Por volta de
450 a.C., Atenas tornou-se o centro cultural do mundo grego. A filosofia também
tomou então uma orientação nova. Os filósofos da natureza eram, principalmente,
investigadores do mundo físico. Ocupam consequentemente um lugar importante na
história das ciências. Em Atenas, o interesse concentrou-se então mais no homem
e no seu lugar na sociedade.
Em Atenas
desenvolvia-se progressivamente uma democracia com assembleias populares e
tribunais. Uma das condições para a instauração da democracia exigia que os
homens recebessem instrução suficiente para poderem participar na vida
política. Também nos dias de hoje vemos que uma jovem democracia precisa do esclarecimento
popular. Entre os atenienses isso significava, principalmente, dominar a
retórica.
Vindo das colónias
gregas, um grupo de professores itinerantes e de filósofos afluiu então a
Atenas. Chamavam-se sofistas. A palavra “sofista” designa uma pessoa sábia ou
erudita. Em Atenas, os sofistas ganhavam o seu sustento ensinando os cidadãos. Os
sofistas tinham uma notável semelhança com os filósofos da natureza, pois
também eles eram críticos relativamente aos mitos tradicionais. Mas,
simultaneamente, os sofistas recusavam tudo o que lhes parecia ser especulação
filosófica desnecessária. Achavam que mesmo que houvesse resposta para muitas
questões filosóficas, os homens nunca poderiam encontrar explicações
verdadeiramente seguras para os enigmas da natureza e do universo. Em filosofia,
este ponto de vista é designado por “ceticismo”.
Como podes
compreender, os sofistas provocavam fortes discussões na sociedade ateniense,
ao afirmarem que não havia normas absolutas para estabelecer o que é justo e o
que não é. Sócrates, pelo contrário, tentou provar que algumas normas são
realmente absolutas e universalmente válidas.
“Quem era
Sócrates?” Sócrates (470-399 a.C.) é talvez a personagem mais enigmática de
toda a história da filosofia. Não escreveu uma única linha. Apesar disso,
pertence ao número dos que exerceram maior influência no pensamento europeu. O
fato de ser conhecido, mesmo por quem não possui muitos conhecimentos de filosofia,
tem provavelmente a ver com a sua morte trágica.
Sabemos que
nasceu em Atenas e que aí passou a sua vida, principalmente nas praças e nas
ruas, onde conversava com todo o tipo de gente. Achava que os campos e as
árvores não lhe podiam ensinar nada. Por vezes, ficava longas horas absorto em
reflexão profunda.
Sabe-se que
era muito feio. Era pequeno e gordo, e tinha olhos salientes e um nariz achatado.
Mas interiormente, dizia-se, era um homem maravilhoso, nunca se poderia
encontrar alguém igual a ele.
No entanto,
foi condenado à morte devido à sua atividade filosófica. Conhecemos a vida de
Sócrates principalmente através de Platão, que era seu discípulo, também ele um
dos maiores filósofos da história.
Platão
escreveu muitos diálogos — ou conversas filosóficas — nas quais faz participar
Sócrates. Quando
Platão põe as palavras na boca de Sócrates, não podemos dizer com certeza que
Sócrates as
tivesse verdadeiramente pronunciado. Por isso, não é fácil distinguir a
doutrina de Sócrates da de Platão.
O que
distinguia, na verdade, a atividade de Sócrates era o seu desejo de não ensinar
os homens. Em vez disso, parecia querer ele mesmo aprender com o seu
interlocutor. Assim, não ensinava como um vulgar professor de escola:
dialogava.
Mas não se
teria tornado um filósofo famoso se apenas tivesse escutado os seus interlocutores.
Também não teria sido condenado à morte.
E,
principalmente no início, apenas punha questões. Alegava, humildemente, nada
saber. No decurso do diálogo, levava frequentemente os outros a reconhecerem os
pontos fracos das suas reflexões. Podia suceder então que o interlocutor fosse
encostado à parede e tivesse de reconhecer, por fim, o que era o justo e o
injusto.
Diz-se que a
mãe de Sócrates era parteira, e Sócrates comparava a sua atividade à arte da
obstetrícia.
Não é a
parteira que dá à luz a criança, ela apenas está presente e ajuda a mãe. Sócrates
compreendeu também que a sua tarefa era ajudar os homens a “parir” o saber correto,
porque o verdadeiro saber tem de vir de dentro e não pode ser enxertado.
Jostein Gaarder, O mundo de Sofia