terça-feira, 1 de outubro de 2019

O que é a Filosofia?


A CARTOLA

GAARDER, Jostein – in O Mundo de Sofia, pp. 16-20

…para nos tornarmos bons filósofos precisamos unicamente da capacidade de nos surpreendermos...

Sofia calculou que o autor das cartas anónimas daria de novo notícias. Decidiu não contar nada a ninguém acerca das cartas.
                Na escola, tornava-se-lhe difícil concentrar-se no que o professor dizia. Achou que ele falava apenas de coisas sem importância. Porque é que ele não falava antes acerca do que é um ser humano — ou do que é o mundo, e qual fora a sua origem?
                Experimentava uma sensação que nunca experimentara antes: na escola e por toda a parte as pessoas ocupavam-se apenas com coisas fúteis. Mas havia questões importantes e difíceis, cuja resposta era mais importante do que as disciplinas normais da escola.
                Teria alguém respostas para estes problemas? De qualquer modo, Sofia achava mais importante reflectir sobre eles do que aprender de cor os verbos irregulares.
                Quando, após a última aula, a campainha tocou, ela saiu tão depressa do pátio da escola que Jorunn teve de correr para a alcançar.
                Passado um pouco, Jorunn perguntou:
                — Que tal se jogássemos às cartas hoje tarde? Sofia encolheu os ombros.
                Acho que já não estou muito interessada em jogos de cartas. Jorunn pareceu cair das nuvens.
                Não? Jogamos então badmington?
                Sofia olhou fixamente para o asfalto e depois para a amiga.
                — Acho que já nem o badmington me interessa. Está bem!
                Sofia sentiu na voz de Jorunn em tom de azedume. Podes então dizer-me o que é que passou a ser mais importante?
                Sofia abanou a cabeça.
                — Isso... é um segredo.
                — Já percebi. Estás apaixonada.
                Caminharam juntas algum tempo em silêncio. Quando chegaram ao campo desportivo, Jorunn disse:
                — Eu vou pelo campo.
                «Pelo campo». Esse era o caminho mais curto para Jorunn, mas ela só o fazia quando tinha que chegar cedo a casa, porque esperava visitas, ou porque tinha consulta no dentista.
Sofia teve pena de ter magoado Jorunn. Mas o que deveria ter respondido? Que estava subitamente muito ocupada em saber quem era e de onde vinha o mundo e que já não tinha tempo para jogar badmington? Será que a sua amiga teria entendido?
                Por que motivo era tão difícil tratar das questões mais importantes e simultaneamente mais naturais?
                Sentiu o coração bater mais depressa à medida que abria a caixa do correio. Primeiro viu apenas uma carta do banco e alguns envelopes amarelos e grandes, para a sua mãe. Que aborrecimento. Sofia tinha esperado tanto receber Uma nova carta do remetente desconhecido!
                Quando estava a fechar o portão, encontrou escrito num dos envelopes grandes o seu nome. No verso, lia-se: Curso de Filosofia. Não dobrar.
                Sofia percorreu o caminho de saibro e deixou a mala da escola na escada. Empurrou as restantes cartas para debaixo do capacho, correu para o jardim atrás da casa e refugiou-se na toca. A carta grande tinha de ser aberta ali.
                Sherekan correra atrás dela, mas contra isso nada podia fazer. Sofia tinha a certeza de que o gato não daria à língua.
                O envelope continha três grandes folhas escritas à máquina, unidas com um clipe. Sofia começou a ler.

O que é a filosofia?

                Cara Sofia! Há muitas pessoas que têm diversos hobbys. Algumas coleccionam moedas antigas ou selos, outras fazem trabalhos manuais, outras ainda dedicam quase todo o tempo livre a uma modalidade desportiva.
                Muitos gostam de ler. Mas aquilo que lemos pode variar muito. Há quem leia apenas jornais ou banda desenhada, outros gostam de romances, outros ainda preferem livros sobre os mais variados temas como a astronomia, a vida selvagem ou as descobertas técnicas.
                Se estou interessado em cavalos ou pedras preciosas, não posso exigir que todos os outros partilhem deste interesse. Se me sento em frente à televisão encantado com todos os programas desportivos, tenho de aceitar que outros possam achar o desporto aborrecido.
                Haverá alguma coisa que interesse a toda a gente? Haverá alguma coisa que diga respeito a todas as pessoas, independentemente do que são e do sítio do mundo onde vivem? Sim, cara Sofia, há questões que dizem respeito a todos os homens. E neste curso trata-se precisamente dessas questões.
                Qual a coisa mais importante na vida? Se o perguntarmos a alguém num país com o problema da fome, a resposta é: a comida. Se pusermos esta questão a alguém que esteja com frio, nesse caso a resposta é: o calor. E se perguntarmos a uma pessoa que se sinta muito sozinha a resposta será certamente: a companhia de outras pessoas.
                Mas admitindo que todas estas necessidades estão satisfeitas será que resta alguma coisa de que todos os homens precisam? Os filósofos acham que sim. Segundo eles, o homem não vive apenas do pão. E evidente que todos os homens precisam de comer. Todos precisam de amor e de atenção, mas há algo mais de que todos os homens precisam. Precisamos de descobrir quem somos e porque é que vi vemos.
                lnteressarmo-nos pela razão da nossa existência não é um interesse ocasional, como o interesse em coleccionar selos. Quem se interessa por tais problemas, preocupa-se com tudo aquilo que os homens discutem desde que apareceram neste planeta. A questão acerca da origem do universo, do globo terrestre e da vida é mais vasta e mais importante do que saber quem ganhou mais medalhas de ouro nos últimos Jogos Olímpicos.
                A melhor maneira de nos iniciarmos na filosofia é colocar perguntas filosóficas:
                Como se formou o mundo? Haverá uma vontade ou um sentido por detrás daquilo que acontece? Haverá vida depois da morte? Como podemos encontrar resposta para estas perguntas? E, acima de tudo, como deveríamos viver?
                Estas perguntas foram colocadas desde sempre pelos homens. Não conhecemos nenhuma cultura que não tenha perguntado quem são os homens e de onde vem o mundo.
                As perguntas filosóficas que podemos colocar não são muitas mais. Já colocámos algumas das mais importantes. A história oferece-nos muitas respostas diferentes para cada uma destas perguntas.
                Por isso, é mais fácil formular perguntas filosóficas do que encontrar a sua resposta.
                Mesmo hoje, cada um deve encontrar as suas respostas para estas perguntas. Não podemos saber se Deus existe ou se há vida depois da morte, consultando a enciclopédia. A enciclopédia não nos diz como devemos viver. Mas ler o que outros homens pensaram pode no entanto ser uma ajuda, se quisermos formar a nossa própria concepção da vida e do mundo.
                A busca da verdade pelos filósofos pode ser talvez comparada a um romance policial. Alguns pensam que Andersen é o assassino, outros pensam que é Nielsen ou Jepsen. Talvez o verdadeiro mistério deste crime possa ser um dia esclarecido subitamente pela polícia. Podemos também pensar que a polícia nunca conseguirá resolver o enigma. Mas este tem, no entanto, uma solução.
                Mesmo quando é difícil responder a uma pergunta, é possível imaginar que a pergunta possa ter uma — e apenas uma — resposta correcta. Ou há uma forma de vida após a morte ou não.
                Muitos enigmas antigos foram entretanto resolvidos pela ciência. Outrora, o aspecto da face oculta da Lua era um grande mistério. Não se podia descobrir a resposta através da discussão, e assim era deixada à imaginação de cada um. Mas hoje em dia sabemos exactamente qual é o aspecto da face oculta da Lua. Já não podemos acreditar que haja um homem a viver na lua, ou que ela seja um queijo.
               
                Segundo um filósofo grego que viveu há mais de dois mil anos, a filosofia surgiu da capacidade que os homens têm de se surpreender. O homem acha tão estranho viver, que as perguntas filosóficas surgem por si mesmas.
                Pensa no que sucede quando observamos um truque de magia: não conseguimos perceber como é possível aquilo que estamos a ver. E perguntamo-nos: como é que o ilusionista conseguiu transformar dois lenços brancos de seda num coelho vivo?
                Para muitos homens, o mundo parece tão inexplicável como o coelho que um ilusionista retira subitamente de uma cartola até então vazia.
                No que diz respeito ao coelho, percebemos claramente que o ilusionista nos enganou. O que pretendemos descobrir é como nos enganou. Quando falamos sobre o mundo, a situação é diferente. Sabemos que o mundo não é pura mentira, uma vez que nós estamos na Terra e somos uma parte do universo. Na verdade, somos o coelho branco que é retirado da cartola. A diferença entre nós e o coelho branco é apenas o facto de o coelho não saber que participa num truque de magia. Connosco passa-se de modo diferente. Sentimos que tomamos parte em algo misterioso, e gostaríamos de esclarecer de que modo tudo está relacionado.

                P.S. No que diz respeito ao coelho branco, o melhor é talvez compará-lo com o conjunto do universo. Nós, que vivemos aqui, somos parasitas minúsculos que vivem na pele do coelho. Mas os filósofos procuram trepar pelos pêlos finos, de modo a poderem fixar nos olhos o grande ilusionista.
                Estás a seguir-me, Sofia? Receberás a continuação.

                Sofia estava exausta. Se estava a seguir? Já nem sabia se tinha respirado durante a leitura.
                Quem tinha trazido a carta? Quem? Quem?
                Era impossível que fosse a mesma pessoa que enviara o postal de aniversário a Hilde Møller Knag, visto que o postal tinha selo e carimbo, e o envelope amarelo fora colocado directamente na caixa do correio exactamente como os envelopes brancos.
Sofia olhou para o relógio. Eram apenas três menos um quarto. Só daí a duas horas é que a sua mãe chegaria do trabalho.
                Sofia foi de novo para o jardim, e correu para a caixa do correio. Haveria mais alguma coisa?
                Encontrou um outro envelope amarelo, no qual estava escrito o seu nome. Olhou à sua volta, mas não conseguiu descobrir ninguém. C2orreU para a orla do bosque e olhou em redor, mas não encontrou ali vivalma. De repente, pareceu-lhe ouvir ramos a estalar mais à frente no bosque. Mas não tinha a certeza absoluta, e não faria sentido ir no encalço de alguém que tentava fugir-lhe.
                Sofia abriu a porta de casa com a chave e co1ocou a mala da escola e correspondência para a mãe no chão. Foi para o quarto, pegou na grande caixa de biscoitos onde guardava a sua colecção de pedras, pôs as pedras no chão e colocou os dois envelopes grandes na caixa. Foi de novo para o jardim com a caixa nas mãos, depois de ter dado de comer a Sherekan.
                — Bichano, bichano, bichano!
                Sentada de novo dentro da toca, abriu o envelope e retirou várias folhas escritas à máquina. Começou a ler.

Um ser estranho

                Cá estamos de novo. Com certeza já percebeste que este pequeno curso de filosofia vem em doses pequenas. Eis mais algumas observações introdutórias.
                Eu já disse que a capacidade de nos surpreendermos é a única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos? Se não o disse, digo-o agora: A CAPACIDADE DE NOS SURPREENDERMOS E A ÚNICA COISA DE QUE PRECISAMOS PARA NOS TORNARMOS BONS FILÓSOFOS.
                Todas as crianças pequenas possuem essa capacidade, isso é óbvio. Com poucos meses de vida, começam a aperceber-se de uma realidade completamente nova. Mas quando crescem, esta capacidade parece diminuir. Qual será o motivo? Poderá Sofia Amundsen responder a esta pergunta?
                Se um recém-nascido pudesse falar, diria certamente muitas coisas sobre o estranho mundo a que chegou. Porque ainda que a criança não possa falar, vemos como aponta à sua volta e agarra com curiosidade os objectos no quarto.
                Quando começa a falar, a criança fica parada cada vez que vê um cão e chama: — Ao, ão! Começa a agitar-se no carrinho, e move freneticamente os braços: — Ao, ão! Nós, que temos mais idade, sentimo-nos talvez pouco à vontade com o entusiasmo da criança. — Sim, sim, isso é um ãoão! — dizemos muito sabedores. — Mas agora senta-te. Não estamos assim tão entusiasmados. Já tínhamos visto cães antes.
                Provavelmente, esta cena repete-se algumas cem vezes até que a criança possa passar por um cão sem ficar fora de si. Ou por um elefante, ou por um hipopótamo. Mas muito antes que a criança aprenda a falar correctamente — ou antes que aprenda a pensar filosoficamente — o mundo tornou-se para ela algo habitual.
                É pena.
                Será a minha tarefa impedir que tu, cara Sofia, te tornes uma daquelas pessoas para quem o mundo é evidente. Para termos a certeza, vamos fazer duas experiências mentais, antes de começarmos com o curso de filosofia propriamente dito.
Imagina que dás um passeio pelo bosque. De repente, descobres à tua frente uma pequena nave espacial. Da nave espacial, um marciano desce e olha fixamente para ti...
                O que pensarias numa situação dessas? Bom, isso, no fundo, é indiferente. Mas já pensaste que tu mesma és também um marciano?
                Obviamente, não é particularmente provável que alguma vez dês com uma criatura de outro planeta. Nem sequer sabemos se h6 vida nos outros planetas. Mas é possível que tu dês contigo mesma. Pode acontecer que um belo dia fiques surpreendida e te vejas de um modo completamente diferente. Talvez isso se passe precisamente num passeio pelo bosque.
                Eu sou um ser estranho, pensas tu. Sou um animal misterioso...
                Pareces acordar de um sono de muitos anos como a Bela Adormecida. Quem sou eu? perguntas. Sabes que estás num planeta do universo. Mas o que é o universo?
                Se te descobrires desta maneira, descobriste algo tão misterioso como o marciano que mencionámos anteriormente. Não só descobriste um extraterrestre mas sentes interiormente que tu próprio és um ser desses.
                Ainda me estás a seguir, Sofia? Vamos fazer mais uma experiência:
                Certa manhã, o pai, a mãe e o pequeno Tomás, que tem dois ou três anos, estão sentados na cozinha durante o pequeno-almoço. De repente, a mãe levanta-se e vira-se para o Lava-louça: nesse preciso momento, o pai começa a voar em direcção ao tecto, enquanto Tomás observa.
                O que te parece que Tomás diz? Provavelmente, aponta para o pai e diz: — O pai voa!
                Certamente que Tomás ficaria admirado. Mas o pai faz coisas tão estranhas que um pequeno voo acima da mesa já não tem importância aos seus olhos. Todos os dias faz a barba com uma máquina engraçada, por vezes trepa ao telhado para orientar a antena da televisão — ou enfia a cabeça junto ao motor do carro e aparece depois todo negro.
                Depois, é a vez da mãe. Ela ouviu o que Tomás disse e volta-se rapidamente. Como achas que reagirá vendo o marido a esvoaçar sobre a mesa da cozinha?
                O frasco da marmelada cai-lhe imediatamente da mão, começará a gritar de medo. Talvez tenha de ir ao médico, mesmo depois de o pai se ter sentado de novo na cadeira. (Ele já devia ter aprendido há muito tempo como se comportar à mesa!).
                Porque é que Tomás e a mãe reagem de forma tão diferente?
                E uma questão de hábito. (Toma nota disto!). A mãe aprendeu que os homens não podem voar. Tomás não. Ainda não distingue o que é possível do que não é.
                Mas o que dizer do mundo, Sofia? Achas que o mundo é possível? Também está suspenso no espaço.
                O mais triste é que ao crescermos não nos habituamos apenas à lei da gravidade, habituamo-nos, simultaneamente, ao mundo.
                Aparentemente, perdemos durante a nossa infância a capacidade de nos surpreendermos com o mundo. Mas com isso, perdemos algo essencial — algo que os filósofos querem reavivar. Porque em nós algo nos diz que a vida é um grande mistério. Já tivemos essa sensação muito antes de termos aprendido a pensar nisso.
                Vou ser mais preciso: apesar de todas as questões filosóficas dizerem respeito a todos os homens, nem todos os homens se tornam filósofos. Por diversos motivos, a maior parte está presa de tal forma ao quotidiano que o espanto perante a vida é muito escasso. (Descem para a pele do coelho, acomodam-se e permanecem lá em baixo para o resto da vida).
Para as crianças, o mundo — e tudo o que existe nele — é uma coisa nova, uma coisa que provoca estupefacção. Os adultos não o vêem assim. A maior parte dos adultos vê o mundo como qualquer coisa completamente normal.
                Os filósofos constituem uma excepção notável. Um filósofo nunca se conseguiu habituar completamente ao mundo. Para um filósofo ou para uma filósofa o mundo é ainda incompreensível, inclusivamente enigmático e misterioso. Os filósofos e as crianças pequenas possuem uma importante qualidade em comum. Podes dizer que um filósofo permanece durante toda a sua vida tão capaz de se surpreender como uma criança pequena.
                E agora tens que te decidir, cara Sofia: és uma criança que ainda não se habituou ao mundo? Ou és uma filósofa que pode jurar que isso nunca lhe acontecerá?
                Se simplesmente abanas a cabeça e não te sentes nem como criança nem como filósofa, é porque te acostumaste tão bem ao mundo que este já não te surpreende. Nesse caso, o perigo está eminente. E por isso te ofereço este curso de filosofia, para prevenir. Não quero que tu pertenças à categoria dos apáticos e dos indiferentes. Quero que vivas a tua vida de modo consciente.
                Este curso é completamente grátis. Por isso, também não te será restituído dinheiro se não o fizeres. Se a determinada altura quiseres interromper o curso, não há problema. Basta deixares-me uma mensagem na caixa do correio, por exemplo, uma rã viva. De qualquer modo, tem de ser algo verde, pois não queremos assustar o carteiro.

                Breve sumário: um coelho branco é retirado de uma cartola vazia. Dado que é um coelho muito grande, este truque leva muitos biliões de anos. Na extremidade dos pêlos finos nascem todas as crianças humanas. Por isso, podem surpreender-se com a inacreditável arte da magia. Mas à medida que envelhecem, desusam cada vez mais para o fundo da pelagem do coelho. E permanecem aí. Lá em baixo estão tão confortáveis que nunca mais ousam trepar novamente pelos pêlos finos. Só os filósofos se atrevem a fazer a perigosa viagem à procura das fronteiras extremas da linguagem e da existência. Alguns deles perdem-se pelo caminho, mas outros agarram-se bem ao pêlo do coelho chamam os homens que, bem acomodados em baixo, na pele do coelho, comem e bebem tranquilamente.
                — Senhoras e senhores — gritam — estamos suspensos no espaço.
                Mas nenhum dos homens em baixo, na pele, se interessa pelo ruído que os filósofos fazem.
                — Meu Deus, que barulhentos — dizem.
                E continuam a falar como até então: — Podes passar-me a manteiga? Como estão as acções hoje? Qual é o preço do tomate? Já sabes que Lady Di deve estar de novo grávida?
                Quando, nessa tarde, a mãe chegou a casa, Sofia estava quase em estado de choque. A caixa com as cartas do filósofo misterioso estava bem escondida na toca. Depois de ter tentado estudar um pouco, Sofia ficara a pensar no que tinha lido.
                Tantas coisas sobre as quais nunca tinha reflectido antes! Já não era nenhuma criança mas também não era ainda verdadeiramente adulta. Sofia reconheceu que já tinha começado a penetrar profundamente na pelagem do coelho retirado da cartola negra do universo. Mas o filósofo impedira-a. Ele — ou ela? agarrara-a firmemente pela nuca e trouxera-a de novo para o pêlo, no qual brincara quando era criança. Ali fora, na extremidade do pêlo fino, tinha visto de novo o mundo corno se fosse pela primeira vez. O filósofo salvara-a da indiferença quotidiana.
                Ouvindo a mãe entrar, Sofia puxou-a para o quarto, e fê-la sentar numa cadeira.
Mãe, não achas que é estranho viver? — começou.
                A mãe ficou de tal modo perplexa que não lhe ocorreu nenhuma resposta. Normalmente, Sofia estava sempre sentada a fazer os trabalhos da escola quando ela chegava a casa.
                — Bom, por vezes é - disse.
                Por vezes? Quero dizer não achas estranho que haja um mundo?
                Mas Sofia, de que é que estás a falar?
                — Estou a fazer-te uma pergunta. Mas provavelmente achas o mundo completamente normal?
                — Sim. Mas o mundo é normal. A maior parte das vezes.
                Sofia compreendeu que o filósofo tinha razão. Para os adultos, o mundo era evidente. Tinham adormecido no sono eterno da vida quotidiana.
                — Tu apenas te habituaste tanto ao mundo, que já não te surpreendes — disse ela.
                — Desculpa, mas eu não estou a perceber nada.
                — Estou a dizer que te habituaste demasiado ao mundo. Por outras palavras: estás completamente embrutecida.
                — Não podes falar comigo desse modo, Sofia.
                — Então, vou dizê-lo doutra maneira. Já te acomodaste na pele do coelho que neste momento é tirado da cartola negra do universo. E agora, vais pôr as batatas a cozer. Depois, lês o jornal, e depois de uma soneca de meia hora vais ver o noticiário na televisão.
                No rosto da mãe, esboçou-se uma expressão preocupada. De facto, foi à cozinha e pôs as batatas a cozer. Em seguida, voltou à sala de estar, e aí fez Sofia sentar-se.
                — Tenho que falar contigo começou. Sofia apercebeu-se pelo tom de que se tratava de algo sério.
                Não tomaste nenhuma droga, pois não, miúda?
                Sofia não pôde deixar de se rir, mas compreendeu o motivo dessa pergunta.
                — Estás a brincar? perguntou. Com isso ainda se fica mais apático.

                Nessa tarde não se falou mais em droga nem em coelhos brancos.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Resumo do texto Filipe, 10B

O que acontece no nosso século é coisa digna de fixar a atenção; a filosofia constitui, mesmo para as pessoas de maior capacidade, uma ciência quimérica e vã, que carece de aplicação e valor, tanto na teoria como na prática. Entendo que a causa de tal desdém são os ergotistas ( os que têm por hábito argumentar por silogismos) que se postaram nas suas avenidas e as disfarçaram e adulteraram. É grande erro apresentar como inacessíveis às crianças as verdades da filosofia, considerando-as com dureza e severidade terríveis; quem ousou disfarçá-las com aparências tão distantes da verdade, com rosto tão austero e tão odioso? pelo contrário, nada há mais alegre divertido, jovial, e até, ouso dizer, galhofeiro. A filosofia só apregoa festa e tempo aprazível; uma face triste e transida expressa a ausência de filosofia.

(...) A alma que alberga a filosofia deve, para a cabal saúde daquela, ter a matéria sã; a filosofia tem de mostrar mesmo exteriormente o repouso e o bem estar; deve formar à sua semelhança, o porte externo e procurar, por conseguinte, uma dignidade agradável, um aspecto activo e alegre e um semblante contente e benigno. O testemunho mais seguro da sabedoria é um gozo interior constante; o seu estado, como o das coisas superlunares, , jamais deixa de ser a serenidade e a calma. (...) A filosofia, cuja missão é serenar as tempestades da alma, ensinar a resistir às febres  e à fome com fisionomia serena, sem se valer de princípios imaginários, mas de razões naturais e palpáveis, tem a virtude por objectivo, a qual está, como assegura a escola, colocada no cume de um monte escarpado e inacessível; os que a viram de perto, consideram-na pelo contrário, situada no alto de uma formosa planície, fértil e florescente, sob a qual contempla todas as coisas.

Montaigne, Ensaios, Ed Amigos dos livros, Lx,p.126,127

Imagem: Cícero orando na assembleia

domingo, 15 de setembro de 2019

Instruções para o resumo do texto.


1. Introdução.

1.a) Breve apresentação dos autores de que fala o texto.
1.b) Esclarecer o significado dos conceitos importantes.
1.c) Esclarecer o tema do texto.

2.  Apresentar as ideias principais começando com: " O texto relata" ou "O texto pretende defender" ou "O texto esclarece".

3. Conclusão geral.

4. Comentário crítico. ( Breve apreciação sobre o texto anifestando um juízo crítico, focando aspectos mais ou menos claros, controvérsias, objeções, outros pontos de vista)

Instruções para realizar o relatório de aula.


  1. O relatório é um resumo da aula, mas apenas dos conteúdos filosóficos que são transmitidos na aula.
  2. O relatório só deve incluir, ideias, explicações, exemplos ou discussões registadas na aula.
  3. Não deve ser muito extenso nem muito curto, Aprox 2 páginas
  4. Deve ser escrito numa linguagem cuidada.
  5. Não pode ter erros científicos.
  6. Deve ser bem organizado, mantendo os assuntos por ordem sem repetições nem saltos.
  7. Pode ter o seu grau de originalidade. Na escolha de exemplos ou na compreensão do mesmo assunto de outro modo; (se é utilizado um exemplo para demonstrar que Sócrates acreditava na imortalidade da alma, podemos dar outro exemplo que demonstre o mesmo).
       Se cumprirem as regras terão um bom relatório. Até breve. Helena Serrão

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Relatório Frederico

A justiça é a virtude primeira das instituições sociais, tal como a verdade o é para os sistemas de pensamento. Uma teoria, por mais elegante ou parcimoniosa que seja, deve ser rejeitada ou alterada se não for verdadeira; da mesma forma, as leis e instituições, apesar de poderem ser eficazes e bem concebidas, devem ser reformadas ou abolidas se forem injustas. Cada pessoa beneficia de uma inviolabilidade que decorre da justiça, a qual nem sequer em benefício do bem-estar da sociedade como um todo poderá ser eliminada. Por esta razão, a justiça impede que alguns percam a liberdade para outros passarem a partilhar um bem maior. Não permite que os sacrifícios impostos a uns poucos sejam compensados pelo aumento das vantagens usufruídas por um maior número. Assim, numa sociedade justa, a igualdade de liberdade e direitos entre os cidadãos é considerada definitiva.
(...)
Na teoria da justiça como equidade, a posição da igualdade original corresponde ao estado de natureza na teoria tradicional do contrato social.Esta posição original não é, evidentemente, concebida como uma situação histórica concreta, muito menos como um estado cultural primitivo. Deve ser vista como uma situação puramente hipotética, caracterizada de forma a conduzir a uma certa concepção da justiça. Entre as características essenciais está o facto de que ninguém conhece a sua posição na sociedade, a sua situação de classe ou estatuto social, bem como a parte que lhe cabe na distribuição de atributos e talentos naturais, como a sua inteligência, a sua força e outras qualidades semelhantes. Parto inclusivamente do princípio de que as partes desconhecem as suas concepções do bem e as suas tendências psicológicas particulares. Os princípios da justiça são escolhidos a coberto de um véu de ignorância. Assim se garante que ninguém é beneficiado ou prejudicado na escolha daqueles princípios pelos resultados do acaso natural ou pela contingência das circunstâncias sociais. Uma vez que todos os participantes estão numa situação semelhante e que ninguém está em posição de designar princípios que beneficiem a sua situação particular, os princípios da justiça são o resultado de um acordo ou negociação equitativa, (...) isto justifica a designação "justiça como equidade": transmite a ideia de que o acordo sobre os princípios da justiça é alcançado numa situação inicial que é equitativa. Não decorre daqui que os conceitos de justiça e equidade sejam idênticos, tal como também não decorre da frase "a poesia como metáfora" que os conceitos de poesia e de metáfora o sejam.

John Rawls, Uma Teoria da justiça in Textos e problemas de Filosofia

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Guião para o relatório

1. Resumo do texto
2. Notas sobre a biografia dos autores
3. Definição dos conceitos mais importantes
4. Comentário crítico

Relatório Beatriz Silva

Este argumento apela à tua intuição de que o destino das pessoas deve depender das suas escolhas, e não das circunstâncias em que por acaso se encontram. Ninguém merece ver as suas escolhas e ambições negadas pela circunstância de pertencer a uma certa classe social ou raça. Intuitivamente não achamos plausível que uma mulher, pelo simples facto de ser mulher, encontre resistências à possibilidade de liderar um banco. Estas são circunstâncias que a igualdade de oportunidades deve eliminar. Ora, estando garantida a igualdade de oportunidades, prevalece nas sociedades actuais a ideia de que as desigualdades de rendimento são aceitáveis independentemente de os menos favorecidos beneficiarem ou não dessas desigualdades. Como ninguém é desfavorecido pelas suas circunstâncias sociais, o destino das pessoas está nas suas próprias mãos. Os sucessos e os falhanços dependem do mérito de cada um, ou da falta dele. É assim que a maioria pensa.
Mas será que esta visão dominante da igualdade de oportunidades respeita a tua intuição de que o destino das pessoas deve ser determinado pelas suas escolhas, e não pelas circunstâncias em que se encontram? Rawls pensa que não. Por esta razão: reconhecendo apenas diferenças nas circunstâncias sociais e ignorando as diferenças nos talentos naturais, a visão dominante terá de aceitar que o destino de um deficiente seja determinado pela sua deficiência ou que a infelicidade de um QI baixo dite o destino de uma pessoa. Isto impõe um limite injustificado à tua intuição. Se é injusto que o destino de cada um seja determinado por desigualdades sociais, também o será se for determinado por desigualdades naturais. Afinal, a tua intuição vê a mesma injustiça neste último caso. Logo, como as pessoas são moralmente iguais, o destino de cada um não deve depender da arbitrariedade dos acasos sociais ou naturais. E neste caso não poderás aceitar o destino do deficiente ou da pessoa com um QI baixo.
O que propõe Rawls em alternativa? Que a noção comum de igualdade de oportunidades passe a reconhecer as desigualdades naturais. Como? Dispondo a sociedade da seguinte maneira: quem ganha na "lotaria" social e natural dá a quem perde. De acordo com Rawls, ninguém deve beneficiar de forma exclusiva dos seus talentos naturais, mas não é injusto permitir tais benefícios se eles trazem vantagens para aqueles que a "lotaria" natural não favoreceu. E deste modo justificamos o princípio da diferença. Concluindo, a noção dominante de igualdade de oportunidades parte da intuição de que o destino de cada pessoa deve ser determinado pelas suas escolhas, e não pelas suas circunstâncias; mas esta mesma intuição consistentemente considerada obriga a que aquela noção passe a incluir as desigualdades naturais. O que daí resulta é precisamente o princípio da diferença. Como ninguém parece querer abdicar do pressuposto da igualdade moral entre todas as pessoas, Rawls defende que o princípio que melhor dá conta desse pressuposto é o princípio da diferença.
Faustino Vaz

Relatório Diogo Rendilheiro

Como podes ver, a concepção geral de justiça de Rawls deixa estes problemas por resolver. Será então indispensável um sistema de prioridades que justifique a opção por um dos bens em conflito. E nesse caso, se escolhemos um bem em detrimento de outro, é porque temos uma razão forte para considerar um dos bens mais prioritário do que outro. Nesse sentido, Rawls divide a sua concepção geral em três princípios:

Princípio da liberdade igual: A sociedade deve assegurar a máxima liberdade para cada pessoa compatível com uma liberdade igual para todos os outros.
Princípio da diferença: A sociedade deve promover a distribuição igual da riqueza, excepto se a existência de desigualdades económicas e sociais gerar o maior benefício para os menos favorecidos.
Princípio da oportunidade justa: As desigualdades económicas e sociais devem estar ligadas a postos e posições acessíveis a todos em condições de justa igualdade de oportunidades.
Estes três princípios formam a concepção de justiça de Rawls. Mas por si só estes princípios não resolvem conflitos como os que viste. Se queres ter uma espécie de guia nas tuas escolhas, é preciso ainda estabelecer uma ordem de prioridades entre os princípios. Assim, o princípio da liberdade igual tem prioridade sobre os outros dois e o princípio da oportunidade justa tem prioridade sobre o princípio da diferença. Atingido um nível de bem-estar acima da luta pela sobrevivência, a liberdade tem prioridade absoluta sobre o bem-estar económico ou a igualdade de oportunidades, o que faz de Rawls um liberal. A liberdade de expressão e de religião, assim como outras liberdades, são direitos que não podem ser violados por considerações económicas. Por exemplo, se já tens um rendimento mínimo que te permite viver, não podes abdicar da tua liberdade e aceitar a restrição de não poderes sair de uma exploração agrícola na condição de passares a ganhar mais. Outro exemplo que a teoria de Rawls rejeita seria o de abdicares de gozar de liberdade de expressão para um dia teres a vantagem económica de não te serem cobrados impostos.
Em cada um dos princípios mantém-se a ideia de distribuição justa. Assim, uma desigualdade de liberdade, oportunidade ou rendimento será permitida se beneficiar os menos favorecidos. Isto faz de Rawls um liberal com preocupações igualitárias. Considera mais uma vez alguns exemplos. Um sistema de ensino pode permitir aos estudantes mais dotados o acesso a maiores apoios se, por exemplo, as empresas em dificuldade vierem a beneficiar mais tarde do seu contributo, aumentando os lucros e evitando despedimentos. Outro caso permitido é o de os médicos ganharem mais do que a maioria das pessoas desde que isso permita aos médicos ter acesso a tecnologia e investigação de ponta que tornem mais eficazes os tratamentos de certas doenças e desde que, claro, esses tratamentos estejam disponíveis para os menos favorecidos.
Faustino Vaz

Relatório Catarina Carvalho


1. A política baseia-se na pluralidade dos homens. Deus criou o homem, os homens são um produto humano mundano, e produto da natureza humana. A filosofia e a teologia   ocupam-se do homem, e todas as suas afirmações seriam correctas se houvesse apenas um homem, ou apenas dois homens, ou apenas homens idênticos. Por isso, não encontraram nenhuma resposta filosoficamente válida para a pergunta: o que é política? Mais, ainda: para todo o pensamento científico existe apenas o homem — na biologia ou na psicologia, na filosofia e na teologia, da mesma forma como para a zoologia só existe o leão. Os leões seriam, no caso, uma questão que só interessaria aos leões.
É surpreendente a diferença de categoria entre as filosofias políticas e as obras de todos os grandes pensadores — até mesmo de Platão. A política jamais atinge a mesma profundidade. A falta de profundidade de pensamento não revela outra coisa senão a própria ausência de profundidade, na qual a política está ancorada.
2. A política trata da convivência entre diferentes. Os homens organizam-se politicamente para certas coisas em comum, essenciais num caos absoluto, ou a partir do caos absoluto das diferenças. Enquanto os homens organizam corpos políticos sobre a família, em cujo quadro se entendem, o parentesco significa, em diversos graus, por um lado aquilo que pode ligar os mais diferentes e por outro, aquilo pelo qual formas individuais semelhantes podem separar-se de novo umas das outras e umas contra as outras.
Nessa forma de organização, a diversidade original tanto é extinta de maneira efectiva como também é destruída a igualdade essencial de todos os homens. A ruína da política em ambos os casos surge do desenvolvimento de corpos políticos a partir da família. Aqui já está indicado o que se torna simbólico na imagem da Sagrada Família: Deus não criou tanto o homem como o fez com a família.*
3. Quando se vê na família mais do que a participação, ou seja, a participação activa na pluralidade, começa-se a fazer de Deus, ou seja, a agir como se se pudesse sair, de modo natural, do princípio da diversidade.

Hannah Arendt, O que é a Política?

Relatório Camila Amorim

A teoria de Rawls constitui, em grande parte, uma reacção ao utilitarismo clássico. De acordo com esta teoria, se uma acção maximiza a felicidade, não importa se a felicidade é distribuída de maneira igual ou desigual. Grandes desníveis entre ricos e pobres parecem em princípio justificados. Mas na prática o utilitarismo prefere uma distribuição mais igual. Assim, se uma família ganha 5 mil euros por mês e outra 500, o bem-estar da família rica não diminuirá se 500 euros do seu rendimento forem transferidos para a família pobre, mas o bem-estar desta última aumentará substancialmente. Isto compreende-se porque, a partir de certa altura, a utilidade marginal do dinheiro diminui à medida que este aumenta. (Chama-se "utilidade marginal" ao benefício comparativo que se obtém de algo, por oposição ao benefício bruto: achar uma nota de 100 euros representa menos benefício para quem ganha 20 mil euros por mês do que para quem ganha apenas 500 euros por mês.) Deste modo, uma determinada quantidade de riqueza produzirá mais felicidade do que infelicidade se for retirada dos ricos para dar aos pobres. Tudo isto parece muito sensato, mas deixa Rawls insatisfeito. Ainda que o utilitarismo conduza a juízos correctos acerca da igualdade, Rawls pensa que o utilitarismo comete o erro de não atribuir valor intrínseco à igualdade, mas apenas valor instrumental. Isto quer dizer que a igualdade não é boa em si — é boa apenas porque produz a maior felicidade total.
Por consequência, o ponto de partida de Rawls terá de ser bastante diferente. Rawls parte então de uma concepção geral de justiça que se baseia na seguinte ideia: todos os bens sociais primários — liberdades, oportunidades, riqueza, rendimento e as bases sociais da auto-estima (um conceito impreciso) — devem ser distribuídos de maneira igual a menos que uma distribuição desigual de alguns ou de todos estes bens beneficie os menos favorecidos. A subtileza é que tratar as pessoas como iguais não implica remover todas as desigualdades, mas apenas aquelas que trazem desvantagens para alguém. Se dar mais dinheiro a uma pessoa do que a outra promove mais os interesses de ambas do que simplesmente dar-lhes a mesma quantidade de dinheiro, então uma consideração igualitária dos interesses não proíbe essa desigualdade. Por exemplo, pode ser preciso pagar mais dinheiro aos professores para os incentivar a estudar durante mais tempo, diminuindo assim a taxa de reprovações. As desigualdades serão proibidas se diminuírem a tua parte igual de bens sociais primários. Se aplicarmos este raciocínio aos menos favorecidos, estes ficam com a possibilidade de vetar as desigualdades que sacrificam e não promovem os seus interesses.
Mas esta concepção geral ainda não é uma teoria da justiça satisfatória. A razão é que a ideia em que se baseia não impede a existência de conflitos entre os vários bens sociais distribuídos. Por exemplo, se uma sociedade garantir um determinado rendimento a desempregados que tenham uma escolaridade baixa, criará uma desigualdade de oportunidades se ao mesmo tempo não permitir a essas pessoas a possibilidade de completarem a escolaridade básica. Há neste caso um conflito entre dois bens sociais, o rendimento e a igualdade de oportunidades. Outro exemplo é este: se uma sociedade garantir o acesso a uma determinada escolaridade a todos os seus cidadãos e ao mesmo tempo exigir que essa escolaridade seja assegurada por uma escola da área de residência, no caso de uma pessoa preferir uma escola fora da sua área de residência por ser mais competente e estimulante, gera-se um conflito entre a igualdade de oportunidades no acesso à educação e a liberdade de escolher a escola que cada um acha melhor.
Faustino Vaz