segunda-feira, 21 de novembro de 2016
domingo, 20 de novembro de 2016
Trabalho de casa
FICHA 2 – 10ºANO - ESTAMOS CONDENADOS A SER LIVRES?
(…) o homem, estando condenado a ser livre, carrega nos ombros o peso do mundo inteiro: é responsável pelo mundo e por si mesmo enquanto maneira de ser. Tomamos a palavra "responsabilidade" no sentido corriqueiro de "consciência (de) ser o autor incontestável de um acontecimento ou de um objeto"(...)pois os piores inconvenientes ou as piores ameaças que prometem atingir a minha pessoa só adquirem sentido pelo meu projeto; e elas aparecem sobre o fundo de compromisso que eu sou. Portanto, é insensato pensar em queixar-se, pois nada alheio determinou aquilo que sentimos, vivemos ou somos. Por outro lado, tal responsabilidade absoluta não é resignação: é simples reivindicação lógica das consequências de nossa liberdade. O que acontece comigo, acontece por mim, e eu não poderia deixar me afetar por isso, nem revoltar-me, nem resignar-me. Além disso, tudo aquilo que me acontece é meu; deve-se entender por isso, em primeiro lugar, que estou sempre à altura do que me acontece, enquanto homem, pois aquilo que acontece a um homem por outros homens e por ele mesmo não poderia ser senão humano. As mais atrozes situações da guerra, as piores torturas, não criam um estado de coisas inumano· Não há situação inumanas; é somente pelo medo, pela fuga e pelo recurso a condutas mágicas que irei determinar o inumano, mas esta decisão é humana e tenho de assumir total responsabilidade por ela. Mas, além disso, a situação é minha por ser a imagem da minha livre escolha de mim mesmo, e tudo quanto ela me apresenta é meu, nesse sentido de que me representa e me simboliza. Não serei eu quem determina o grau de adversidade das coisas e até sua imprevisibilidade ao decidir por mim mesmo? Assim, não há acidentes numa vida; uma ocorrência comum que irrompe subitamente e me carrega não provém de fora; se sou mobilizado para a guerra, esta guerra é a minha guerra, é feita à minha imagem e eu mereço-a. Mereço-a, primeiro, porque sempre poderia livrar-me dela pelo suicídio ou pela deserção: esses últimos possíveis são os que devem estar sempre presentes quando se trata de enfrentar uma situação. Por ter deixado, eu escolhi-a; pode ser por fraqueza, por covardia frente à opinião pública, porque prefiro certos valores ao valor da própria recusa de entrar na guerra (a estima dos meus parentes, a honra de minha família, etc.). De qualquer modo, trata-se de uma escolha. Essa escolha será reiterada depois, continuamente, até o fim da guerra; portanto, devemos subscrever as palavras de J. Romains: "Na guerra, não há vítimas inocentes". Portanto, se preferi a guerra à morte ou à desonra, tudo se passa como se eu carregasse inteira responsabilidade por esta guerra. Sem dúvida, outros declararam a guerra, e eu ficaria tentado, talvez, a considerar-me um simples cúmplice. Mas esta noção de cumplicidade não tem mais do que um sentido jurídico; só que, neste caso, tal sentido não se sustenta, pois de mim dependeu o fato de que esta guerra não viesse a existir para mim e por mim, e eu decidi que ela existisse. Não houve coerção alguma, pois a coerção não poderia ter qualquer domínio sobre uma liberdade; não tenho desculpa alguma, porque, como dissemos e repetimos nesse livro, o próprio da realidade-humana é ser sem desculpa.
Jean- Paul Sartre, O ser e o nada, p.678,679
1.
Que
teoria sobre o livre-arbítrio defende este autor?
2.
Quais
os argumentos/razões que apresenta para defender a sua teoria?
3.
Concorda
com estas razões e com a teoria? Porquê?
4.
Qual
o exemplo que Sartre utiliza para dar consistência à sua tese?
Marcadores:
Determinismo ou Livre-arbítrio,
Liberdade
domingo, 23 de outubro de 2016
Correção do teste de Outubro 2016
Grupo I
Análise lógica do texto filosófico apresentado no
teste:
Tema: As falsas opiniões sobre a Filosofia
Problema: A que se devem as falsas opiniões sobre a filosofia?
Tese: As falsas opiniões sobre a Filosofia devem-se à
forma demasiado técnica e especializada com que os filósofos escrevem.
Movimentação argumentativa: Apesar da escrita
académica dos filósofos ser difícil para a maior parte das pessoas, os
filósofos refletem de forma cuidadosa e racional sobre o que nós sabemos e isso
levanta muitos problemas, mas a forma como se criticam impiedosamente leva a
controvérsias e discussões que são divertidas e esclarecedoras e nada
enfadonhas como a maioria das pessoas pensa. O problema é que não nos dá
certezas reconfortantes o que não agrada a muita gente, mas a Filosofia é
compreensível por todos e é excitante e importante.
Conceitos: Filosofia, Controvérsia, Crítica.
2. A atividade filosófica referida no texto é a
crítica. Os filósofos criticam as ideias uns dos outros contrapondo argumentos e
analisando as teorias dos outros filósofos no sentido de apurar a verdade do
que é dito.
3. Conceito: Palavra ou palavras que referem uma
classe de objetos e as características que lhe são comuns. É uma ideia que
define uma classe de objetos. Exemplo: Termo: Filosofia, Conceito: Ideia que
define a Filosofia, por exemplo, “Amor à sabedoria”
O termo é a expressão verbal de um conceito.
Juízo ou proposição é uma relação entre conceitos que
traduz uma qualquer forma de conhecimento. Expressa-se numa frase ou proposição
que tem valor de verdade. Exemplo de um juízo ou proposição:
“A escrita dos filósofos é demasiado técnica e
especializada”
Raciocínio ou argumento: É um encadeamento lógico de
juízos que fundamentam ou justificam um outro juízo que se retira destes e que
é a sua conclusão.
GRUPO II
1.Sócrates não se assume como um sábio porque tem
consciência que nada sabe pois o saber humano é de pouco valor, por mais que se
saiba mais consciência se ganha da nossa ignorância, assim sendo a sua posição
caracteriza-se por procurar o saber e amar a verdade. Esta atitude é própria do
filósofo e não do sábio, visto que quem ama a verdade não se satisfaz com as
crenças comuns pois nenhum saber é fixo, está continuamente sujeito à crítica.
2. Alegoria da Caverna é uma história imaginada por
Platão no livro "A República" onde se pretende através de imagens,
representar a condição humana face ao conhecimento. Descreve a situação de um
grupo de homens numa caverna. Cada uma das imagens pretende representar um
aspecto da realidade em que os homens vivem habitualmente assim como o seu
conhecimento. Assim, primeiramente:
A descrição do mundo da caverna – o mundo sensível
Os prisioneiros representam a condição humana presa a ilusões e preconceitos. Escravos do hábito, do senso comum, acreditam no que vêem e rejeitam tudo o que coloque em causa a sua crença.
Um dos prisioneiros consegue fugir e libertar-se, iniciando a escalada para fora da escuridão, inicia a sua aprendizagem habituando-se progressivamente à luz e aos objetos. Começa por ver reflexos mas depois por etapas pode ver tudo, incluindo a origem da luz que é o próprio SOL (BEM). O Bem é a Verdade , a Beleza e Proporção de todas as coisas.
O Homem depois de se ter libertado, volta à caverna para libertar os outros, mas os outros não acreditam, presos ao hábito e incapazes de pensarem para além dele, matarão o libertador. A caverna representa a ignorância, o mundo em que não há liberdade pois não há alternativas, Platão pretende demonstrar que o mundo fora da caverna corresponde ao mundo pensado, onde podemos ver para além das crenças habituais que corresponde ao conhecimento.
A descrição do mundo da caverna – o mundo sensível
Os prisioneiros representam a condição humana presa a ilusões e preconceitos. Escravos do hábito, do senso comum, acreditam no que vêem e rejeitam tudo o que coloque em causa a sua crença.
Um dos prisioneiros consegue fugir e libertar-se, iniciando a escalada para fora da escuridão, inicia a sua aprendizagem habituando-se progressivamente à luz e aos objetos. Começa por ver reflexos mas depois por etapas pode ver tudo, incluindo a origem da luz que é o próprio SOL (BEM). O Bem é a Verdade , a Beleza e Proporção de todas as coisas.
O Homem depois de se ter libertado, volta à caverna para libertar os outros, mas os outros não acreditam, presos ao hábito e incapazes de pensarem para além dele, matarão o libertador. A caverna representa a ignorância, o mundo em que não há liberdade pois não há alternativas, Platão pretende demonstrar que o mundo fora da caverna corresponde ao mundo pensado, onde podemos ver para além das crenças habituais que corresponde ao conhecimento.
3. Os primeiros filósofos, também denominados pré-socráticos porque se situam cronologicamente antes de Sócrates, tinham como principal problema a origem do mundo e tentavam explicar essa origem através de uma substância primordial: "arché". O "arché" era um elemento material que poderia constituir a unidade através da qual toda a diversidade do mundo poderia ter surgido. Procuravam dar uma explicação recorrendo a uma certa lei natural da matéria e não recorriam apenas a histórias míticas para explicar o mundo como faziam os seus antepassados. Recorrem ao raciocínio a partir da observação da natureza tentando encontrar um “logos” uma lei ou unidade que permita explicar racionalmente a diversidade das coisas bem como a sua transformação. Assim, ao procurar o elemento original procuravam compreender a ordem do cosmos e a matéria que todas as coisas têm em comum. Assim para Tales o "arché" era a água, para Anaximandro o "Apeiron" e para Anaxímenes o ar.
4. A Filosofia distingue-se da Ciência pelo método e
pelo ponto de vista em que se coloca. Quanto ao método não recorre a factos ou
experiências para provar as suas teorias, nem para verificar se elas são
verdadeiras, a Filosofia não tem um método empírico ou experimental mas sim um
método argumentativo que consiste na colocação de hipóteses e na dedução das
suas consequências. A Filosofia também se distingue da Ciência por causa do
ponto de vista em que se coloca face ao saber. Enquanto A ciência parte de
determinados pressupostos indiscutíveis como certos axiomas indemonstráveis ou
de princípios, como a causalidade, a Filosofia interroga os pressupostos e
coloca-os em dúvida, sendo por isso um pensamento radical no sentido em que
nada aceita sem discussão prévia. A Ciência divide o seu objeto de estudo em
disciplinas perdendo por isso a visão da totalidade do real, enquanto a
Filosofia tem sempre como perspetiva a totalidade, o seu objeto de estudo é a
totalidade do real. Por outro lado a Filosofia não é senso comum pois
este não coloca em causa o saber tradicional e tende a adotar crenças
espontâneas que não são submetidas a um exame racional ao contrário da
Filosofia que submete as nossas crenças ao juízo crítico.
5. A Filosofia etimologicamente significa “amar o
saber” e caracteriza-se por ser uma atividade intelectual que pretende colocar
em causa as crenças infundadas tentando compreendê-las e discuti-las
racionalmente de modo a poder esclarecer e problematizar o que se toma como
garantido. É também uma forma de responder às questões mais gerais sobre o Bem,
o Belo, o conhecimento e o ser.
quinta-feira, 20 de outubro de 2016
Trabalho dobre "Apologia de Sócrates"
Pode ler aqui o texto completo da Apologia de Sócrates de Platão
Para os alunos que vão fazer o trabalho sobre a obra, vamos dividi-la em três partes e cada um, uma vez que são três, faz o resumo de cada uma das partes para apresentar à turma.
1ª Parte - Visto que a obra tem 30 Capítulos. A primeira parte será do I ao X Capítulo.
2ª Parte: Do XI ao XX
3ª Parte: Do XXI ao XXX
Organização e objectivos:
1. Fazer um resumo de cada capítulo, salientando os problemas/acusações que Sócrates tem pela frente e vai responder em tribunal bem como os argumentos que usa para o fazer.
2. Salientar algumas das teses que nos permitem compreender a Filosofia Socrática.
3. Integrar a obra no contexto histórico. Onde? Quando? Quem governava?
4. Uma conclusão onde pode dar a sua opinião acerca deste julgamento.
Escolham então os capítulos e mãos à obra.
Para os alunos que vão fazer o trabalho sobre a obra, vamos dividi-la em três partes e cada um, uma vez que são três, faz o resumo de cada uma das partes para apresentar à turma.
1ª Parte - Visto que a obra tem 30 Capítulos. A primeira parte será do I ao X Capítulo.
2ª Parte: Do XI ao XX
3ª Parte: Do XXI ao XXX
Organização e objectivos:
1. Fazer um resumo de cada capítulo, salientando os problemas/acusações que Sócrates tem pela frente e vai responder em tribunal bem como os argumentos que usa para o fazer.
2. Salientar algumas das teses que nos permitem compreender a Filosofia Socrática.
3. Integrar a obra no contexto histórico. Onde? Quando? Quem governava?
4. Uma conclusão onde pode dar a sua opinião acerca deste julgamento.
Escolham então os capítulos e mãos à obra.
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
Análise Lógica de um texto de Kant.
"No reino dos fins tudo tem um preço ou uma dignidade. Quando uma coisa tem um preço, pode-se pôr em vez dela qualquer outra como equivalente; mas quando uma coisa está acima de todo o preço, e portanto não permite equivalente, então ela tem dignidade.
O que se relaciona com as inclinações e necessidades gerais do homem tem um preço venal; aquilo que, mesmo sem pressupor uma necessidade, é conforme a um certo gosto, isto é a uma satisfação no jogo livre e sem finalidade das nossas faculdades anímicas, tem um preço de afeição ou de sentimento; aquilo porém que constitui a condição graças à qual qualquer coisa pode ser um fim em si mesma, não tem apenas um valor relativo, isto é um preço, mas um valor íntimo, isto é dignidade.
Ora a moralidade é a única condição que pode fazer de um ser racional um fim em si mesmo, pois só por ela lhe é possível ser membro legislador no reino dos fins. portanto a moralidade, e a humanidade enquanto capaz de moralidade, são as únicas coisas que têm dignidade. A destreza e a diligência no trabalho têm um preço venal; a argúcia de espírito, a imaginação viva e as fantasias têm um preço de sentimento; pelo contrário, a lealdade nas promessas, o bem querer fundado em princípios ( e não no instinto) têm um valor íntimo."
Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos costumes
TEMA: A DIGNIDADE MORAL
PROBLEMA: Onde podemos encontrar a dignidade?
TESE: A moralidade, e a humanidade enquanto capaz de moralidade, são as únicas coisas que têm dignidade.
ARGUMENTO:
O que se relaciona com as inclinações e necessidades gerais do homem tem um preço venal; aquilo que, mesmo sem pressupor uma necessidade, é conforme a um certo gosto, isto é a uma satisfação no jogo livre e sem finalidade das nossas faculdades anímicas, tem um preço de afeição ou de sentimento; aquilo porém que constitui a condição graças à qual qualquer coisa pode ser um fim em si mesma, não tem apenas um valor relativo, isto é um preço, mas um valor íntimo, isto é dignidade.
Ora a moralidade é a única condição que pode fazer de um ser racional um fim em si mesmo, pois só por ela lhe é possível ser membro legislador no reino dos fins. portanto a moralidade, e a humanidade enquanto capaz de moralidade, são as únicas coisas que têm dignidade. A destreza e a diligência no trabalho têm um preço venal; a argúcia de espírito, a imaginação viva e as fantasias têm um preço de sentimento; pelo contrário, a lealdade nas promessas, o bem querer fundado em princípios ( e não no instinto) têm um valor íntimo."
Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos costumes
TEMA: A DIGNIDADE MORAL
PROBLEMA: Onde podemos encontrar a dignidade?
TESE: A moralidade, e a humanidade enquanto capaz de moralidade, são as únicas coisas que têm dignidade.
ARGUMENTO:
Todas as coisas têm um preço ou uma dignidade. Se o seu valor reside no prazer que poderemos obter (inclinação) ou na satisfação de uma necessidade, então esse valor tem um preço. Estaremos dispostos a pagá-lo com dinheiro ou favores. Poderemos substituir essa coisa por outra que possa servir para o mesmo fim e de valor equivalente. Se por acaso o seu valor é afectivo ou sentimental tem um preço sentimental, podendo ser substituída por outra coisa de igual valor. Mas quando algo não tem equivalente nem pode ser substituído, tem dignidade. O valor da humanidade está no facto de poder ser moral, ser moral ou possuir moralidade é ser capaz de produzir leis acima das inclinações, dos afectos ou das necessidades. Estas leis têm um valor absoluto porque não têm equivalente e não podem ser trocadas de acordo com as circunstâncias e as vontades particulares.
A lealdade, a honestidade têm valor íntimo e conferem dignidade ao homem. O seu valor reside no facto de não haver outro fim ou interesse em ser leal ou honesto senão o respeito pelo valor em si.
Conceitos: Dignidade, Moralidade, Os valores morais.
Marcadores:
Análise lógica,
Ética,
Ética deontológica,
Kant
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
A Alegoria da Caverna. O Texto.
Depois disto –
prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua
falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa
habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz,
que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a
infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado
permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça,
por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao
longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há
um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género
dos tapumes que os homens dos "robertos" colocam diante do público,
para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
– Estou a ver
– disse ele.
– Visiona
também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objectos,
que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de
toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam,
outros seguem calados.
– Estranho
quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
– Semelhantes
a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles
tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projectadas
pelo fogo na parede oposta da caverna?
– Como não –
respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?
– E os
objectos transportados? Não se passa o mesmo com eles?
–
Sem dúvida.
– Então, se
eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles
julgariam estar a nomear objectos reais, quando designavam o que viam?
– É forçoso.
– E se a
prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes
falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz
da sombra que passava?
– Por Zeus,
que sim!
– De qualquer
modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse
senão a sombra dos objectos.
– É
absolutamente forçoso – disse ele.
– Considera
pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e
curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se
passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a
endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao
fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os
objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe
afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais
perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E se
ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçassem com
perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e
suporia que os objectos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe
mostravam?
– Muito mais –
afirmou.
– Portanto, se
alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e
voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar,
e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe
mostravam?
– Seria assim
– disse ele.
– E se o
arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o
deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que
ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz,
com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora
dizemos serem os verdadeiros objectos?
– Não poderia,
de facto, pelo menos de repente.
– Precisava de
se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar,
olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos
homens e dos outros objectos, reflectidas na água, e, por último, para os
próprios objectos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no
céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da
Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
– Pois não!
– Finalmente,
julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua
imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
–
Necessariamente.
– Depois já
compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que
tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles
viam um arremedo.
– É evidente
que depois chegaria a essas conclusões.
– E então?
Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía,
dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria
com a mudança e deploraria os outros?
– Com certeza.
– E as honras
e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse
com mais agudeza os objectos que passavam e se lembrasse melhor quais os que
costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam
juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia
acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder
que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em
Homero, e seria seu intenso desejo "servir junto de um homem pobre, como
servo da gleba", e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e
viver daquele modo?
– Suponho que
seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela
maneira.
– Imagina
ainda o seguinte – prossegui eu -. Se um homem nessas condições descesse de
novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar
subitamente da luz do Sol?
– Com certeza.
– E se lhe
fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado
sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar
a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso,
e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e
que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e
conduzi-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
– Matariam,
sem dúvida – confirmou ele.
– Meu caro
Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar-se a tudo quanto
dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna
da prisão, e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida
ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão
da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu
desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no
limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez
avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e
belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que,
no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é
preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública.»
domingo, 15 de maio de 2016
Correção do teste de 11 de maio
1. Segundo o que está expresso no
texto, as circunstâncias da posição original coloca os sujeitos capazes de um
sentido de justiça numa situação de igualdade, isto porque nesta situação
hipotética os indivíduos seriam colocados sob o efeito de um “véu de ignorância”
onde partiriam do princípio que são sujeitos racionais sem qualquer traço
distintivo e particular. Como os princípios da justiça devem resultar de um
contrato social, isto é de um acordo entre todos, este contrato não pode ser
feito com pessoas particulares em situação de defenderem a sua situação
particular, porque aí não seria possível um acordo que garantisse direitos
iguais pois os sujeitos não estariam numa situação de igualdade, pelo contrário
teriam interesses antagónicos e poder e conhecimentos diferentes não garantido
a justiça do contrato. A coberto do “véu da ignorância” como ninguém sabe, nem
representa nenhum interesse particular, poderá escolher os princípios de
justiça de forma imparcial e universal, pois os seus interesses serão os mesmos
de um qualquer sujeito racional. A coberto do véu da ignorância os
indivíduos que hipoteticamente não teriam qualquer estatuto social nem saberiam
que estatuto poderiam assumir na sociedade, podem escolher com equidade e de forma
imparcial que princípios devem regular a sociedade de modo a que ninguém seja
prejudicado ou beneficiado, seja pelo nascimento ou pelo mérito. Os princípios
da justiça os seguintes: liberdades básicas, igualdade na distribuição dos bens
e das oportunidades e princípio da diferença.
2. O Contrato Social é um acordo a
que todos chegam e que legitima e explica a passagem do Estado Natural para a
Sociedade ou Estado Civil. O texto faz menção a uma característica do Contrato
Social que é o facto deste ser revogável, isto é sendo um pacto feito com o
acordo de todos, este contrato estabelece uma divisão entre súbdito e soberano
ou entre governo e governados, no seio da igualdade dos
indivíduos, ambas as partes têm vantagens e obrigações. Se uma das
partes: o soberano ou os súbditos não cumprirem com as obrigações que são
estipuladas no contrato, este pode ser anulado pois como diz o texto “quando
este soberano age contrariamente ao encargo que lhe confiaram, a ele perde o
direito”. Segundo a interpretação de Locke o contrato social é revogável, se o
soberano não cumprir e não obrigar a cumprir a Lei Natural a que está obrigado,
nos termos do contrato, a defender. Para além de revogável, o contrato social é
vinculativo, pois ambas as partes são obrigadas a obedecer aos termos do
contrato e recíproco, ambos têm direitos e deveres. O modelo de Estado fundado
neste tipo de contrato é o estado liberal, nele, nenhum dos dois lados assume
um poder infinito ou absoluto e ambos estão vinculados a obrigações
3. Locke argumenta que há
necessidade de constituir uma sociedade civil para garantir a segurança da
propriedade privada e dos bens que estavam ameaçados no Estado Natural, pois no
Estado natural, não haveria nenhuma autoridade com poder e imparcialidade que
pudesse punir aqueles que transgredissem a lei natural. O indivíduo no Estado
Natural não tinha poder nem autoridade para julgar e punir quem ameaçasse a
propriedade dos seus vizinhos. Sem esta autoridade a propriedade e
os bens de cada um estariam ameaçados por falta de recursos para todos. A
sociedade civil por ter na sua génese um conjunto de deveres e direitos de todos
para com todos, constitui-se por delegação do poder de julgar e punir que todos
têm no Estado Natural, para um só, ou alguns, o governo ou soberano, permitindo
assim a segurança e a justiça, pois o soberano representando o poder de todos é
também reconhecido por todos como a única autoridade capaz de julgar e punir. Todavia a sociedade civil
não perde a sua liberdade em prol da segurança pois considera-se a liberdade
acima da segurança, logo, contrariamente ao poder do Estado Soberano para
Hobbes, que detém poder ilimitado, o soberano para Locke pode ser colocado em
causa se não cumprir a Lei Natural a que é obrigado, pois o contrato é
revogável, contrariamente ao modelo de contrato irrevogável que Hobbes defende. Para Hobbes a sociedade civil constitui-se como uma necessidade de
segurança e delega no Soberano Estado todos os seus poderes não podendo
discutir ou depor a sua autoridade mesmo se esta for abusiva. O contrato não é
assim revogável senão por um estado de guerra ou por manifesta incapacidade do
governante. Por outro lado o contrato social tal como é preconizado por Locke,
é recíproco, ambas as partes têm obrigações e os súbditos não são destituídos
de todos os poderes e liberdades mas apenas da liberdade e poder de julgar e
punir, nesse aspecto a sua obrigação é acatar as decisões do soberano enquanto
este deve cumprir essas funções de acordo com a Lei natural. Para Hobbes o
poder do Estado reside unicamente no soberano que não tem obrigações éticas,
apenas a de assegurar a paz, deste modo o contrato social não é recíproco visto
o soberano não ter a obrigação de ser justo mas apenas de evitar a guerra que
no estado natural colocava todas as vidas em perigo. Ambos são contratualistas
o que significa que fundamentam a autoridade do estado num acordo vinculativo
entre o soberano e os súbditos.
4. A frase exposta
corresponde a uma versão do imperativo hipotético, pois coloca o dever de não
mentir submetido a uma condição – a condição de querermos que os outros
acreditem em nós. Para Kant este imperativo não tem carácter moral, pois os
deveres de carácter moral devem ser incondicionais. Não mentir é um dever por
si, isto é uma ordem absoluta dada pela razão e que não está submetida a nenhum
interesse ou fim a atingir, pois se assim fosse, só deveríamos mentir em certas
ocasiões e não em todas o que para Kant não é moral, pois os deveres morais são
válidos em todas as situações e universais para todos os sujeitos. Segundo o
texto mentir nunca é moralmente permissível, seja qual for a posição, a
situação ou a necessidade de alguém, nunca é correto mentir, nem pode haver
justificação para o fazer. Pois se ação moral deve cumprir o imperativo
categórico, deve ser o único motivo o respeito para com a lei moral cuja
fórmula eleva o homem a ser um legislador, isto é, a poder fazer da regra pela qual
se segue, uma lei universal.
No caso da moral
utilitarista mentir não seria permitido excepto se mentindo contribuísse de
forma evidente para trazer uma maior felicidade ao maior número de pessoas.
Segundo o utilitarismo não há leis morais universais pois cada situação exige
que o sujeito reflicta e aja tendo em conta o bem dos outros, pois são as
consequências da ação que têm valor moral e não as intenções do sujeito.
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Opiniões sobre a Arte e a Estética
O primeiro momento da conquista estética é portanto o
encanto, mas este é algo que não se mantém. Não existe permanência no estado de
encantamento e precisa-se partir para outra conquista para recuperar o encanto
perdido. (KIEREGAARD, 1994, p.11).
Há quem passe pelo bosque e apenas veja lenha para a
fogueira. Tolstoi
Em arte tudo está naquele 'nada'.
Querer saber - o que parece tão difícil - se não é errado,
entre tantos seres vivos que praticam a violência, ser o único ou um dos poucos
não violentos, não é diferente de querer saber se seria possível ser sóbrio
entre tantos embriagados, e se não seria melhor que todos começassem logo a
beber.
A arte é um dos meios que une os homens.
A arte é uma forma da atividade humana pela qual seres
privilegiados podem comunicar a outros sensações e sentimentos que eles
próprios experimentaram.
Tolstoi
quarta-feira, 4 de maio de 2016
Definição dos conceitos de filosofia política - sobre a teoria da justiça de Rawls.
1. Contrato Social: A teoria de Rawls é contratualista, isto é, fundamenta a legitimidade do funcionamento do Estado num acordo ou pacto entre indivíduos livres. Nesse acordo todos se comprometem autonomamente em troca da reciprocidade de benefícios.
2. Véu da Ignorância: Significa uma situação hipotética em que os homens teriam de escolher os princípios de uma sociedade justa sem saberem qual a situação particular em que se encontram. Deste modo sem nada saberem sobre a sua situação particular - sexo, condição sócio-económica, saúde, etc- poderiam escolher com imparcialidade.
3.Crítica ao utilitarismo, na medida em que esta teoria utilitarista, considera que a igualdade é justificada pelo bem que pode proporcionar a um maior número de pessoas, a posição de Rawls apela, pelo contrário, à qualidade intrínseca do valor da igualdade. A igualdade é uma condição humana primária, é um "a priori", garantido pela posição original do homem.
4. Posição original: Para descobrirmos os princípios da sociedade justa devemos imaginar uma situação de partida - Posição Original - hipotética, em que indivíduos racionais estão a coberto de um Véu de Ignorância desconhecendo a sua posição na sociedade e as suas características particulares. É equivalente ao Estado de natureza em que os indivíduos se encontram numa posição de igualdade uns em relação aos outros e têm os mesmos direitos básicos.
5. Equidade: Quer dizer que a igualdade se faz segundo a diferença, isto é, diminuindo as desigualdades iniciais de nascimento, condição social e sorte. Corresponde ao ideal de justiça de Rawls em que se pressupõe que, para a dar a todos o acesso igual aos bens primários, há que ter em conta estas diferenças iniciais e tentar equilibrá-las, pois se o indivíduo não tem responsabilidade moral por ter nascido pobre não deve ser penalizado socialmente por essa "lotaria".
6. "Maximin": significa maximizar o mínimo. Rawls considera que a coberto do "véu da ignorância", os indivíduos consideram mais justa a sociedade P, mais pobre mas mais igualitária em termos de distribuição de riqueza, do que a sociedade X, mais rica mas onde há grandes diferenças entre riquezas. Na sociedade X, os mais pobres são muito pobres e os ricos muito ricos, enquanto na sociedade P, mais justa os mais pobres são menos pobres e os mais ricos menos ricos, comparativamente.
7. Bens Básicos: São aqueles a que todos têm direito e devem ter acesso em condições de igualdade: liberdades, oportunidades, rendimentos e princípios de dignidade.
8. Princípios da justiça: Igual Liberdade para todos; Oportunidade justa (Igualdade de oportunidades) e Princípio da diferença; isto é, a justificação da diferença, por exemplo de rendimentos, se esta contribuir para a diminuição das desigualdades.
9. Hierarquização dos princípios: Em casos de conflitos entre os princípios da justiça, o princípio da liberdade igual é prioritário em relação ao princípio das oportunidades justas e este, por sua vez, prioritário em relação ao princípio da diferença.
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