segunda-feira, 26 de maio de 2014

Trabalho sobre o Génio. Textos.





 
                        Retrato de Rebecca Gratz, Thomas Sully (1783/1872)

Este conto foi inspirado num retrato do pintor americano Thomas Sully que Poe viu numa galeria da 4ª Avenida.
Para aqueles alunos que adoram uma boa história de terror

O retrato, já o disse, era o de uma jovem. Tratava-se de uma cabeça simples, com ombros, o todo no estilo a que se chama, em linguagem técnica, modo de vignette, muito ao modo de ser de Sully das suas cabeças predilectas. Os braços, o seio, e mesmo as pontas dos cabelos radiosos, fundiam-se imperceptivelmente na sombra vaga mas profunda que servia de fundo ao conjunto. A moldura era oval, magnificamente dourada e com lavores a prata de gosto mourisco. Como obra de arte, nada de mais admirável se podia encontrar do que a própria pintura. mas pode muito bem ser que não fosse nem a execução da obra, nem a beleza imortal da fisionomia, que me tivessem impressionado tão súbita e fortemente. Ainda menos devia eu acreditar em que a minha imaginação, saindo de um semi-sono, houvesse tomado a cabeça pela de uma pessoa viva. Vi primeiro que os pormenores do desenho, o estilo da vinheta e o aspecto da moldura teriam dissipado imediatamente um tal encantamento e me teriam evitado qualquer ilusão, mesmo momentânea. Enquanto fazia estas reflexões e muito vivamente, permaneci, meio sentado, meio estendido, talvez uma hora inteira. Por fim, tendo finalmente descoberto o verdadeiro segredo do seu efeito, tornei a deixar-me cair na cama. Adivinhara que o encanto da pintura era uma expressão vital absolutamente adequada à própria vida, que a princípio me fizera estremecer e, por fim, me confundira, subjugara, aterrorizara. Com um pavor profundo e respeitoso, (...) agarrei logo no volume que continha a análise dos quadros e a sua história. Indo direito ao número que designava o retrato oval, li a narrativa vaga e singular que segue:

" Era uma jovem de uma beleza rara, e que não era menos amável ou cheia de alegria. E maldita foi a hora em que viu, e amou, e desposou, o pintor. Ele, apaixonado, estudioso, austero e tendo já encontrado uma esposa na sua Arte; ela, uma rapariga de uma beleza muito rara e não menos amável do que cheia de alegria: só luz e sorrisos, e a galhofa de um pavão novo; amando e prezando as coisas; apenas odiando a Arte que era sua rival; apenas temendo a paleta e os pincéis, e os outros instrumentos importunos que a privavam da presença do seu adorado. Foi uma coisa terrível para esta dama ouvir o pintor falar do desejo de pintar a sua jovem esposa. Mas ela era humilde e obediente, e sentou-se com doçura durante longas semanas, no sombrio e alto quarto da torre, onde a luz se filtrava pálida pelo tecto sobre a tela. Mas ele, o pintor, empenhava-se a fundo na obra, que avançava hora a hora, dia a dia. E era um homem apaixonado, estranho e pensativo, que se perdia em devaneios; de tal modo que não queria ver que a luz que tão lugubremente caía naquela torre isolada, minava a saúde e o espírito da mulher que elanguescia visivelmente para todos, excepto para ele. Contudo, continuava a sorrir, sem jamais se lastimar, porque via que o pintor sentia um prazer vivo e ardente no seu trabalho e trabalhava noite e dia para pintar o que tanto amava. Os que contemplavam o retrato falavam em voz baixa da sua semelhança, como uma maravilha e como uma prova, não menor, da força do pintor e do seu amor profundo por aquela que pintava tão miraculosamente bem. Mas, por fim, como a tarefa se aproximasse do seu termo, ninguém mais foi admitido na torre, porque o pintor enlouquecera devido ao ardor do seu trabalho, e raramente desviava os olhos da tela, mesmo para fitar a figura da mulher. E não queria ver que as cores que expunha na tela eram tiradas das faces daquela que se achava sentada perto dele. E, quando muitas semanas passaram e pouco restava para fazer, apenas um retoque na boca e uma cor clara e transparente no olhar, o espírito da dama palpitou ainda como a chama no bico de um candeeiro. E então foi dado o retoque, a cor clara e transparente foi colocada; e durante um momento o pintor manteve-se em êxtase diante do trabalho terminado; mas um minuto depois, enquanto ainda o contemplava, estremeceu, tornou-se pálido, - e foi atingido pelo pavor; gritando com uma voz retumbante: 'Na verdade, é a própria Vida!', virou-se bruscamente para encarar a bem-amada: ela estava morta!"

Edgar Allan Poe, Contos Fantásticos, Guimarães Editores, Lisboa, 2002
Tradução de João Costa

TEXTO 2 - O GÉNIO –



Há variedade de génios como há múltiplos talentos e belezas. Alguns génios são inovadores, outros são pensadores profundos, outros são pessoas de extraordinária habilidade, alguns têm uma imaginação fora de vulgar ou formas enviesadas de ver as coisas, alguns são superiormente inteligentes, outros apaixonadamente curiosos; a maioria é a combinação de, pelo menos, três destas qualidades, constituindo uma mistura volátil de dádivas intelectuais e traços de carácter. As dádivas intelectuais são a habilidade para ver as coisas de ângulos muitíssimo improváveis, de relevar o que não é essencial, e  entender o verdadeiro significado do óbvio. Os traços de carácter são a persistência, teimosia, a capacidade para se entregar a grandes esforços, e a indiferença perante o ridículo ou a hostilidade de qualquer um que pense que aqueles fins perseguidos, os objectivos  e as inovações em questão, são loucos.
A genialidade tem qualquer coisa da abertura e prontidão mental de uma criança, essa engenhosa capacidade  para ver de outro modo, para dar saltos imaginativos e combinar coisas aparentemente inconciliáveis em novos sistemas. Entre os génios, os grandes pensadores - Platão, Aristóteles, Newton, Kant, Einstein - viram para um lugar onde as raízes de coisas muito diferentes se juntam e enredam subterraneamente. Alguns génios dificilmente são conscientes do seu poder, mas criam a impressão de uma transbordante abundância de talento. Mozart era um desses. O Talento está também no génio de pintores e escultores, nos melhores cirurgiões, artesãos, jardineiros e arquitectos. Também há génios calmos: o génio dos poetas e dos grandes novelistas, e há génio visionário nos grandes homens de estado e generais. Alguns génios devem o seu sucesso ao cuidado, estudo, esforço tenaz, dedicação e "focus", determinação e coragem. outros devem-no a um flash de feliz e excêntrica inspiração no espaço e no tempo certo para ela.

Thinking of answers, A.C. Grayling, Boomsbury, London, 2011




TEXTO 3-  KANT E O GÊNIO NA FILOSOFIA  
DANILO CITRO
A introdução do génio dentro do sistema crítico é curioso. O próprio Kant o define como um dom natural, um favor da natureza. Mas poucos nascem génios, assim premiados. As definições na analítica da faculdade de juízo estética não deixam, nem de longe, dúvidas. O génio é um talento inato, ou se nasce favorecido ou não. O sujeito comum não é capaz de desenvolver a faculdade genial. É de se notar sua importância porque Kant faz um trabalho de
apuramento de todas as faculdades, os seus momentos de actividade e suas funções. Um ser humano sadio é aquele que desenvolve todas as suas faculdades. Então por que o génio, impossível de ser desenvolvido por qualquer sujeito, tem tanta importância dentro do sistema da obra crítica? Génio é um talento inato, pelo qual a natureza dá regras à arte. E a faculdade do génio é a de apresentar ideias estéticas . Uma obra de arte é produzida a partir da representação dessas ideias. Elas também são responsáveis pela beleza da arte. E, segundo o sistema kantiano, as ideias são estéticas por serem apresentadas pela imaginação. Daí a importância da imaginação na nossa análise.  É a conformidade entre imaginação e entendimento ou razão que está em jogo. A comparação, então, é entre a disposição comum dessas faculdades e a feliz disposição genial. A disposição de um sujeito comum tem uma tendência natural para o auto-desenvolvimento, a realização do sujeito em cada um de seus dois mundos (conhecimento e moral). A disposição natural do génio é a realização do acordo vivo entre esses dois mundos. Mesmo que o génio seja um sujeito especial, as suas faculdades são as mesmas do sujeito comum. O que pode ser provado porque ele tende a comunicar o seu talento, e é justamente o que a bela arte faz. Então há uma comunicação entre o  sujeito comum e o génio, as faculdades dispostas de maneira diferente,  comunicam. Por isso, o génio é capaz de satisfazer as necessidades elevadas da humanidade. Porém, em Kant, a humanidade ainda vive aquela cisão do sujeito em dois mundos distintos, pois a realização genial por meio da obra de arte bela ocorre apenas num plano simbólico, e não efectivo. O génio não resolve o problema do abismo entre dois mundos (mundo moral e do conhecimento) vivido pelo sujeito comum, mas comunica um poder natural que nenhuma teoria científica pode descrever. Comunica o Espírito na obra de arte bela.  Esse Espírito não é capaz de ser conhecido, ser definido por um conceito aplicado na experiência. Digamos que, na linguagem kantiana, a imaginação e razão não esquematizam o Espírito . Mas ele resulta da união livre entre os dois. Dentro da relação comum entre as faculdades, o conhecimento somente é efectivado através do acordo entre imaginação e entendimento, que dá possibilidade à experiência. Não é possível uma relação positiva entre imaginação e razão no processo de conhecimento. A experiência é limitada no tempo e no espaço e não corresponde a objectos pensados pela razão. Essa relação somente é possível na apreciação da obra de arte bela, num plano simbólico. Nesse plano, a arte bela do génio permite a relação entre imaginação e razão numa experiência, levando em conta que a apreciação é uma espécie de experiência. A Imaginação é a  faculdade que dá possibilidade de sensibilizar conceitos, de apresentá-los, conforme a linguagem kantiana. O génio é capaz de sensibilizar objectos que a razão pensa, e é capaz de apresentar ideias da razão numa representação de outra natureza. Tal apresentação se chama ideias estéticas . O resultado dessa união, a apresentação de ideias estéticas , é o sentimento de vivificação do ânimo.  Espírito , em sentido estético, significa o princípio vivificante no ânimo. (KANT, 2008, p. 159).

KANT E O GÉNIO NA FILOSOFIA  
DANILO CITRO




sábado, 17 de maio de 2014

Matriz dos testes de Maio 2014 - 10ºANO



Tópicos de avaliação das respostas restritas e extensas.

- apresentar os conteúdos considerados relevantes de forma completa;

- apresentar esses conteúdos de forma clara, articulada e coerente;

- evidenciar uma utilização adequada da terminologia filosófica;

- evidenciar a interpretação adequada dos documentos apresentados.


CONTEÚDOS
I. A dimensão ético-política da acção.
 
2. A fundamentação da moral: a teoria deontológica de Kant.
2.a. Acções por dever, conforme ao dever e contra o dever.
2.b. O imperativo categórico e o Imperativo Hipotético.
2.c. A fundamentação racional: o dever como lei absoluta e incondicional
2.d. A boa vontade como subordinada à razão.
1.e. O critério da acção moral. A intenção.
1.f. Objecções à Ética kantiana.

3. A ética Utilitarista
3.a. Os princípios da Ética Utilitarista
3.b. A diferenciação de prazeres.
3.c. Utilitarismo e deontologia


4. Filosofia Política.
4.a. Norma moral e norma jurídica. Moral e Direito.
4.b. Formas de legitimar a autoridade do Estado: O contratualismo.
4.b.1. O contrato social em Locke.
4b.2. O contrato Social segundo Hobbes.
4.b.3. Comparação entre as duas teorias.
4.c. A sociedade Justa. John Rawls.
4.c.1.  Os princípios da sociedade justa: Máxima e igual Liberdade; Repartição equitativa dos bens e direitos; Princípio da Diferença; Igualdade de oportunidades.
4.c.2  O  véu da Ignorância como hipótese de imparcialidade.
4.c.3 A justiça como equidade.

Estrutura:
Quatro perguntas de construção; resposta extensa.
Oito perguntas de escolha múltipla.
3 Perguntas de resposta restrita.

Cotações:
Grupo I
4x30=120 Pontos
Grupo II
8x4= 32 Pontos
Grupo III
2x15+ 18=48

BOM ESTUDO E GRANDES IDEIAS!!!

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Teste 10E e G



Versão B
Grupo I
(3x15Pontos)
“Enquanto acto de autoprotecção […], podemos fazer o que for necessário para nos defendermos, mesmo que isso implique a morte do atacante […]. O efeito bom é a preservação da nossa vida, sendo o efeito mau a perda da vida do atacante.”
David S. Oderberg, Ética Aplicada, Lisboa, Principia, 2009, p. 233
1.1. Relacione o texto com a noção de preferência e hierarquia dos valores.
1.2. Porque razão o relativismo cultural pode conduzir ao relativismo moral?
1.3. Retire um juízo de valor do seguinte juízo de facto:  “ Em Portugal, o ordenado das mulheres  é10%  inferior ao dos homens, para tarefas iguais”.
Grupo II
(7x35 Pontos)
1. De acordo com o relativismo cultural,
(A) os critérios valorativos não variam de cultura para cultura.
(B) existe um padrão universal para avaliar os costumes.
(C) todas as práticas culturais devem ser toleradas.
(D) os códigos morais são idênticos em todas as culturas.
2. Considerar que os valores são objectivos significa considerar que os valores são
 (A) objectos de preferência.
 (B) relativos ao sujeito que valora.
 (C) objectos estimáveis.
 (D) independentes do sujeito que valora.
3. Segundo o relativismo cultural,
 (A) os valores actuais são melhores do que os do passado.
 (B) os critérios para avaliar as acções são variáveis.
 (C) os critérios para avaliar as acções são absolutos.
 (D) os valores são espirituais e intemporais.
 4. Os valores éticos são
 (A) critérios para a escolha da melhor acção.
 (B) formas determinadas de acção.
 (C) normas legais para regular a acção.
 (D) programas orientadores de acção.
5. Kant defende que a acção moral é determinada
 (A) pela inclinação e pela boa vontade.
 (B) pelo exemplo e pelo sentimento.
 (C) pela razão e pelo dever.
 (D) pelo bem-estar e pela felicidade.
6. Stuart Mill defende que uma acção tem valor moral
 (A) sempre que o agente renuncia ao prazer.
 (B) quando a intenção do agente é boa.
 (C) sempre que resulta de uma vontade boa.
 (D) quando dela resulta um maior bem comum.
 7. Segundo o relativismo cultural,
(A) os hábitos e as tradições culturais não devem ser valorizados.
(B) há verdades morais aceites por todos os povos e culturas.
(C) os juízos morais dependem das convenções de cada sociedade.
(D) a moralidade não é uma questão de convenção social.
Grupo III
(4x30 Pontos)
“ Ora todos os imperativos ordenam ou hipotética ou categoricamente. Os hipotéticos representam a necessidade prática de uma acção possível como meio de alcançar qualquer outra coisa que se quer (ou que é possível que se queira). O imperativo categórico seria aquele que nos representasse uma acção como objectivamente necessária por si  mesma, sem relação com qualquer outra finalidade. […] No caso de a acção ser apenas boa como meio para qualquer outra coisa, o imperativo é hipotético; se a acção é representada como boa em si, por conseguinte, como necessária numa vontade em si conforme à razão, como princípio dessa vontade, então o imperativo é categórico.”
I. Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Lisboa, Edições 70, 2011
1. A partir do texto, mostre por que razão, para Kant, a acção com valor moral se fundamenta no imperativo categórico e não em  imperativos hipotéticos. Na sua resposta, integre, de forma pertinente, informação do texto.
2. Distinga, segundo a moral de Kant,  acções” por dever”, “conforme ao dever” e “contra  o dever”. Exemplifique.
3. Analise a seguinte situação tendo em conta os princípios da moral deontológica de Kant e da moral utilitarista de Stuart Mill:
Imagina uma cidade onde ocorre um crime que deixa a cidade revoltada e a exigir vingança. O polícia encarregue da investigação não tem qualquer pista, e encontra-se sem auxiliares, a população enfurecida, vai fazer o linchamento público de um idiota com problemas mentais que é agressivo e que todos pensam que é o culpado. Que deve fazer o polícia? Deixar que executem um inocente ou impedir a sua execução e sofrer uma revolta popular que ameaça todas as casas e a sua própria vida?
4.  Qual seria a posição correcta? A mais justa ou a mais segura? Justifique a sua posição.

Correcção do teste de Março 2014




 
  Grupo I
1     1. Quando o relativismo cultural admite como um facto a diversidade de culturas, e se cada cultura tem códigos morais diferentes, não havendo nenhuma cultura superior que possa ter autoridade moral, então todos os códigos morais e as práticas que os aplicam são justificadas e não podem ser julgadas, pois não existe nenhuma autoridade moral fora da cultura. Deste modo estamos a defender o relativismo moral.

2.       2. A posição que defende que os valores são subjectivos defende que estes dependem do sujeito que aprecia, sendo o valor o resultado de uma apreciação subjectiva, isto é dada por alguém num certo momento histórico e num certo contexto. A posição objectiva diz que os valores não dependem dos sujeitos particulares, que existem nas coisas, não dependem da apreciação, as acções, os objectos e as pessoas têm um determinado valor, o sujeito no seu  juízo reconhece ou descobre esse valor.

3.       3. “A pena de morte é injusta visto que pode executar inocentes". Trata-se de uma opinião que confere um valor moral à pena de morte, como tal, pode ser discutida e é normativa, isto é, quer expressar a forma como o mundo devia ser.

Grupo III

1. Segundo o texto mentir nunca é moralmente permissível, seja qual for a posição, a situação ou a necessidade de alguém, nunca é correcto mentir, nem pode haver justificação para o fazer. Pois se acção moral deve cumprir o imperativo categórico, deve ser uma acção cujo único motivo seja o respeito para com a lei moral cuja fórmula eleva o homem a ser um legislador, isto é a poder fazer da regra pela qual se segue, uma lei universal. Neste sentido a regra “Deves mentir” nunca poderia ser uma lei universal, logo não podendo ser válida para todos, não pode ter apenas valor para alguns, pois isso é impossível para Kant. O valor moral de uma acção não pode ser apenas para alguns. 

2.Acções por dever são aquelas que obedecem ao imperativo categórico, a sua finalidade única é cumprir a lei que a razão a si mesma impõe, isto é o dever, logo são isentas de interesse ou da necessidade do agente. Essas são acções com valor moral.
Acções conforme ao dever seguem a norma social, são acções legais mas não são morais porque a vontade do agente é movida por um qualquer interesse ou sentimento como retirar um proveito ou pelo medo das consequências.
Acções contra o dever, não seguem a lei moral nem a norma social, não seguem qualquer norma e são comandadas por um interesse ou sentimento momentâneo do agente.


4.      3. A situação descrita no texto apresenta uma situação de dilema moral. Um dilema moral é um problema com duas soluções.  Ambas as soluções violam princípios morais, porque um dilema coloca em termos alternativos duas soluções que não seriam escolhidas livremente pelo sujeito, qualquer uma delas implica o abandono da outra  que não é correcto abandonar.
Comparação das perspetivas de Kant e de Stuart Mill relativamente ao critério de avaliação das ações morais:
Para Kant, as ações são más ou boas em si mesmas, independentemente das suas consequências práticas ou materiais. Só a vontade é boa, pois só ela pode ser controlada pelo agente, as consequências não estão no domínio do agente, logo não contam para determinar o valor moral da acção.A avaliação é feita "a priori", isto é, independente da experiência. Para Stuart Mill não há ações boas ou más em si mesmas, e a intenção com que são praticadas é irrelevante. As consequências são o único critério relevante para apreciar o valor moral das ações. Porque a acção moral visa assegurar um bem maior para todos os que estão ao seu alcance e não apenas para o agente. Daí que toda a avaliação moral seja "a posteriori".
 Comparação de Kant e de Stuart Mill relativamente ao princípio supremo da moralidade
Para Kant o imperativo categórico é o princípio supremo da moralidade. Este determina que devemos agir somente de acordo com máximas universalizáveis
Para Stuart Mill a moralidade deve fundamentar-se no princípio de utilidade que afirma que são boas as ações que tendem a promover de forma estritamente imparcial a felicidade do maior número possível de indivíduos.
 Segundo a moral kantiana o arquitecto deve dizer a verdade, porque deve obedecer à máxima moral que diz : "Não deves mentir". Mentir é, portanto, contra a lei moral, e essa lei não muda de acordo com as situações porque é universal e anterior a qualquer experiência. Essas são as condições da acção moral, por mais dolorosas que sejam as consequências, a autonomia da pessoa coloca-se na obediência à lei da razão e não aos seus interesses e sentimentos porque se assim fosse nada na sua acção poderia ter uma máxima universal porque os interesses e os sentimentos variam de pessoa para pessoa.

Segundo a moral utilitarista o arquitecto deveria calcular as hipóteses de sofrimento e prazer que as consequências da sua acção teriam para a comunidade. Se encobrir o presidente fosse necessário para proporcionar melhor qualidade de vida às pessoas, teria de ponderar, entre o sofrimento causado pelo dinheiro roubado e as consequências futuras. A sua acção poderia mudar favoravelmente a condição de muitos e isso justificaria mentir




quarta-feira, 2 de abril de 2014

Teste 10B- março 2014



VERSÃO A
Grupo I
(3x15)
  1. Diga como o relativismo cultural pode conduzir ao relativismo moral. Dê um exemplo.
  2. Distinga, no seu traço fundamental, a posição que defende que os valores são subjectivos da posição contrária.
  3. Qual o juízo de valor que poderia retirar do  seguinte juízo de facto: “ Em Portugal ,no ano de 2012, 37 mulheres morreram vítimas de violência doméstica”  ”. Justifique.
Grupo II
(7x5 Pontos)
Escreva, na folha de respostas, o número do item e a letra que identifica a opção escolhida.
1. Kant defende que a acção moral é determinada
(A) pela inclinação e pela boa vontade.
(B) pelo exemplo e pelo sentimento.
(C) pela razão e pelo dever.
(D) pelo bem-estar e pela felicidade.
2.Stuart Mill defende que uma acção tem valor moral
(A) sempre que o agente renuncia ao prazer.
(B) quando a intenção do agente é boa.
(C) sempre que resulta de uma vontade boa.
(D) quando dela resulta um maior bem comum.
3. Segundo Kant, a boa vontade
(A) não está influenciada pelo sentimento ou pelo interesse.
(B) é contrário à moral, porque torna as pessoas egoístas.
(C) é um princípio ético que a todos impõe a beatitude.
(D) pode fornecer regras, mas não uma lei moral.
4. Para Kant, a lei «Age de modo que a tua regra de conduta possa ser adoptada como lei por todos os seres racionais» significa que…
(A) os seres racionais estão submetidos a leis objectivas.
(B) as acções morais são avaliadas segundo as leis vigentes.
(C) as acções morais são avaliadas pelas suas consequências.
(D) os seres racionais estão submetidos às suas emoções.
5. O texto do imperativo categórico refere:
(A) as máximas da acção.
(B) as leis da vontade.
(C) regras em média correctas.
(D) o princípio da felicidade.
6. Um argumento contra o relativismo cultural é o de que:
(A) O relativismo cultural promove a tolerância entre culturas.
(B) Não há argumentos contra.
(C) O relativismo cultural conduz ao relativismo moral.
(D) Não devemos julgar as culturas.
7. O argumento das consequências indesejáveis  é defendido pela teoria:
(A) Objectivista
(B) Subjectivista
(C) Não é defendido por ninguém.
(D) Relativista moral.
Grupo III
(4x30 Pontos)

(…) Ficaria eu satisfeito de ver a minha máxima (de me tirar de apuros por meio de uma promessa não verdadeira) tomar o valor de lei universal (tanto para mim como para os outros)? E poderia eu dizer a mim mesmo: – Toda a gente pode fazer uma promessa mentirosa quando se acha numa dificuldade de que não pode sair de outra maneira? Em breve reconheço que posso em verdade querer a mentira, mas que não posso querer uma lei universal de mentir; pois, segundo uma tal lei, não poderia propriamente haver já promessa alguma […]. Por conseguinte, a minha máxima, uma vez arvorada em lei universal, destruir-se-ia a si mesma necessariamente. (…)
Immanuel Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Coimbra, Atlântida, 1960


1.       Explique, a partir do exemplo do texto, por que razão o acto de mentir nunca é moralmente permissível, segundo Kant.
2.       Distinga acções “contra o dever”, “conforme ao dever” e “por dever”  e reconheça o valor moral de cada uma delas.
3.       Imagine a seguinte situação de um dilema moral:
Um rapaz tem a promessa do presidente da câmara para realizar um bairro com jardins e centro cultural para um grupo de desfavorecidos. Por outro lado o rapaz tem provas de que o presidente é corrupto e que desviou dinheiro para a sua conta pessoal. Se depuser em tribunal contra o presidente não terá o bairro construído pois o presidente será preso, se não depuser tem a promessa que esse projecto se realizará.
Que deve fazer o rapaz? Avalie a questão segundo os princípios da ética deontológica de kant e da ética utilitarista de Stuart Mill.
4.       Qual a sua opinião, o que faria neste caso? Fundamente.

segunda-feira, 3 de março de 2014

Correção do teste de Fevereiro 2014


1. Análise lógica do texto de James Rachels
Tema: Certas práticas culturais.

Problema: É errado condenar certas práticas culturais?

Tese: Não é errado condenar certas práticas culturais.

Argumento:  Porque todas as culturas têm boas e más práticas, condenar algumas delas, como a excisão, não é desprezar a cultura em que estas práticas são permitidas,  é apenas condenar o que está mal em cada cultura. É um erro pensar que não devemos condenar certas práticas só porque podemos ser mal interpretados como estando a desprezar toda a cultura.

Conceitos: práticas, cultura, excisão

2. Não é favorável ao relativismo cultural porque o autor defende que há certas práticas culturais que são más e como tal não as devemos aceitar só porque são de uma cultura diferente. Segundo o relativismo cultural não podemos julgar nenhuma prática de culturas diferentes porque nenhum juízo é neutro e estamos a julgar de acordo com os valores da nossa cultura e portanto estamos a ser parciais. Um Argumento a favor do relativismo cultural é o facto de salientar a tolerância face a diferentes manifestações culturais; um argumento contra é aquele que aponta para o relativismo moral como consequência o que nos permite justificar e aceitar práticas violentas e violadoras dos direitos universais do homem.

3. Existem três explicações sobre a natureza e origem dos valores, todas elas têm razões para as suas teses  e  todas elas são insuficientes para explicar a natureza e origem dos valores porque enfrentam sérias objecções. Geralmente e intuitivamente, somos levados a pensar que existem valores subjectivos, mas que há outros que se impõem mesmo que o sujeito não os defenda, são objectivos e ainda outros são culturais, isto é derivam da forma como a sociedade em que vivemos evoluiu ao longo do tempo. Assim as teses das três teorias extremam posições do seguinte modo: Os subjectivistas defendem que há sempre um sujeito que confere valor, daí que o valor das coisas, acções ou pessoas depende das preferências, circunstâncias e gostos de alguém particular: O sujeito.
Tem a seu favor o facto de não haver acordo de opiniões acerca do que é correcto fazer-se em cada situação particular, ou na apreciação de qualquer obra. Argumento da diversidade de opiniões. Enfrenta a objecção de, quanto aos valores morais, poder justificar moralmente certas acções indesejáveis.
AS TEORIAS OBJECTIVISTAS
Ao contrário das teorias subjectivistas, as teorias objectivistas postulam que quando atribuímos valor a uma obra, acção ou pessoa, esse valor faz parte da natureza da obra, acção o pessoa, o avaliador não lhe dá o valor, apenas reconhece o seu valor, isto é, reconhece as suas qualidades. As qualidades são objectivas e dependem do objecto e não do sujeito avaliador. Argumentos a favor: A concordância em relação  a certas práticas culturais e princípios, como a carta universal dos direitos humanos. Outro argumento: as consequências indesejáveis que pode ter defender o subjectivismo moral e o relativismo moral, porque nos pode tornar cúmplices de crimes e discriminações que causam sofrimento a muitas pessoas.

III

1.  O relativista defende que os valores morais e a sua aplicação dependem das culturas, assim não há juízos morais neutros ou imparciais, nenhuma cultura é superior a outra de modo a poder julgar pois cada juízo revela a forma de pensar de uma cultura específica. Face a este caso, uma vez que ele é tradição na cultura japonesa e não na cultura ocidental, fará sentido inserido no quadro dos valores japoneses, pois cada cultura encontra o seu código de valores de modo a sobreviver e a poder enfrentar as necessidades que se colocam em cada situação. Poder-se-ia, por exemplo, se fossemos relativistas, defender esta prática como forma dos Samurais demonstrarem a sua coragem e superioridade de modo a serem temidos para que o seu poder não fosse afrontado, essa seria uma forma de manter o poder do imperador e a ordem social.
Objecções: Julgar certas práticas culturais como incorrectas não significa julgar as culturas incorrectas, tal como pensam os relativistas, esse juízo é até necessário para não sermos cúmplices de certos actos violentos contra a dignidade humana.
O relativismo cultural pode ter como consequência o relativismo moral, e a moral não depende apenas das culturas mas podemos defender que há juízos morais universais.


2. Os valores são padrões de referência que nos permitem julgar e orientar as nossas acções, pessoas ou coisas. São  qualidades potenciais das coisas e não qualidades primárias, pois resultam da  relação com um sujeito que as aprecia ou não de acordo com os seus interesses e as suas circunstâncias. Os valores não são qualidades primárias porque estas são universais e objectivas, são essenciais ao objecto enquanto as qualidades valorativas são dependentes do sujeito e da sua reacção a determinado objecto.
Os valores são bi-polares porque têm um pólo positivo e um negativo, hierarquizáveis porque podemos organizá-los numa ordem de acordo com um critério de valores; relativos se considerarmos que dependem do gosto, cultura e circunstâncias, mas também absolutos como certos valores éticos que são independentes da cultura, do gosto e das circunstâncias.

3. “O João agiu honestamente” é um juízo de valor porque a honestidade é um valor ético, essa qualidade não é uma qualidade primária do João como o seu peso ou altura, mas uma qualidade conferida pela apreciação de um sujeito que assim demonstra os seus critérios valorativos ou reconhece uma qualidade  no João, que, possivelmente não é verdadeira para todos os que conhecem o João.  O Juízo de valor não tem valor de verdade podendo ser discutido, e é normativo na medida em que nos permite compreender que aquele que valoriza está a expor a sua norma ética: Está a dizer: “quem age como o João é eticamente correcto”.
” O João tem 1.80m “ é um juízo de facto porque descreve uma qualidade primária, isto é, uma qualidade a que todos os sujeitos dão o seu acordo, por isso é objectiva e pode ser verdadeira ou falsa. É um juízo de facto porque tem valor de verdade e traduz as propriedades primárias e inquestionáveis do objecto.



4. Heteronomia da consciência moral designa o modo como a consciência interioriza as normas e leis sociais e as reflecte como deveres impelindo o sujeito a obedecer-lhes.  No modo heterónimo o motivo da nossa acção é a obediência ao que é correcto socialmente. Neste caso a lei da acção é captada do exterior. Autonomia da consciência é o modo como a consciência é capaz de pensar de acordo com o que está correcto em cada situação e de forma independente, sem se limitar a obedecer às normas sociais. Ambos os modos contribuem para a formação da consciência moral.