, mas é parte de qualquer ação, seja premeditada ou espontânea. O ponto nuclear nada tem essencialmente a ver com a deliberação. A deliberação é apenas um caso especial.
Não navegamos na Terra com base na suposição numa terra chata, mesmo se a Terra parece chata, mas agimos no pressuposto da liberdade. Efetivamente, não podemos agir de outra maneira senão com base na suposição da liberdade, pouco importando o que aprendemos acerca do modo como o Mundo funciona enquanto sistema físico determinado.
Podemos agora tirar as conclusões que estão implícitas nesta discussão. Primeiro se a preocupação a propósito do determinismo é uma preocupação por que todo o nosso comportamento é de facto psicologicamente compulsivo, então, parece que tal preocupação é injustificável. Na medida em que o determinismo psicológico é uma hipótese empírica como qualquer outra, então as provas que presentemente temos disponíveis sugere que ela é falsa. Assim, isto fornece-nos uma forma modificada de compatibilismo. Fornece-nos a convicção de que o libertarismo psicológico é compatível com o determinismo físico.
Em segundo lugar, fornece-nos mesmo um sentido do «poderia ter» em que o comportamento das pessoas, embora determinado, é tal que nesse sentido elas poderiam ter agido de outra maneira: o sentido é simplesmente que, tanto quanto aos fatores psicológicos diz respeito, elas poderiam ter agido de outra maneira. As noções de capacidade, do que somos capazes de fazer e do que poderíamos ter feito, são muitas vezes relativas a algum conjunto semelhante de critérios. Por exemplo, eu poderia ter votado em Carter nas eleições americanas em 1980, mesmo se o não fiz; mas não poderia ter votado em George Washington. Ele não foi um candidato. Assim, há um sentido do «poderia ter», em que há para mim disponível um conjunto de escolhas e nesse sentido há muitas coisas que eu poderia ter feito, permanecendo iguais todas as outras coisas que eu não fiz. De modo semelhante, porque os fatores psicológicos que operam em mim nem sempre ou mesmo em geral, não me impelem a comportar-me de uma maneira particular, muitas vezes eu, falando em termos psicológicos poderia ter feito algo de diferente daquilo que efetivamente fiz.
Mas, em terceiro lugar, esta forma de compatibilismo ainda não nos fornece nada que se assemelhe à resolução do conflito entre liberdade e determinismo, que o nosso impulso para o libertarismo radical efetivamente exige. Enquanto aceitarmos a conceção de pernas para o ar da explicação física, e é uma conceção em que se baseiam os trezentos anos passados da ciência, então os factos acerca de nós, como quaisquer outros factos de níveis superiores, são inteiramente e causalmente explicáveis em termos de e inteiramente realizáveis em sistemas de elementos ao nível microfísico fundamental. A nossa conceção da realidade física não oferece espaço à liberdade radical.
Em quarto e ultimo lugar, por razões que efetivamente não compreendo, a evolução deu-nos uma forma de experiência da ação voluntária onde a experiência da liberdade, isto é, a experiência do sentido de possibilidades alternativas, está inserida na genuína estrutura do comportamento humano consciente, voluntário e intencional. Por essa razão, creio, nem esta discussão nem qualquer outra alguma vez nos convencerá de que o nosso comportamento não é livre."

Além de realizar o resumo do texto (ver as regras de resumo) responda à seguinte pergunta: Qual a posição sobre o conflito entre o determinismo e o livre-arbítrio que o autor defende? Justifique.
John Searle, Mente Cérebro e Ciência

RESUMO  JUELSON

Determinismo radical

Quando examinado, vê-se que o determinismo radical baseia-se em três princípios:
  1. O princípio do determinismo — que tudo o que acontece tem uma causa;
  2. O princípio de que se uma acção é determinada, então não é livre (a pessoa não poderia realmente ter escolhido não a fazer); e
  3. O princípio de que a pessoa é moralmente responsável apenas por acções livres.

Argumentos a favor do determinismo radical

Os deterministas radicais tendem a acreditar que a segunda e a terceira das afirmações necessárias para apoiar a sua posição são óbvias (e o mesmo fazem os libertistas). Parece-lhes óbvio que as acções determinadas, digamos, pela hereditariedade e pelo ambiente não podem ser acções livremente escolhidas; e igualmente óbvio que as pessoas são apenas responsáveis pelas acções que escolheram livremente. Por isso, os deterministas radicais concentraram o seu fogo no primeiro princípio — que o determinismo é verdadeiro. Os seus argumentos são muito fortes.
Em primeiro lugar, as provas a favor do determinismo em geral baseadas na vida diária parecem extraordinariamente fortes. Quando pomos açúcar no café, esperamos que o café fique doce e ficaríamos muito surpreendidos se não o ficasse. Quando passeamos, o solo suporta-nos sempre — não nos enterramos lentamente na terra. Do mesmo modo, a gravidade nunca falha — nunca flutuamos suavemente até às estrelas. Quando os astronautas vão para o espaço, milhares de peças de equipamento têm de trabalhar de forma exactamente correcta milhões de vezes — “exactamente correcta” significa exactamente como foi previsto pelas teorias científicas acerca das leis da natureza que explicam como as coisas estão determinadas para acontecer.
A verdade é que não podemos fazer um movimento sem confiar em pelo menos algo que funcione como funcionou no passado. Assim, cada experiência que temos parece apoiar a tese geral de que tudo o que acontece neste universo é causado ou determinado pelo que aconteceu no passado.
Mas a questão principal entre os deterministas radicais e os seus opositores não é a propósito do determinismo ou da causalidade em geral. A questão diz respeito apenas a um conjunto limitado de acontecimentos ou circunstâncias no universo, a saber, a escolhas e acções humanas, em particular, a escolhas e acções morais. São as nossas acções livres (não-determinadas)? São as nossas escolhas livres? Há “espaço” suficiente nas leis que governam o universo para que estas coisas possam acontecer? Os deterministas dizem que não e as provas parecem estar fortemente a seu favor.
Em primeiro lugar, na vida diária fazemos constantemente previsões acerca do que as pessoas irão fazer. Como é óbvio, não podemos fazer previsões com 100 % de precisão, mas as pessoas perspicazes, de algum modo, fazem-nas razoavelmente bem. Classificam as pessoas em pessoas em quem se pode confiar, egoístas, sem escrúpulos, sociáveis, agressivas, hostis, e tudo o mais, com um sucesso moderado que é difícil explicar se as nossas acções e as nossas escolhas não forem determinadas.
Além do mais, sabemos pela vida diária quão facilmente podemos alterar os nossos estados e capacidades mentais tomando drogas. É essa a razão do amplo uso do álcool, da marijuana, da cafeína, da nicotina, da aspirina, do Valium, e de outros modificadores da mente — alteramos as nossas percepções, libertamos as nossas inibições ou livramo-nos da dor. No caso do álcool, com frequência enfraquecemos a vontade moral ou abalamos, por exemplo, a resolução de nos abstermos de relações sexuais imorais. Tudo isto apoia o ponto de vista dos deterministas e opõe-se à ideia de vontades livres (não-causadas).
Além disso, há as provas decisivas da ciência. Os cientistas pressupõem que as leis da natureza que descobriram se aplicam a tudo no universo, incluindo as minúsculas partículas que constituem o cérebro e o sistema nervoso humanos. Quando escolhemos fazer algo — digamos, apertar um dedo indicador contra o gatilho de uma arma carregada apontada a um inimigo —, impulsos eléctricos viajam do cérebro para os músculos apropriados do corpo. Há uma grande quantidade de provas científicas (e nenhumas contraprovas convincentes) de que estes impulsos eléctricos são causados por outros impulsos no cérebro, que em última instância são causados por interacções químicas algures no corpo (por exemplo, em várias glândulas que segregam hormonas e na retina do olho). A noção de uma vontade livre (não-causada) parece assim contraditar alguns princípios científicos muito bem estabelecidos1.
Por último, deve-se fazer notar que, na vida diária, os indeterministas, tal como todas as outras pessoas, agem como se acreditassem realmente que o determinismo é verdadeiro. Em particular, antecipam as escolhas morais das outras pessoas exactamente como toda a gente. E pressupõem que a exortação moral, o treino moral e a educação moral serão eficazes, embora o objectivo do treino moral seja influenciar as decisões morais dos estudantes. Se as pessoas tomam efectivamente as suas decisões morais independentemente das forças causais, como tem o treino moral efeito?

O argumento contra o determinismo radical

Como vimos, o determinismo radical baseia-se em três princípios. Não o podemos refutar rejeitando o primeiro deles (o princípio do determinismo), como acabámos de defender. Por isso, para refutá-lo, temos de atacar o segundo e o terceiro princípios (embora praticamente ninguém escolha o terceiro). Como veremos, esta é exactamente a forma como os deterministas moderados refutam o determinismo radical. Mas por detrás desta refutação encontra-se um desejo muito forte de que as pessoas sejam responsáveis pelas suas acções e escolhas e uma enorme necessidade de admirar e premiar aqueles que se sacrificam pelo seu dever e de abominar e punir a obra do diabo. E essa é, em última instância, a razão fundamental para rejeitar o determinismo radical. (Seja o que for que alguns filósofos possam afirmar, a verdade é que quando julgamos moralmente os outros não nos importa se as nossas escolhas morais são determinadas ou não — uma vez mais, repara no comportamento quotidiano de todos, incluindo os deterministas radicais.)