sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Ficha 5. Liberdade ou necessidade?


Leia este texto acerca da forma como este personagem parece não tomar qualquer decisão, a sua ação é apenas uma reação,sem alternativa. O seu comportamento parece ser totalmente causado e pode ser explicado por acontecimentos anteriores.

“Tomei um banho e vesti-me. Encontrei umas garrafas vazias e arranjei umas moedas por elas no armazém. Encontrei um bar na Avenida, entrei e pedi um copo. Havia um grande número de bêbados por ali, brincando com a jukebox, falando aos gritos e rindo. De quando em quando, um copo novo aparecia na minha frente. Alguém estava a pagar. Eu bebia. Comecei a falar com as pessoas. [...] Acordei muito mais tarde num reservado ao fundo do bar. Levantei-me e olhei em redor. Todos se tinham ido embora. O relógio marcava 3h15. Tentei a porta, estava trancada. Cruzei o balcão do bar e peguei numa garrafa de cerveja, abri-a, voltei a sentar-me. Depois voltei lá e tirei.. umas batatas [...] Bebi até às cinco da manhã. Depois arrumei o bar, lancei o lixo fora, fui até a porta, tentei sair. Ao chegar à rua, vi que uma viatura da polícia se aproximava. Guiavam devagar na cola dos meus passos. Depois de um quarteirão, estacionaram um pouco mais à frente de onde eu estava. Um dos policias pôs a cabeça para fora da janela. – Ei, parceiro! O foco das suas lanternas estava apontado ao meu rosto. – O que estás a fazer? – A ir pra casa. – Moras aqui perto? – Sim. – Onde? – Avenida Longwood, 2122. [...] – Entra. Obedeci. – Diz-nos onde. Levaram-me a casa. – Agora, toca à campainha. [...] – Estás completamente bêbado! – gritou meu pai. – Sim. [...] – Bêbado! O meu filho é um bêbado. O meu filho é um bêbado maldito, um desgraçado! Os cabelos na cabeça do meu pai erguiam-se em tufos desordenados. As suas sobrancelhas estavam eriçadas, a sua cara inchada e turva pelo sono. – Você age como se eu tivesse matado alguém. – É praticamente a mesma coisa! – Oooh, ... Subitamente vomitei no tapete persa que representava a Árvore da Vida. A minha mãe gritou. O meu pai avançou na minha direção.– Sabes o que fazemos com um cão que suja tapete? – Agarrou-me pela nuca. Empurrou-me para baixo, forçando-me a dobrar a coluna. Queria pôr-me de joelhos. – Vou-te ensinar. – Não... O meu rosto estava quase a roçar aquilo. – Vou-te mostrar como fazemos com os cães! Ergui-me do chão com o soco pronto. Um golpe perfeito. Ele retrocedeu a toda a distância da porta até ao sofá, onde caiu sentado. [...] [...] Fui para o meu quarto pensando que o melhor era arranjar um emprego.”

( Factótun, Charles Bukowski, L&PM Pocket, p. 21-24).
Exercício:
Grupo I
1.     O que fez com que Henry Chinaski (nome do personagem) tomasse a decisão de arranjar um emprego?
2.     Poderíamos dizer que foi definitivo para que Henry tomasse a decisão?
3.      De acordo com o seguinte argumento abaixo, responda se acha possível que toda ação humana seja causada e, ainda assim, que sejamos livres. Justifique sua resposta.
a. Todo o acontecimento tem uma causa.
b. As ações humanas são acontecimentos.
c. Portanto, todas as ações humanas são causadas.
d. As ações humanas só são livres quando não são causadas.
e. Portanto, as ações humanas não são livres.

Grupo II

Liberdade e Necessidade A. J. Ayer “[…] Do fato de o meu comportamento poder ser explicado, no sentido em que pode ser subsumido sob uma lei da natureza, não se segue que estou a agir sob coação. Se isto for correto, dizer que eu poderia ter agido de outra maneira é dizer, primeiro, que eu teria agido de outra maneira se assim o tivesse escolhido; segundo, que a minha ação foi voluntária no sentido em que as ações, digamos, de um cleptomaníaco não o são; e, em terceiro lugar, que ninguém me obrigou a escolher o que escolhi. E estas três condições podem muito bem ser respeitadas. E quando o são pode-se dizer que agi livremente. Mas isto não significa que agir como agi foi uma questão de acaso ou, por outras palavras, que a minha ação não poderia ser explicada. E que as minhas ações possam ser explicadas é tudo o que é exigido pelo postulado do determinismo.”
(Liberdade e Necessidade, A. J. Ayer, 
Exercício:
1.     A decisão de Henry de arranjar um emprego pode ser explicada?
2.     Se sim, você acha que isso é suficiente para dizer que sua escolha foi determinada? Justifique.
3.     Levando em consideração as condições explicitadas por Ayer, poderíamos dizer que a escolha de Henry é livre? Por quê?


Compatibilismo

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

MATRIZ DO 2ºTESTE DE FILOSOFIA - DEZEMBRO 2016



CONHECIMENTOS E CAPACIDADES

Compreender a especificidade da Filosofia face a outros saberes.
Identificar as áreas de investigação da Filosofia.
Compreender as competências inerentes ao trabalho filosófico.
Distinguir Filosofia e Ciência.
Distinguir Filosofia e Senso Comum
Distinguir acontecer, fazer e agir.
Explicitar os conceitos da rede conceptual da ação humana.
Distinguir as condicionantes da ação.
Problematizar a questão da liberdade e determinismo como dimensões da ação humana.
Analisar logicamente um texto filosófico.

CONTEÚDOS

1. Abordagem Introdutória à Filosofia e ao filosofar

1.1 O problema da definição da Filosofia.
1.2. As áreas de investigação da Filosofia.
1.3. A dimensão discursiva do trabalho filosófico.
1.4. Filosofia. Ciência e Senso Comum

2. A especificidade do agir humano
2.1. Acontecer, fazer e agir.
2.2.Rede conceptual da ação: agente, intenção, consciência, liberdade, responsabilidade, motivo, deliberação e decisão.
2.3.As condicionantes da ação humana: Físico-biológicas, psicológicas e histórico-culturais.


3. Determinismo e liberdade na ação humana
3.1 O homem como agente criador: a liberdade da ação.
3.2 Determinismo versus liberdade: as várias teorias filosóficas.

ESTRUTURA

Todas as questões são de resposta obrigatória

 Grupo I
(50 PONTOS)
(pode mobilizar toda a matéria dada)
 Questões
V/F , escolha múltipla ou correspondência

Grupo II
(100 PONTOS)
(Três questões
de resposta objetiva, com a possibilidade de integrar alíneas)

 Grupo III
(50 PONTOS)
Questão de análise e reflexão sobre um
Texto

CRITÉRIOS DE CLASSIFICAÇÃO

Domínio dos conceitos


Domínio dos conteúdos

 Expressão clara  e correcta

Capacidade de aplicação dos conhecimentos adquiridos

Capacidade de estabelecer relações oportunas entre os conteúdos.

 Objectividade e rigor.

             Técnica de análise de texto

domingo, 20 de novembro de 2016

Trabalho de casa


FICHA 2 – 10ºANO - ESTAMOS CONDENADOS A SER LIVRES?

(…)  o homem, estando condenado a ser livre, carrega nos ombros o peso do mundo inteiro: é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser. Tomamos a palavra "responsabilidade" no sentido corriqueiro de "consciência (de) ser o autor incontestável de um acontecimento ou de um objeto"(...)pois os piores inconvenientes ou as piores ameaças que prometem atingir a minha pessoa só adquirem sentido pelo meu projeto; e elas aparecem sobre o fundo de compromisso que eu sou. Portanto, é insensato pensar em queixar-se, pois nada alheio determinou aquilo que sentimos, vivemos ou somos. Por outro lado, tal responsabilidade absoluta não é resignação: é simples reivindicação lógica das consequências de nossa liberdade. O que acontece comigo, acontece por mim, e eu não poderia deixar me afetar por isso, nem revoltar-me, nem resignar-me. Além disso, tudo aquilo que me acontece é meu; deve-se entender por isso, em primeiro lugar, que estou sempre à altura do que me acontece, enquanto homem, pois aquilo que acontece a um homem por outros homens e por ele mesmo não poderia ser senão humano. As mais atrozes situações da guerra, as piores torturas, não criam um estado de coisas inumano· Não há situação inumanas; é somente pelo medo, pela fuga e pelo recurso a condutas mágicas que irei determinar o inumano, mas esta decisão é humana e tenho de assumir total responsabilidade por ela. Mas, além disso, a situação é minha por ser a imagem da minha livre escolha de mim mesmo, e tudo quanto ela me apresenta é meu, nesse sentido de que me representa e me simboliza. Não serei eu quem determina o grau de adversidade das coisas e até sua imprevisibilidade ao decidir por mim mesmo? Assim, não há acidentes numa vida; uma ocorrência comum que irrompe subitamente e me carrega não provém de fora; se sou mobilizado para a guerra, esta guerra é a minha guerra, é feita à minha imagem e eu mereço-a. Mereço-a, primeiro, porque sempre poderia livrar-me dela pelo suicídio ou pela deserção: esses últimos possíveis são os que devem estar sempre presentes quando se trata de enfrentar uma situação. Por ter deixado, eu escolhi-a; pode ser por fraqueza, por covardia frente à opinião pública, porque prefiro certos valores ao valor da própria recusa de entrar na guerra (a estima dos meus parentes, a honra de minha família, etc.). De qualquer modo, trata-se de uma escolha. Essa escolha será reiterada depois, continuamente, até o fim da guerra; portanto, devemos subscrever as palavras de J. Romains: "Na guerra, não há vítimas inocentes". Portanto, se preferi a guerra à morte ou à desonra, tudo se passa como se eu carregasse inteira responsabilidade por esta guerra. Sem dúvida, outros declararam a guerra, e eu ficaria tentado, talvez, a considerar-me um simples cúmplice. Mas esta noção de cumplicidade não tem mais do que um sentido jurídico; só que, neste caso, tal sentido não se sustenta, pois de mim dependeu o fato de que esta guerra não viesse a existir para mim e por mim, e eu decidi que ela existisse. Não houve coerção alguma, pois a coerção não poderia ter qualquer domínio sobre uma liberdade; não tenho desculpa alguma, porque, como dissemos e repetimos nesse livro, o próprio da realidade-humana é ser sem desculpa.

Jean- Paul Sartre, O ser e o nada, p.678,679

1.       Que teoria sobre o livre-arbítrio defende este autor?
2.       Quais os argumentos/razões que apresenta para defender a sua teoria?
3.       Concorda com estas razões e com a teoria? Porquê?
4.       Qual o exemplo que Sartre utiliza para dar consistência à sua tese?


domingo, 23 de outubro de 2016

Correção do teste de Outubro 2016

Grupo I
Análise lógica do texto filosófico apresentado no teste:
Tema: As falsas opiniões sobre a Filosofia
Problema: A que se devem as falsas opiniões sobre a filosofia?
Tese: As falsas opiniões sobre a Filosofia devem-se à forma demasiado técnica e especializada com que os filósofos escrevem.
Movimentação argumentativa: Apesar da escrita académica dos filósofos ser difícil para a maior parte das pessoas, os filósofos refletem de forma cuidadosa e racional sobre o que nós sabemos e isso levanta muitos problemas, mas a forma como se criticam impiedosamente leva a controvérsias e discussões que são divertidas e esclarecedoras e nada enfadonhas como a maioria das pessoas pensa. O problema é que não nos dá certezas reconfortantes o que não agrada a muita gente, mas a Filosofia é compreensível por todos e é excitante e importante.
Conceitos: Filosofia, Controvérsia, Crítica.
2. A atividade filosófica referida no texto é a crítica. Os filósofos criticam as ideias uns dos outros contrapondo argumentos e analisando as teorias dos outros filósofos no sentido de apurar a verdade do que é dito.
3. Conceito: Palavra ou palavras que referem uma classe de objetos e as características que lhe são comuns. É uma ideia que define uma classe de objetos. Exemplo: Termo: Filosofia, Conceito: Ideia que define a Filosofia, por exemplo, “Amor à sabedoria”
O termo é a expressão verbal de um conceito.
Juízo ou proposição é uma relação entre conceitos que traduz uma qualquer forma de conhecimento. Expressa-se numa frase ou proposição que tem valor de verdade. Exemplo de um juízo ou proposição:
“A escrita dos filósofos é demasiado técnica e especializada”
Raciocínio ou argumento: É um encadeamento lógico de juízos que fundamentam ou justificam um outro juízo que se retira destes e que é a sua conclusão.
GRUPO II
1.Sócrates não se assume como um sábio porque tem consciência que nada sabe pois o saber humano é de pouco valor, por mais que se saiba mais consciência se ganha da nossa ignorância, assim sendo a sua posição caracteriza-se por procurar o saber e amar a verdade. Esta atitude é própria do filósofo e não do sábio, visto que quem ama a verdade não se satisfaz com as crenças comuns pois nenhum saber é fixo, está continuamente sujeito à crítica.
2. Alegoria da Caverna é uma história imaginada por Platão no livro "A República" onde se pretende através de imagens, representar a condição humana face ao conhecimento. Descreve a situação de um grupo de homens numa caverna. Cada uma das imagens pretende representar um aspecto da realidade em que os homens vivem habitualmente assim como o seu conhecimento. Assim, primeiramente:
A descrição do mundo da caverna – o mundo sensível
Os prisioneiros representam a condição humana presa a ilusões e preconceitos. Escravos do hábito, do senso comum, acreditam no que vêem e rejeitam tudo o que coloque em causa a sua crença.
Um dos prisioneiros consegue fugir e libertar-se, iniciando a escalada para fora da escuridão, inicia a sua aprendizagem habituando-se progressivamente à luz e aos objetos. Começa por ver reflexos mas depois por etapas pode ver tudo, incluindo a origem da luz que é o próprio SOL (BEM). O Bem é a Verdade , a Beleza e Proporção de todas as coisas.

O Homem depois de se ter libertado, volta à caverna para libertar os outros, mas os outros não acreditam, presos ao hábito e incapazes de pensarem para além dele, matarão o libertador. A caverna representa a ignorância, o mundo em que não há liberdade pois não há alternativas, Platão pretende demonstrar que o mundo fora da caverna corresponde ao mundo pensado, onde podemos ver para além das crenças habituais que corresponde ao conhecimento.

3. Os primeiros filósofos, também denominados pré-socráticos porque se situam cronologicamente antes de Sócrates, tinham como principal problema a origem do mundo  e tentavam explicar essa origem através de uma substância primordial: "arché". O "arché" era um elemento material que poderia constituir a unidade através da qual toda a diversidade do mundo poderia ter surgido. Procuravam dar uma explicação recorrendo a uma certa lei natural da matéria e não recorriam apenas a histórias míticas para explicar o mundo como faziam os seus antepassados. Recorrem ao raciocínio a partir da observação da natureza tentando encontrar um “logos” uma lei ou unidade que permita explicar racionalmente a diversidade das coisas bem como a sua transformação. Assim, ao procurar o elemento original procuravam compreender a ordem do cosmos e a matéria que todas as coisas têm em comum. Assim para Tales o "arché" era a água, para Anaximandro o "Apeiron" e para Anaxímenes o ar.
4. A Filosofia distingue-se da Ciência pelo método e pelo ponto de vista em que se coloca. Quanto ao método não recorre a factos ou experiências para provar as suas teorias, nem para verificar se elas são verdadeiras, a Filosofia não tem um método empírico ou experimental mas sim um método argumentativo que consiste na colocação de hipóteses e na dedução das suas consequências. A Filosofia também se distingue da Ciência por causa do ponto de vista em que se coloca face ao saber. Enquanto A ciência parte de determinados pressupostos indiscutíveis como certos axiomas indemonstráveis ou de princípios, como a causalidade, a Filosofia interroga os pressupostos e coloca-os em dúvida, sendo por isso um pensamento radical no sentido em que nada aceita sem discussão prévia. A Ciência divide o seu objeto de estudo em disciplinas perdendo por isso a visão da totalidade do real, enquanto a Filosofia tem sempre como perspetiva a totalidade, o seu objeto de estudo é a totalidade do real.  Por outro lado a Filosofia não é senso comum pois este não coloca em causa o saber tradicional e tende a adotar crenças espontâneas  que não são submetidas a um exame racional ao contrário da Filosofia que submete as nossas crenças ao juízo crítico.
5. A Filosofia etimologicamente significa “amar o saber” e caracteriza-se por ser uma atividade intelectual que pretende colocar em causa as crenças infundadas tentando compreendê-las e discuti-las racionalmente de modo a poder esclarecer e problematizar o que se toma como garantido. É também uma forma de responder às questões mais gerais sobre o Bem, o Belo, o conhecimento e o ser.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Trabalho dobre "Apologia de Sócrates"


Pode ler aqui o texto completo da Apologia de Sócrates de Platão

Para  os alunos que vão fazer o trabalho sobre a obra, vamos dividi-la em três partes e cada um, uma vez que são três, faz o resumo de cada uma das partes para apresentar à turma.

1ª Parte - Visto que a obra tem 30 Capítulos. A primeira parte será do I ao X Capítulo.
2ª Parte: Do XI ao XX
3ª Parte: Do XXI ao XXX

Organização e objectivos:
1. Fazer um resumo de cada capítulo, salientando os problemas/acusações que Sócrates tem pela frente e vai responder em tribunal bem como os argumentos que usa para o fazer.
2. Salientar algumas das teses que nos permitem compreender a Filosofia Socrática.
3. Integrar a obra no contexto histórico. Onde? Quando? Quem governava? 
4. Uma conclusão onde pode dar a sua opinião acerca deste julgamento.

Escolham então os capítulos e mãos à obra.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Análise Lógica de um texto de Kant.

"No reino dos fins tudo tem um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem um preço, pode-se pôr em vez dela qualquer outra como equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e portanto não permite equivalente, então ela tem dignidade.
O que se relaciona com as inclinações e necessidades gerais do homem tem um preço venal; aquilo que, mesmo sem pressupor uma necessidade, é conforme a um certo gosto, isto é a uma satisfação no jogo livre e sem finalidade das nossas faculdades anímicas, tem um preço de afeição ou de sentimento; aquilo porém que constitui a condição graças à qual qualquer coisa pode ser um fim em si mesma, não tem apenas um valor relativo, isto é um preço, mas um valor íntimo, isto é dignidade.
Ora a moralidade é a única condição que pode fazer de um ser racional um fim em si mesmo, pois só por ela lhe é possível ser membro legislador no reino dos fins. portanto a moralidade, e a humanidade enquanto capaz de moralidade, são as únicas coisas que têm dignidade. A destreza e a diligência no trabalho têm um preço venal; a argúcia de espírito, a imaginação viva e as fantasias têm um preço de sentimento; pelo contrário, a lealdade nas promessas, o bem querer fundado em princípios ( e não no instinto) têm um valor íntimo."

Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos costumes

TEMA: A DIGNIDADE MORAL
PROBLEMA: Onde podemos encontrar a dignidade?
TESE: A moralidade, e a humanidade enquanto capaz de moralidade, são as únicas coisas que têm dignidade.

ARGUMENTO:
Todas as coisas têm um preço ou uma dignidade. Se o seu valor reside no prazer que poderemos obter (inclinação) ou na satisfação de uma necessidade, então esse valor tem um preço. Estaremos dispostos a pagá-lo com dinheiro ou favores. Poderemos substituir essa coisa por outra que possa servir para o mesmo fim e de valor equivalente. Se por acaso o seu valor é afectivo ou sentimental tem um preço sentimental, podendo ser substituída por outra coisa de igual valor. Mas quando algo não tem equivalente nem pode ser substituído, tem dignidade. O valor da humanidade está no facto de poder ser moral, ser moral ou possuir moralidade é ser capaz de produzir leis acima das inclinações, dos afectos ou das necessidades. Estas leis têm um valor absoluto porque não têm equivalente e não podem ser trocadas de acordo com as circunstâncias e as vontades particulares.
A lealdade, a honestidade têm valor íntimo e conferem dignidade ao homem. O seu valor reside no facto de não haver outro fim ou interesse em ser leal ou honesto senão o respeito pelo valor em si.
Conceitos: Dignidade, Moralidade, Os valores morais.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A Alegoria da Caverna. O Texto.


Platão, República, Livro VII, 514a -517c

Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos "robertos" colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
– Estou a ver – disse ele.
– Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
– Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
– Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?
– E os objectos transportados? Não se passa o mesmo com eles?
– Sem dúvida.        
– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam o que viam?
– É forçoso.
– E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
– Por Zeus, que sim!
– De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objectos.
– É absolutamente forçoso – disse ele.
– Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objectos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
– Muito mais – afirmou.
– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
– Seria assim – disse ele.
– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objectos?
– Não poderia, de facto, pelo menos de repente.
– Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os próprios objectos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
– Pois não!
– Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
– Necessariamente.
– Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.
– É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
– E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
– Com certeza.
– E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com mais agudeza os objectos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo "servir junto de um homem pobre, como servo da gleba", e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
– Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.
– Imagina ainda o seguinte – prossegui eu -. Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
– Com certeza.
– E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
– Matariam, sem dúvida – confirmou ele.

– Meu caro Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar-se a tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública.»