quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

ALGUNS TÓPICOS SOBRE A ÉTICA DE KANT

1. A Ética é o reino dos fins, isto é o modo como o homem estabelece os valores que pretende atingir através da sua acção no mundo.

2. A Ética de Kant é uma ética deontológica, isto significa que estabelece deveres absolutos que não têm excepção e que têm necessariamente de ser cumpridos se queremos que as nossas acções sejam correctas moralmente. As acções correctas são aquelas que obedecem ao dever. Não é o resultado das acções que conta, também não contam as suas consequências, o que conta na acção são as intenções , os princípios que o sujeito segue.

3.a. Há acções que vão contra o dever e essas são proibidas moralmente. (matar inocentes) e em nenhuma circunstância permitidas.

b. Acções conforme ao dever, estão de acordo com o dever mas a sua intenção não é moral, isto é a intenção é satisfazer uma necessidade, um interesse ou uma inclinação.
c. Por fim as acções que se fazem apenas por obediência ao dever e respeito absoluto pela lei, essas são acções com conteúdo moral e o sujeito que as pratica é um sujeito moral.
4. A mesma acção pode ser praticada com diferentes intenções: posso ajudar um amigo por compaixão, para obter um benefício (por exemplo, para ficar bem visto) ou por sentir que tenho esse dever.

Para determinar o valor moral de uma acção é preciso saber a intenção com que foi praticada porque a razão é que determina o fim da acção e é o fim da acção que é moral, e porque só uma vontade livre de inclinações subjectivas pode assegurar  o valor moral da acção, o seu valor universal.
Segundo Kant, ajudar um amigo só tem valor moral se isso tiver sido feito em nome do dever.


5. A ética é um sistema de regras absolutas;

As regras morais devem ser respeitadas independentemente das consequências;

As regras (deveres) morais são leis que a razão estabelece para todos os seres racionais.

As obrigações morais são absolutas porque não estão sujeitas a excepções, mesmo se aplicá-las tem consequências negativas para o sujeito. Só assim garantimos a universalidade da lei moral.
A obrigação de não mentir não varia consoante as circunstâncias, devendo nuns casos ser respeitada e não o ser noutros. essa obrigação impõe-se como uma lei do ser racional.
As obrigações morais não são impostas por Deus nem resultam dos nossos sentimentos.

Kant pensava que só somos realmente livres se formos nós próprios a definir as leis a que o nosso comportamento deverá obedecer.



6.IMPERATIVOS HIPOTÉTICOS E CATEGÓRICOS

Uma obrigação (ou imperativo) é hipotética quando existe apenas em certas condições, mas não noutras.
Tenho a obrigação de estudar para os exames de acesso a Medicina apenas na condição de querer ser médico.
Esta obrigação apenas existe em função de o agente ter um certo desejo.
Se o agente abandonar o desejo relevante, a obrigação desaparece também.
Serão as nossas obrigações morais apenas hipotéticas?
Se a moral fosse seguir regras hipotéticas, só teríamos, por exemplo, a obrigação de ajudar os outros em certas condições, não em todas. Mas temos o dever de ajudar quem precisa em todas as circunstâncias, quaisquer que sejam os nossos desejos.
A obrigação de ajudar os outros não deixa de existir porque deixámos, por exemplo, de querer agradar. Continua a existir mesmo nesse caso.
Kant conclui que a obrigação de não mentir (como todas as outras obrigações morais), não são hipotéticas.
Mentir, roubar ou matar pessoas inocentes, não é permissível pois as máximas destas acções não são universalizáveis:
As Obrigações morais particulares como não mentir, não roubar ou não matar pessoas inocentes, têm em comum o facto de as suas máximas (A regra/norma que é proposta pela acção) serem universalizáveis.



Esta característica comum reflecte a nossa obrigação moral básica: agir segundo máximas que todos possam também seguir.



Esta obrigação moral é o fundamento de todas as nossas obrigações morais particulares.



Trata-se do IMPERATIVO CATEGÓRICO ou lei moral.



• OBJECÇÕES À MORAL KANTIANA



• Kant pensava que a exigência de praticar apenas acções cujas máximas pudessem ser universalizadas garantia que as regras morais eram absolutas.



• Elisabeth Anscombe, uma filósofa inglesa do século XX mostrou que Kant estar enganado neste ponto.



• O respeito pelo imperativo categórico não implica a obrigação de não mentir em todas as situações



• A ideia de que temos a obrigação de não mentir seja em que circunstância for não é fácil de defender.



• Kant acreditava que as regras morais serem absolutas é uma consequência de apenas serem permitidas as acções cujas máximas podem ser universalizadas.



• Isto levou-o a concluir que obrigações como respeitar a palavra dada ou não mentir, não dependem das circunstâncias, sejam quais forem as consequências.



• Um exemplo pode mostrar que Kant não tem razão.



• Durante a segunda guerra mundial, Helga esconde em sua casa uma amiga judia para evitar ser deportada para um campo de extermínio. Um dia, um oficial nazi bate à porta de Helga e pergunta onde está a sua amiga.



• Segundo Kant, Helga tinha o dever de dizer a verdade.



• A máxima “É permissível mentir” não pode ser universalizada: se todos mentissem ninguém acreditaria em nada e mentir deixava de ser eficaz.
• Mas a máxima “Mente na condição de isso permitir salvar a vida a um inocente” não tem este defeito.«, isto é, pode ser universal.

OUTRA OBJECÇÃO

Kant não responsabiliza o agente moral pelas consequências materiais da acção. Uma acção cuja intenção é boa, não pode ter directamente consequências nefastas. Mas esta acção de não mentir obedeceria ao dever mas teria consequências graves para a amiga de Helga. Logo, poderemos acusar esta teoria de formal ou ideal. Num mundo ideal "não mentir" seria sempre obrigatório mas no mundo real, "não mentir" pode ter consequências materiais graves, das quais o agente moral é também responsável. Os deveres morais não podem depender das circunstâncias porque se assim for há sempre justificação para não se cumprirem e a moral será uma quimera, uma mera ilusão. Mas o agente moral não é só responsável por si, também é responsável pelos outros e pela sua felicidade e bem estar. Esse princípio não é importante, porque consideraria Kant, não podemos legislar sobre a felicidade só sobre o que devemos fazer.

Exercícios:

1.O que distingue o imperativo categórico do hipotético?

2.O que são acções correctas moralmente?

3.Como distinguir uma acção com conteúdo moral de outra que não o tem?

4.Qual é a principal objecção à teoria Ética de Kant?

5. Qual seria a obrigação de Helga? Mas seria a sua obrigação o melhor?


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Correção do teste de Fevereiro de 2016



VERSÃO A para o 10 A/ VERSÃO B para o 10F 

Grupo I
3. A característica dos valores evidenciada no texto é a historicidade e relatividade dos valores. O autor defende que os valores são produzidos por grupos sociais dentro de um contexto cultural, como tal cada cultura tem a sua criatividade e cria os seus valores, de uma forma diferente de outro grupo e de outro contexto histórico. Os valores são padrões de referência que nos permitem julgar e orientar as nossas acções, pessoas ou coisas. São qualidades potenciais das coisas e não qualidades primárias, pois resultam da relação com um sujeito que as aprecia ou não de acordo com os seus interesses e as suas circunstâncias. Os valores não são qualidades primárias porque estas são universais e objectivas, são essenciais ao objecto enquanto as qualidades valorativas são dependentes do sujeito e da sua reacção a determinado objecto. Os valores são bi-polares porque têm um pólo positivo e um negativo, hierarquizáveis porque podemos organizá-los numa ordem de acordo com um critério de valores; relativos se considerarmos que dependem do gosto, cultura e circunstâncias, mas também absolutos como certos valores éticos que são independentes da cultura, do gosto e das circunstâncias.

 Grupo III
1. O relativista defende que os valores morais e a sua aplicação dependem das culturas, assim não há juízos morais neutros ou imparciais, nenhuma cultura é superior a outra de modo a poder julgar pois cada juízo revela a forma de pensar de uma cultura específica. Face a este caso, uma vez que ele é tradição na cultura japonesa e não na cultura ocidental, fará sentido inserido no quadro dos valores japoneses, pois cada cultura encontra o seu código de valores de modo a sobreviver e a poder enfrentar as necessidades que se colocam em cada situação. Poder-se-ia, por exemplo, se fossemos relativistas, defender esta prática como forma dos Samurais demonstrarem a sua coragem e superioridade de modo a serem temidos para que o seu poder não fosse afrontado, essa seria uma forma de manter o poder do imperador e a ordem social.

2. O objectivista consideraria esta prática cruel e inadmissível porque se considerarmos que há valores morais objectivos, um deles é certamente que matar um inocente é sempre uma prática cruel e que não se pode admitir, seja qual for a cultura ou o grupo que a pratica. Para um objectivista as práticas morais são boas ou más para um observador imparcial de acordo com razões universais.

 VERSÃO B para o 10 A/ VERSÃO A para o 10F 

GRUPO I
3. A posição que defende que os valores são subjectivos defende que estes dependem do sujeito que aprecia, sendo o valor o resultado de uma apreciação subjectiva, isto é dada por alguém num certo momento histórico e num certo contexto. Os subjectivistas defendem que há sempre um sujeito que confere valor, daí que o valor das coisas, acções ou pessoas depende das preferências, circunstâncias e gostos de alguém particular. Tem a seu favor o facto de não haver acordo de opiniões acerca do que é correcto fazer-se em cada situação particular, ou na apreciação de qualquer obra. Argumento da diversidade de opiniões. Enfrenta a objecção de, quanto aos valores morais, poder justificar moralmente certas acções indesejáveis, pois baseiam-se em sentimentos pessoais que podem ser positivos ou negativos. AS TEORIAS OBJECTIVISTAS Ao contrário das teorias subjectivistas, as teorias objectivistas postulam que quando atribuímos valor a uma obra, acção ou pessoa, esse valor faz parte da natureza da obra, acção ou pessoa, o avaliador não lhe dá o valor, apenas reconhece o seu valor, isto é, reconhece as suas qualidades. As qualidades são objectivas e dependem do objecto e não do sujeito avaliador. Argumentos a favor: A concordância em relação a certas práticas culturais e princípios, como a carta universal dos direitos humanos.

 Grupo III
 1. O relativista defende que os valores morais e a sua aplicação dependem das culturas, assim não há juízos morais neutros ou imparciais, nenhuma cultura é superior a outra de modo a poder julgar pois cada juízo revela a forma de pensar de uma cultura específica. Face a este caso, uma vez que ele é tradição na cultura japonesa e não na cultura ocidental, fará sentido inserido no quadro dos valores japoneses, pois cada cultura encontra o seu código de valores de modo a sobreviver e a poder enfrentar as necessidades que se colocam em cada situação. Poder-se-ia, por exemplo, se fossemos relativistas, defender esta prática como forma dos Samurais demonstrarem a sua coragem e superioridade de modo a serem temidos para que o seu poder não fosse afrontado, essa seria uma forma de manter o poder do imperador e a ordem social.

 2. “O João agiu honestamente” é um juízo de valor porque a honestidade é um valor ético, essa qualidade não é uma qualidade primária do João como o seu peso ou altura, mas uma qualidade conferida pela apreciação de um sujeito que assim demonstra os seus critérios valorativos ou reconhece uma qualidade no João, que, possivelmente não é verdadeira para todos os que conhecem o João. O Juízo de valor não tem valor de verdade podendo ser discutido, e é normativo na medida em que nos permite compreender que aquele que valoriza está a expor a sua norma ética: Está a dizer: “quem age como o João é eticamente correcto”. ” O João tem 1.80m “ é um juízo de facto porque descreve uma qualidade primária, isto é, uma qualidade a que todos os sujeitos dão o seu acordo, por isso é objectiva e pode ser verdadeira ou falsa. É um juízo de facto porque tem valor de verdade e traduz as propriedades primárias e inquestionáveis do objecto. Os juízos de facto não são normativos mas descritivos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O que são os valores?

Robert Doisneau

O que são os valores? Dizemos que os valores não existem por si mesmos: necessitam de um depositário sobre o qual descansam. Aparecem-nos, portanto como meras qualidades desses depositários: beleza de um quadro, elegância de um vestido, utilidade de uma ferramenta. Se observarmos o vestido, o quadro ou a ferramenta, veremos que a qualidade valorativa é distinta das outras qualidades.

Nos objectos mencionados há algumas qualidades que parecem essenciais para a própria existência dos objectos, por exemplo, a extensão. Mas o valor não confere nem agrega ser, pois a pedra existia plenamente antes de ser talhada, antes de se transformar num bem.

Enquanto as qualidades primárias não se podem eliminar dos objectos, bastam uns golpes de martelo para terminar com a utilidade de um instrumento ou a beleza de uma estátua. Antes de incorporar-se no respectivo portador ou depositário, os valores são meras "possibilidades", isto é, não têm existência real mas virtual.
Ver-se-á melhor a diferença se se comparar a beleza, que é um valor, com a ideia de beleza, que é um objecto ideal. Captamos a beleza primordialmente por via emocional, enquanto a ideia de beleza aprende-se por via intelectual.
Com o fim de distinguir os valores dos objectos ideais, afirma-se que estes são, enquanto os valores não são mas valem.
Uma característica fundamental dos valores é a polaridade. Enquanto as coisas são o que são, os valores apresentam-se desdobrados num valor positivo e o correspondente valor negativo. Assim, a beleza opõe-se à fealdade, o mal ao bem. A polaridade implica a ruptura com a indiferença. Não há obra de arte que seja neutra, nem pessoa que se mantenha indiferente a escutar uma sinfonia, ler um poema ou ver um quadro.
Aliás os valores estão ordenados hierarquicamente, isto é, há valores inferiores e superiores. É mais fácil afirmar a existência de uma ordem hierárquica do que indicar qual é essa ordem e quais são os critérios para a estabelecer.
Muitos são os axiólogos que têm enunciado uma tábua de valores, pretendendo que essa seja a "TÁBUA", mas a crítica mostra rapidamente os erros de tais tábuas e dos critérios usados na sua elaboração.
O homem individualmente, bem como as comunidades e os grupos culturais concretos, manejam sempre uma tábua de valores. É certo que tais tábuas não são fixas, mas flutuantes, e nem sempre coerentes; porém é indubitável que o nosso comportamento frente ao próximo, aos seus actos, às suas criações estéticas (...) é julgá-los e preferi-los de acordo com uma tábua de valores. Submeter essas tábuas de valores, que obscuramente influem na nossa conduta e nas nossas preferências, a um exame crítico, é a tarefa a que o homem moderno não pode renunciar.
Frondizi, Qué son los valores? (México, Fondo de Cultura Económica).

Ilustração: Paul Gauguin, Les Alychamps, 1888

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Para o próximo teste de 2 de Dezembro 2015:

Olá!

Vou acrescentar à matriz os conceitos mais importantes que é preciso saber para o teste:

1. Filosofia
2. Argumento
3.Premissas
4. Conceitos
5. Proposições
6. Ação humana
7. Acontecimento
8. Intenção/Agente/Motivo/Consciência
9. Ação Voluntária/Involuntária
10. Akrasia
11. Liberdade/Decisão/Deliberação
12. Condicionantes da ação
13. Livre-arbítrio
14. Determinismo
15. Teoria

Não se esqueçam que também sai a análise lógica de texto.

Estudem e boa sorte!

A professora Helena Serrão

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Ficha sobre o filme "O menino Selvagem"



Ficha 4. “O menino Selvagem” François Truffaut, França, 1970
Nome:________________________/__________________________________

1ªParte.
1. Este filme conta uma história baseada em factos que ocorreram no seculo XIX. Qual é a história?
2. O que demonstra esta história?
3. Quais as limitações biológicas e psíquicas do menino selvagem? Porquê?
4. Considera que ele evoluiu com a aprendizagem? Dê exemplos.
5. Considera que ele poderá tornar-se um menino como os outros integrando-se na sociedade? Porquê?
6. Comente a seguinte frase: “Será preciso admitir que os homens não são homens fora do ambiente social, visto que aquilo que consideramos ser próprio deles, como o riso ou o sorriso, jamais ilumina o rosto das crianças isoladas.” Lucien Malson, “Les Enfants Sauvages”

2ª Parte
Por fim, podemos concluir que o Homem, lançado na Terra, sem forças físicas nem ideias inatas, tanto na selva como na mais civilizada das sociedades, será apenas aquilo que dele fizerem. Segundo Jaspers (filósofo alemão), “são as nossas aquisições, as nossas imitações e a nossa educação que nos transformam em homens do ponto de vista psíquico”. O comportamento humano é uma conquista feita em consequência do processo da sua integração no meio cultural, que varia em função da sociedade a que pertence. O que nos torna reconhecidamente humanos depende de muito mais do que a nossa herança genética e biológica: é fundamental ter em conta as dimensões social e cultural para que possamos compreender os seres humanos e a forma como se comportam. Tornamo-nos humanos através da aprendizagem de formas partilhadas e reconhecíveis de ser e de nos comportarmos. O Homem deve à cultura a capacidade de ultrapassar os seus instintos, tendo, desta forma, o poder de optar, escolher qual o caminho que considera melhor, segundo os valores em que se apoia, depois de analisar, racionalmente, a realidade. É portanto necessário “admitir que os homens não são homens fora do ambiente social” e que necessitam, mais do que os outros animais, da vivência junto da espécie.
Ainda que a liberdade seja um fator que está subjacente às ações especificamente humanas, podemos concluir, tendo em conta todo este caso, que existem de facto condicionantes da ação humana. Em primeiro lugar, o menino selvagem, não obstante viver numa floresta, não tinha as mesmas capacidades físicas de outros animais, ou seja, os fatores biológicos também afetaram as suas ações enquanto selvagem. Em segundo lugar, surgem os fatores intelectuais, pelo facto do menino não ter competências nesse sentido, o que dificultou as suas ações na sua vivência em sociedade.
1. Tendo em conta este texto diga quais as condicionantes que afetavam o comportamento de Victor.
2. O que é que o homem deve à cultura?
(Realize esta ficha numa folha de linhas e entregue depois de visionar o filme.)

Novembro de 2015 - Aula de Filosofia: Professora Helena Serrão

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Causalidade natural e do agente

Temos conhecimento de dois tipos de explicação de acontecimentos, duas maneiras diferentes de os objetos causarem acontecimentos. Há a causalidade inanimada e a causalidade intencional. Quando a dinamite produz uma explosão particular, fá-lo porque tem, como uma das suas propriedades, o poder e a possibilidade de exercer esse poder sob certas condições – quando é inflamada à temperatura e pressão adequadas. A dinamite tem de dar origem a uma explosão sob essas condições; não tem opção e não há nada de deliberado nisso.  
Mas suponha o leitor que a dinamite se inflamou porque um terrorista pegou fogo à dinamite porque tinha o poder de o fazer, acreditava que fazê-lo iria causar uma explosão e tinha o propósito de causar uma explosão. Escolheu incendiar a dinamite; poderia ter agido de outra maneira. Aqui temos dois tipos de explicação. A primeira em termos de poderes e possibilidades, é uma explicação inanimada. A segunda, em termos de poderes, crenças e propósitos, é intencional ou(…)pessoal.Fenómenos diferentes explicam-se de maneiras diferentes: certos acontecimentos são causados intencionalmente por pessoas (…) e certos acontecimentos são causados por coisas inanimadas.


                                                                               Richard Swinburne, Será que Deus Existe?p.30

Segundo o texto, o que distingue a causalidade natural da causalidade do agente?

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Correção do Teste de 28 de Outubro de 2015



RESPOSTAS - GRUPO III

1.  Os primeiros filósofos, também denominados pré-socráticos porque se situam cronologicamente antes de Sócrates, tinham como principal problema a origem do mundo  e tentavam explicar essa origem através de uma substância primordial: "arché". O "arché" era um elemento material que poderia constituir a unidade através da qual toda a diversidade do mundo poderia ter surgido. Procuravam dar uma explicação recorrendo a uma certa lei natural da matéria e não recorriam apenas a histórias míticas para explicar o mundo como faziam os seus antepassados. Assim, ao procurar o elemento original procuravam compreender a ordem do cosmos e a matéria que todas as coisas têm em comum. Assim para Tales o "arché" era a água, para Anaximandro o "Apeiron" e para Anaxímenes o ar.
2. Alegoria da Caverna é uma história imaginada por Platão no livro "A República" onde se pretende através de imagens, representar a condição humana face ao conhecimento. Descreve a situação de um grupo de homens numa caverna. Cada uma das imagens pretende representar um aspecto da realidade em que os homens vivem habitualmente assim como o seu conhecimento. Assim, primeiramente:
A descrição do mundo da caverna – o mundo sensível
Os prisioneiros representam a condição humana presa a ilusões e preconceitos. Escravos do hábito, do senso comum, acreditam no que vêem e rejeitam tudo o que coloque em causa a sua crença.
Um dos prisioneiros consegue fugir e libertar-se, iniciando a escalada para fora da escuridão, inicia a sua aprendizagem habituando-se progressivamente à luz e aos objetos. Começa por ver reflexos mas depois por etapas pode ver tudo, incluindo a origem da luz que é o próprio SOL (BEM). O Bem é a Verdade , a Beleza e Proporção de todas as coisas.

O Homem depois de se ter libertado, volta à caverna para libertar os outros, mas os outros não acreditam, presos ao hábito e incapazes de pensarem para além dele, matarão o libertador.A caverna representa a ignorância, o mundo em que não há liberdade pois não há alternativas, Platão pretende demonstrar que o mundo fora da caverna corresponde ao mundo pensado, onde podemos ver para além das crenças habituais que corresponde ao conhecimento.
3. A Filosofia distingue-se da Ciência pelo método e pelo ponto de vista em que se coloca. Quanto ao método não recorre a factos ou experiências para provar as suas teorias, nem para verificar se elas são verdadeiras, a Filosofia não tem um método empírico ou experimental mas sim um método argumentativo que consiste na colocação de hipóteses e na dedução das suas consequências. A Filosofia também se distingue da Ciência por causa do ponto de vista em que se coloca face ao saber. Enquanto A ciência parte de determinados pressupostos indiscutíveis como certos axiomas indemonstráveis ou de princípios, como a causalidade, a Filosofia interroga os pressupostos e coloca-os em dúvida, sendo por isso um pensamento radical no sentido em que nada aceita sem discussão prévia. A Ciência divide o seu objeto de estudo em disciplinas perdendo por isso a visão da totalidade do real, enquanto a Filosofia tem sempre como perspetiva a totalidade, o seu objeto de estudo é a totalidade do real.  Por outro lado a Filosofia não é senso comum pois este não coloca em causa o saber tradicional e tende a adotar crenças espontâneas  que não são submetidas a um exame racional ao contrário da Filosofia que submete as nossas crenças ao juízo crítico.
4. Os conceitos que caracterizam a Filosofia são Radicalidade, Autonomia, Universalidade e Historicidade. A Radicalidade significa experiência dos limites, interrogar-se sobre a raiz das ideias e das crenças tentando encontrar o seu fundamento, isto é, os princípios em que cada uma das crenças se fundamenta, os seus pressupostos, é uma característica específica da Filosofia e pressupõe uma atitude crítica e indagadora.
Autonomia significa independência, no caso da Filosofia, independência do pensamento face à Ciência e à Religião, não é o mesmo que indiferença, pelo contrário, é antes uma distanciação face às crenças divulgadas e maioritárias, essa distanciação é desejável para poder desenvolver a atitude crítica que caracteriza a Filosofia


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Para que serve a Filosofia?

"Devemos procurar o valor da filosofia, de facto, em grande medida na sua própria incerteza. O homem sem rudimentos de filosofia passa pela vida preso a preconceitos derivados do senso comum, a crenças costumeiras da sua época ou da sua nação, e a convicções que cresceram na sua mente sem a cooperação ou o consentimento da sua razão deliberativa. Para tal homem o mundo tende a tornar-se definitivo, finito, óbvio; os objectos comuns não levantam questões, e as possibilidades incomuns são rejeitadas com desdém. Pelo contrário, mal começamos a filosofar, descobrimos, como vimos nos nossos capítulos de abertura, que mesmo as coisas mais quotidianas levam a problemas aos quais só se podem dar respostas muito incompletas. A filosofia, apesar de não poder dizer-nos com certeza qual é a resposta verdadeira às dúvidas que levanta, é capaz de sugerir muitas possibilidades que alargam os nossos pensamentos e os libertam da tirania do costume. Assim, apesar de diminuir a nossa sensação de certeza quanto ao que as coisas são, aumenta em muito o nosso conhecimento quanto ao que podem ser; remove o dogmatismo algo arrogante de quem nunca viajou pela região da dúvida libertadora, e mantém vivo o nosso sentido de admiração ao mostrar coisas comuns a uma luz incomum. À parte a sua utilidade ao mostrar possibilidades insuspeitas, a filosofia tem valor — talvez o seu principal valor — por via da grandeza dos objectos que contempla, e da libertação de objectivos limitados e pessoais que resulta desta contemplação. A vida do homem instintivo está fechada no círculo dos seus interesses privados: a família e os amigos podem ser incluídos, mas o mundo exterior não é tido em consideração excepto na medida em que possa ajudar ou prejudicar o que pertence ao círculo dos desejos instintivos. Em tal vida há algo de febril e limitado, em comparação com a qual a vida filosófica é calma e livre. O mundo privado dos interesses instintivos é pequeno, localizando-se no seio de um mundo grande e poderoso que, mais cedo ou mais tarde, terá de deixar o nosso mundo privado em ruínas. A menos que possamos alargar de tal modo os nossos interesses que incluam todo o mundo exterior, somos como uma guarnição numa fortaleza sitiada, sabendo que o inimigo impede a fuga e que a rendição última é inevitável. Em tal vida não há paz, mas antes um conflito constante entre a insistência do desejo e a impotência da vontade. Temos de escapar desta prisão e deste conflito, de um modo ou de outro, para a nossa vida ser grandiosa e livre. Uma maneira de escapar é pela contemplação filosófica. A contemplação filosófica, na sua perspectiva mais ampla, não divide o universo em dois campos hostis — amigos e inimigos, vantajoso e hostil, bom e mau — vê o todo imparcialmente. A contemplação filosófica, quando não tem misturas, não tem como objectivo provar que o resto do universo é favorável ao homem. Toda a aquisição de conhecimento é um alargamento do Eu, mas este alargamento alcança-se melhor quando não é directamente procurado. Obtém-se quando só o desejo de conhecer é operativo, por um estudo que não deseja previamente que os seus objectos tenham este ou aquele carácter, antes adaptando o Eu aos caracteres que encontra nos seus objectos. Este alargamento do Eu não se obtém quando, aceitando o Eu tal como é, tentamos mostrar que o mundo é tão similar a este Eu que o seu conhecimento é possível sem admitir o que parece alienígena. O desejo de provar isto é uma forma de auto-afirmação e, como toda a auto-afirmação, é um obstáculo ao desejado crescimento do Eu, crescimento de que o Eu sabe ser capaz. A auto-afirmação, tanto na especulação filosófica como noutras áreas, vê o mundo como um meio para os seus próprios fins; assim, dá menos importância ao mundo do que ao Eu, e o Eu estabelece limites à grandeza dos seus bens. Na contemplação, pelo contrário, começamos pelo não-Eu e, através da sua grandeza, os limites do Eu alargam-se; através do infinito do universo, a mente que o contempla consegue partilhar o infinito. Por esta razão, a grandeza de alma não é fomentada pelas filosofias que assimilam o universo ao Homem. O conhecimento é uma forma de união do Eu com o não-Eu; como toda a união, é prejudicada pela dominação, e consequentemente por qualquer tentativa para forçar o universo a conformar-se ao que encontramos em nós. Há uma tendência filosófica muito comum favorável à perspectiva que nos diz que o Homem é a medida de todas as coisas, que a verdade é feita pelo homem, que o espaço e o tempo e o mundo dos universais são propriedades da mente e que, se há algo que não seja criado pela mente, é incognoscível e sem importância para nós. Esta perspectiva, se as nossas discussões prévias foram correctas, não é verdadeira; mas além de não ser verdadeira, tem o efeito de roubar à contemplação filosófica tudo o que lhe dá valor, dado que agrilhoa a contemplação ao Eu. Aquilo a que chama conhecimento não é uma união com o não-Eu, mas um conjunto de preconceitos, hábitos e desejos que constituem um véu impenetrável entre nós e o mundo que está para além. O homem que tem prazer em tal teoria do conhecimento é como o homem que nunca deixa o círculo doméstico por ter medo que a sua palavra possa não ser lei. A verdadeira contemplação filosófica, pelo contrário, encontra a sua satisfação em todo o alargamento do não-Eu, em tudo o que aumenta os objectos contemplados, e desse modo o sujeito que contempla. Na contemplação, tudo o que é pessoal ou privado, tudo o que depende do hábito, do interesse próprio, ou do desejo, distorce o objecto e assim compromete a união que o intelecto procura. Erguendo desse modo uma barreira entre sujeito e objecto, essas coisas pessoais e privadas tornam-se uma prisão para o intelecto. O intelecto livre irá ver como Deus poderia ver, sem um aqui e agora, sem esperanças e receios, sem as peias das crenças costumeiras e dos preconceitos tradicionais, calmamente, desapaixonadamente, no desejo único e exclusivo de conhecimento — conhecimento tão impessoal, tão puramente contemplativo, quanto é possível ao homem alcançar. Logo, também o intelecto livre irá valorizar mais o conhecimento abstracto e universal, no qual os acidentes da história privada não entram, do que o conhecimento dos sentidos, dependente, como tal conhecimento tem de estar, de um ponto de vista exclusivo e pessoal e de um corpo cujos órgãos dos sentidos distorcem tanto quanto revelam. A mente que se acostumou à liberdade e imparcialidade da contemplação filosófica irá preservar qualquer coisa dessa liberdade e imparcialidade no mundo da acção e da emoção. Irá ver os seus propósitos e objectivos como partes do todo, com a ausência de obstinação que resulta de os ver como fragmentos infinitesimais num mundo no qual nada do resto é afectado por qualquer dos feitos de um homem. A imparcialidade que, em contemplação, é o desejo sem misturas pela verdade, é a mesmíssima qualidade mental que, em acção, é a justiça, e na emoção é aquele amor universal que pode ser dado a todos, e não apenas aos que se julga serem úteis ou admiráveis. Assim, a contemplação alarga não apenas os objectos dos nossos pensamentos, mas também os objectos das nossas acções e afecções: faz-nos cidadãos do universo, e não apenas de uma cidade murada em guerra com tudo o resto. A verdadeira liberdade do homem, e a sua libertação da servidão de esperanças e receios limitados, consiste nesta cidadania do universo. Assim, para recapitular a nossa discussão do valor da filosofia: a filosofia é de estudar não por causa de quaisquer respostas definitivas às suas questões, dado que nenhumas respostas definitivas podem, em regra, ser conhecidas como verdadeiras, mas antes por causa das próprias questões; porque estas questões alargam a nossa concepção do que é possível, enriquecem a nossa imaginação intelectual e diminuem a confiança dogmática que fecham a mente contra a especulação; mas acima de tudo porque, através da grandeza do universo que a filosofia contempla, a mente também se torna grandiosa, e torna-se capaz dessa união com o universo que constitui o seu bem maior.

 Bertrand Russell, Princípios da Filosofia