quarta-feira, 16 de maio de 2018
terça-feira, 8 de maio de 2018
terça-feira, 1 de maio de 2018
Texto para relatório
Pintura de Vanessa Bell
Quem supõe que ...o ser superior, em qualquer coisa como
circunstâncias iguais, não é mais feliz que o inferior -confunde as duas ideias
muito diferentes de felicidade e contentamento. É indiscutível que um ser cujas
capacidades de deleite são baixas tem maior probabilidade de tê-las
inteiramente satisfeitas, e que um ser altamente dotado sentirá sempre que
qualquer felicidade que pode esperar, tal como o mundo é constituído, é
imperfeita. Mas pode aprender a suportar as suas imperfeições, se de todo forem
suportáveis, e elas não o farão invejar o ser que na verdade não tem
consciência das imperfeições, mas só porque não sente de maneira nenhuma o bem
que essas imperfeições qualificam. É melhor ser um ser humano insatisfeito do
que um porco satisfeito. E se o idiota ou o porco têm uma opinião diferente é
porque só conhecem o seu próprio lado da questão. A outra parte da comparação
conhece ambos os lados.
De dois prazeres, se houver um ao qual todos ou quase todos
aqueles que tiveram a experiência de ambos derem uma preferência decidida,
independentemente de sentirem qualquer obrigação moral para o preferir, então
será esse o prazer mais desejável. Se um dos dois for colocado, por aqueles que
estão competentemente familiarizados com ambos, tão acima do outro que eles o
preferem mesmo sabendo que é acompanhado de um maior descontentamento, e se não
abdicarem dele por qualquer quantidade do outro prazer acessível à sua
natureza, então teremos razão para atribuir ao deleite preferido uma
superioridade em qualidade que ultrapassa de tal modo a quantidade que esta se
torna, por comparação, pouco importante.
Ora, é um facto inquestionável que aqueles que estão
igualmente familiarizados com ambos, e que são igualmente capazes de os
apreciar e de se deleitar com eles, dão uma preferência muitíssimo marcada ao
modo de existência que emprega as suas faculdades superiores. Poucas criaturas
humanas consentiriam ser transformadas em qualquer dos animais inferiores
perante a promessa da plena fruição dos prazeres de uma besta, nenhum ser
humano inteligente consentiria tornar-se tolo, nenhuma pessoa instruída se
tornaria ignorante, nenhuma pessoa de sentimento e consciência se tornaria
egoísta e vil, mesmo que a persuadissem de que o tolo, o asno e o velhaco estão
mais satisfeitos com a sua sorte do que ela com a sua. (...) Um ser com
faculdades superiores precisa de mais para ser feliz, provavelmente é capaz de
um sofrimento mais agudo e certamente é-lhe vulnerável em mais aspetos. Mas,
apesar destas desvantagens, não pode nunca desejar realmente afundar-se naquilo
que se lhe afigura como um nível de existência inferior. (...) Quem supõe que
esta preferência implica um sacrifício da felicidade - que, em igualdade de
circunstâncias, o ser superior não é mais feliz que o ser inferior - confunde
as ideias muito diferentes de felicidade e de contentamento. É indiscutível que
um ser cujas capacidades de deleite sejam baixas tem uma probabilidade maior de
as satisfazer completamente, e que um ser amplamente dotado sentirá sempre que,
da forma como o mundo é constituído, qualquer felicidade que possa procurar é
imperfeita. Mas pode aprender a suportar as suas imperfeições, se de todo forem
suportáveis, e estas não o farão invejar o ser que, na verdade, está
inconsciente das imperfeições, mas apenas porque não sente de modo nenhum o bem
que essa imperfeições qualificam. É melhor um ser humano insatisfeito do que um
porco satisfeito; é melhor Sócrates insatisfeito do que um tolo satisfeito. E
se o tolo ou o porco têm uma opinião diferente é porque só conhecem o seu
próprio lado da questão. A outra parte da comparação conhece ambos os lados.
John Stuart Mill, Utilitarismo, Porto Editora, Porto, 2005
domingo, 29 de abril de 2018
Trabalho para as turmas 10E e 10D.
A teoria moral de Kant
“As leis
morais dizem como as pessoas devem comportar-se, não dizem o que as pessoas de
facto farão. As leis morais são normativas, enquanto as leis científicas são
descritivas.
Apesar
desta diferença, Kant pensava que há uma semelhança profunda entre elas. As
leis científicas são universais — envolvem todos os fenómenos de
um tipo específico. Não estão limitadas a lugares ou instantes. Além disso, uma
proposição que enuncia uma lei não faz menção a qualquer pessoa, lugar ou coisa
particular. “Todos os amigos de Napoleão falavam Francês” pode ser uma
generalização verdadeira, mas não pode ser uma lei, uma vez que faz menção a um
indivíduo específico — Napoleão. Distinguirei esta propriedade das leis
científicas dizendo que são “impessoais”.
Kant
pensava que também as leis morais têm de ser universais e impessoais. Se está
certo que eu faça uma determinada coisa, então está certo para qualquer pessoa
nas mesmas circunstâncias fazer a mesma coisa. Não é possível que Napoleão deva
ter o direito de fazer alguma coisa simplesmente por ser quem é. Tal como as
leis científicas, as leis morais não mencionam pessoas específicas.
Um outro
elemento da filosofia moral de Kant deve ser referido antes de descrevermos
como pensava Kant que a razão e nada mais prescreve os nossos princípios
morais. O utilitarismo afirma que as propriedades morais de uma ação são
determinadas pelas suas consequências na felicidade das pessoas ou na
satisfação das suas preferências. Kant não concebia a moralidade como algo que
se centra em maximizar a felicidade. Em particular, não via as consequências da
ação como o verdadeiro teste das suas propriedades morais. O que para ele era
central é a “máxima que a ação incorpora”.
Kant: o valor moral de uma ação deriva da sua máxima, e não das suas
consequências
Não é
difícil perceber por que razão precisamos de considerar os motivos do agente e
não as consequências da ação. Kant descreve o caso de um comerciante que nunca
engana os seus clientes. A razão é que ele receia que, se os enganasse, os seus
clientes deixariam de comprar na sua loja. Kant diz que o comerciante faz o que
está certo, embora não pela razão certa. Ele age de acordo com a
moralidade, mas não devido à moralidade. Para descobrir o valor moral de
uma ação, temos de ver por que razão o agente a realiza, o que as
consequências não revelam.
Se o
comerciante age aplicando a máxima “Sê sempre honesto”, a sua ação tem valor
moral. Todavia, se a sua ação é o resultado da máxima “Não enganes as pessoas
se é provável que isso te cause prejuízos financeiros”, ela é meramente
prudencial, e não moral. O valor moral depende dos motivos e os motivos são
dados pela máxima que o agente aplica ao decidir o que fazer.”
A teoria moral de Kant, Elliot Sober
1. Para Kant as leis morais e as leis científicas
poderiam comparar-se. O que têm de diferente e o que têm de semelhante?
2. O que faz com que a ação de uma pessoa seja verdadeiramente
uma ação com conteúdo moral? Porquê?
3. O que é uma “máxima”?
4. Porque é que para Kant as consequências de uma ação
não importam mas sim os motivos?
sábado, 28 de abril de 2018
Resposta às questões do texto sobre a diversidade cultural não implicar diversidade moral.
Fotografia dos Inuits fotografados na Sibéria/Russia. Fotografia de Sasha Leahovcenco
1. A tese do texto é que duas culturas podem ter costumes muito diferentes mas seguirem os mesmos princípios morais. O que significa que o que difere não são os valores morais mas sim diferentes crenças sobre os factos.
2. A autora defende que não há diferentes valores morais entre culturas historicamente diferentes. A moral é condicionada pela cultura mas nem todos os princípios morais dependem da cultura. Culturas como os Calatinos ou os Gregos, ou os Innui, conduzem os seus costumes por princípios que são semelhantes como: "honrar os mortos", "proteger as crianças", "honrar pai e mãe". A forma de demonstrar esta sua moral é, contudo, diferente, uns queimam, outros comem os seus mortos - por exemplo - . Poderemos então pôr em causa o relativismo moral que defende que cada cultura tem os seus princípios morais, podemos compreender que alguns destes princípios são comuns a todas as culturas, mas há é um conhecimento dos factos diferente.
3/4. Não mentir e não matar são normas morais para todas as culturas, pois sem essas normas a sociedade não podia evoluir pois não tinha segurança nem confiança no outro. A moral existe para podermos viver com os outros e para isso temos de os respeitar como queremos ser respeitados. Se não houvesse o dever de não mentir, se mentir fosse permitido moralmente, então nenhum contrato ou transação era possível entre dois homens. Não podia estabelecer-se a confiança que permite a entreajuda necessária à sobrevivência. A moral expressa a nossa necessidade de nos ajudarmos para podermos sobreviver e evoluir enquanto comunidade; cada indivíduo está também dependente da comunidade para sobreviver e viver melhor .
sexta-feira, 27 de abril de 2018
terça-feira, 24 de abril de 2018
domingo, 8 de abril de 2018
Ganhar valor
- Tenho uma vida terrivelmente monótona. Eu, caço galinhas e os homens, caçam-me a mim. As galinhas são todas iguais umas às outras e os homens são todos iguais uns aos outros, Por isso, às vezes, aborreço-me um bocado. Mas se tu me prenderes a ti, a minha vida fica cheia de Sol. Fico a conhecer uns passos diferentes de todos os outros passos. Os outros passos fazem-me fugir para debaixo da terra. Os teus hão-de chamar-me para fora da toca, como uma música. E depois olha! Estás a ver, ali adiante, aqueles campos de trigo? Eu não como pão e, por isso, o trigo não me serve para nada. Os campos de trigo não me fazem lembrar de nada. E é uma triste coisa! Mas os teus cabelos são da cor do ouro. Então, quando eu estiver presa a ti vai ser maravilhoso! Como o trigo é dourado, há-de fazer-me lembrar de ti. E hei-de gostar do barulho do vento a bater no trigo…
A raposa calou-se e ficou a olhar durante muito tempo para o principezinho.
- Por favor… Prende-me a ti! - acabou finalmente por dizer.
- Eu bem gostava - respondeu o principezinho - mas não tenho muito tempo. Tenho amigos para descobrir e uma data de coisas para conhecer...
- Só conhecemos as coisas que prendemos a nós – disse a raposa. – Os homens, agora, já não têm tempo para conhecer nada.
Compram as coisas já feitas nos vendedores. Mas como não há vendedores de amigos, os homens já não têm amigos. Se queres um amigo, prende-me a ti!
- E o que é que é preciso fazer? – perguntou o principezinho.
- É preciso ter muita paciência. Primeiro, sentas-te um bocadinho afastado de mim, assim, em cima da relva. Eu olho para ti pelo canto do olho e tu não dizes nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas todos os dias te podes sentar um bocadinho mais perto...
O principezinho voltou no dia seguinte.
- Era melhor teres vindo à mesma hora - disse a raposa. Se vieres, por exemplo, às quatro horas, às três, já eu começo a ser feliz. E quanto mais perto for da hora, mais feliz me sentirei.
Às quatro em ponto já hei-de estar toda agitada e inquieta: é o preço da felicidade! Mas se chegares a uma hora qualquer, eu nunca saberei a que horas é que hei-de começar a arranjar o meu coração, a vesti-lo, a pô-lo bonito... São precisos rituais.
- O que é um ritual? - perguntou o principezinho.
- Também é uma coisa de que toda a gente se esqueceu - respondeu a raposa. - É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias e uma hora, diferente das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, têm um ritual. À quinta-feira, vão ao baile com as raparigas da aldeia. Assim, a quinta-feira é um dia maravilhoso. Eu posso ir passear para as vinhas. Se os caçadores fossem ao baile num dia qualquer, os dias eram todos iguais uns aos outros e eu nunca tinha férias.
Foi assim que o principezinho prendeu a si a raposa. E quando chegou a hora da despedida: - Ai! - exclamou a raposa – Ai que me vou pôr a chorar…
- A culpa é tua - disse o principezinho. - Eu bem não queria que te acontecesse mal nenhum, mas tu quiseste que eu te prendesse a mim…
- Pois quis - disse a raposa.
- Mas agora vais-te pôr a chorar! - disse o principezinho.
- Pois vou – disse a raposa.
- Então não ganhaste nada com isso!
- Ai isso é que ganhei! – disse a raposa. – Por causa da cor do trigo…
Depois acrescentou:
- Anda, vai ver outra vez as rosas. Vais perceber que a tua é única no mundo. Quando vieres ter comigo, dou-te um presente de despedida: conto-te um segredo.
O principezinho lá foi ver as rosas outra vez.
- Vocês não são nada parecidas com a minha rosa! Vocês ainda não são nada - disse-lhes ele. - Não há ninguém preso a vocês e vocês não estão presas a ninguém. Vocês são como a minha raposa era. Era uma raposa perfeitamente igual às outras cem mil raposas. Mas eu tornei-a minha amiga e, agora ela é única no mundo.
E as rosas ficaram bastante incomodadas.
- Vocês são bonitas, mas vazias - ainda lhes disse o principezinho. - Não se pode morrer por vocês. Claro que, para um transeunte qualquer, a minha rosa é perfeitamente igual a vocês. Mas, sozinha, vale mais do que vocês todas juntas, porque foi a ela que eu reguei. Porque foi a ela que eu pus debaixo de uma redoma. Porque foi a ela que eu abriguei com o biombo.
"O principezinho" de Saint- Exupéry
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